Intransigência de Bush impede redução drástica dos arsenais dos EUA e da Rússia

The Boston Globe

O tratado para a redução de armas nucleares estratégicas, que será assinado na semana que vem, em Moscou, pelos presidentes Bush, dos Estados Unidos, e Vladimir Putin, da Rússia, assim como o anúncio feito na última terça-feira sobre o acordo quanto a um novo conselho envolvendo a Otan e a Rússia, deve ser encarado como um esforço de estadistas para se enquadrarem no momento histórico atual.

Bush e Putin não estão chegando a um acordo para pôr um fim à Guerra Fria. Esse capítulo sujo da história do século passado terminou mais de uma década atrás. Ao concordar em reduzir o número de armas nucleares de longo alcance, atualmente entre 5.000 e 6000, para algo entre 1.700 e 2.200, os dois líderes estão apenas demonstrando oficialmente como se tornou excessivo e desnecessário o arsenal herdado da era da Guerra Fria.

A principal façanha do tratado é que ele exige que cada um dos lados ceda algo que não deseja ceder. Bush hesitou em permitir que a redução do número de armas nucleares estratégicas fosse feita segundo um acordo ratificado e assinado. Afinal, na sua plataforma política ele sempre manifestou um desagrado doutrinário para com a tarefa árdua, laboriosa e frustrante de negociar, assim como uma ojeriza à possibilidade de se sentir amarrado por tratados. Faz pouco tempo que Bush anunciou que o seu governo vai abandonar o Tratado de Mísseis Anti-Balísticos de 1972, com os seus limites impostos sobre os sistemas de defesas contra mísseis.

Putin, no entanto, precisava de um acordo. Ele necessitava de mostrar aos críticos no seu país que a sua decisão, tomada após o 11 de setembro, no sentido de aproximar a Rússia do Ocidente, e particularmente dos Estados Unidos, não sujeitaria Moscou às determinações da superpotência que venceu a Guerra Fria.

Além do mais, o argumento dos russos para que a decisão de reduzir o número de ogivas nucleares fosse sacramentada em um tratado oficial não podia ser rebatido. Era necessário que existisse um contrato de algum tipo que transformasse um acordo verbal entre Putin e Bush em uma obrigação solene entre as duas nações. Ou seja, um acordo permanente, que não ficasse restrito à duração do mandato dos presidentes. E isso, é claro, é exatamente o motivo para a existência de todos os acordos entre nações. Bush, que tem falado em público sobre os motivos que o levaram a decidir pela assinatura do tratado, pode ter aprendido uma lição importante sobre os limites do unilateralismo.

No entanto, há graves empecilhos para o tratado. Alegando a necessidade de manter a sua "flexibilidade", os Estados Unidos se recusaram a destruir todas as ogivas que serão retiradas dos mísseis. É compreensível que os russos encarem a insistência dos norte-americanos em manter essas "ogivas sobressalentes" como uma ameaça potencial e uma fonte de instabilidade. Esta foi uma concessão crucial que Putin fez a Bush.

Bush também não quis aproveitar uma oportunidade de ouro para reduzir o arsenal nuclear de ambos os países a níveis ainda mais baixos. Os russos, que se beneficiariam economicamente de uma redução mais drástica, estavam ansiosos para cooperar, mas Bush se recusou a reduzir o número de ogivas. Parece que ainda há velhos reflexos da Guerra Fria a assombrar indivíduos belicosos no bloco dos conservadores norte-americanos.

Tradução: Danilo Fonseca

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