Por que algumas pessoas se tornam terroristas?

H.D.S. Greenway
The Boston Globe

O que faz uma pessoa tornar-se um terrorista? Uma das respostas mais freqëntes nos diz que é a pobreza, e já houve muitos que sugeriram novos planos Marshall para o terceiro mundo, na intenção de "drenar o pântano" de onde brotam os terroristas.

Mas ao que parece, as pessoas que dirigem a Al Qaeda, assim como os 19 suicidas de 11 de setembro, não levavam vidas marcadas pela pobreza. Eles vieram da classe média e, no caso de Osama bin Laden, das fatias mais abastadas do espectro econômico -- do mesmo extrato em que surgiram os terroristas radicais americanos da década de 60, o autor do atentado de Oklahoma Timothy McVeigh e as Brigadas Vermelhas da Europa.

Nem mesmo a baixa escolaridade parece ser um fator relevante. Os atacantes suicidas não eram iletrados. Afinal de contas eram pilotos, ainda que não tenham sido treinados para aterrissagens. Na verdade, talvez seja melhor aliciar para o terrorismo os ricos e os mais educados do que qualquer recruta miserável e sem instrução, conforme sugere Jessica Stern, professora de Harvard que realizou alguns importantes estudos acadêmicos a partir de entrevistas com terroristas.

O que dizer então da desigualdade? Curiosamente, a distribuição de renda é mais justa no Egito do que nos Estados Unidos, e o Paquistão possui índices semelhantes aos holandeses, afirma o pesquisador de Harvard Robert Lawrence. No curto prazo, o desenvolvimento econômico pode causar feridas, afirma Lawrence, pois as sociedades menos avançadas raramente se revoltam. É a partir do momento em que o crescimento de expectativas e aspirações se sobrepõem às circunstâncias e oportunidades que ocorrem as revoluções.

Quais seriam então os fatores que determinam o surgimento de um terrorista? Stern dá a resposta: a percepção da privação -- e a percepção é mais importante que a realidade --, a humilhação, o desespero, a inveja, e a vida glamourosa que o terrorismo oferece. Entrar para uma gangue de uma grande cidade americana não é algo tão diferente. Um terrorista faz parte de um grupo de elite. Ele pertence a este grupo. O grupo cuida dele. Se for necessário o suicídio, as famílias dos mártires tornam-se celebridades.

"As pessoas demonstram um respeito muito maior por um casal depois que eles perdem um filho... e quando há um mártir na cidade, isso estimula outras crianças a entrarem para a jihad. Estas mortes elevam o ânimo de toda a cidade", disse um paquistanês, pai de um mártir, em entrevista concedida a Stern.

Acrescente-se a este quadro a base da religião e teremos uma combinação ainda mais perigosa, pois quando se imagina que as vítimas são infiéis, deixam de ser aplicadas a elas as regras normais de conduta. O mesmo se aplica a conflitos étnicos em que "o outro" é desumanizado; acrescente-se ainda um líder messiânico e carismático como Bin Laden e entao teremos um problema enorme.

Stern e Lawrence proferiram na semana passada uma conferência em Harvard sobre "a inviabilização do terrorismo" -- uma conferência em que os dois pesquisadores expuseram algumas recomendações que o país poderia adotar neste mundo pós-11 de setembro.

Não surpreende tanto que aqueles que são relativamente mais abastados tornem-se terroristas mais notórios do que os pobres. A classe média não se sente menos humilhada e desesperançada quando suas expectativas crescentes são frustradas, ou quando se sentem alienadas de suas sociedades. E eles dispõem de mais meios para tomar alguma atitude.

No entanto, ninguém poderia negar que há um fator econômico que contribui para o surgimento do terrorismo. No decorrer da história sempre existiu uma correlação entre violência e períodos de dificuldades economicas. A divisão da Iugoslávia ocorreu em um período de crise econômica. O desemprego da Irlanda do Norte certamente contribuiu para as dores dos irlandeses, e a privação econômica na Cisjordânia e na Faixa de Gaza contribuíram para que os palestinos recorressem à violência.

Stern recorda que as escolas religiosas do Paquistão formam seus alunos apenas em religião e nada ensinam a respeito de matemática ou ciências, ou de qualquer coisa que pudesse ter utilidade no mundo moderno. E quando estes alunos não encontram empregos, eles podem ser facilmente recrutados. E embora jovens ricos possam tornar-se oficiais do terror, "são os corpos de pobres e desvalidos que substituem as balas do canhão", escreve Stern.

Para que proliferem os terroristas, eles necessitam de um Estado falido -- algo que o Afeganistão representou com perfeição, e que a Somália poderá representar no futuro. E os Estados falidos são quase sempre assolados pela pobreza. Sempre foi perigoso viver ao lado de Estados falidos, mas agora (como provou o Afeganistão) eles também representam uma ameaça aos Estados Unidos.

"Drenar o pântano" da pobreza, portanto, talvez não garanta uma proteção imediata contra o terrorismo, mas a pobreza contribui para a percepção da privação, da humilhação, da desesperança e da inveja, comum a sociedades traumatizadas que, por sua vez, geram seres patologicamente frustrados que se revoltam contra a ordem estabelecida

Tradução: André Medina Carone

UOL Cursos Online

Todos os cursos