Emir de Herat cria governo paralelo no norte do Afeganistão

John Donnelly
The Boston Globe
Em Herat (Afeganistão)

O governador Ismail Khan, o autodeclarado emir do noroeste do Afeganistão, caminha até uma sala onde estão cerca de 20 mulheres pobres. Atrás do governador há um grupo de assessores. As mulheres se aglomeram à sua volta. Elas beijam as mãos de Khan e elogiam em voz alta o seu nome perante Deus, mesmo que já seja quase meia-noite e ele as tenha feito esperar por horas.

Não importa. Elas sabem que Khan pode melhorar as suas sinas, caso se apiede. Uma a uma, elas se sentam aos seus pés e lhes contam os seus problemas, e Khan começa a julgar cada caso -- US$ 6 e um saco de arroz de 60 quilos para uma, um passaporte gratuito para outra, e a promessa de um segundo julgamento para o filho de uma terceira mulher, que foi aprisionado.

É assim que as coisas funcionam no oeste do Afeganistão, onde quase tudo, até mesmo os pedidos de mulheres famintas, tem de passar por Khan, um homem baixo e corpulento, com uma barba grisalha que lhe dá o ar de um paxá de outrora.

"Há muitas mulheres que desejam me ver", afirma Khan, sorrindo, enquanto deixa a sala.

Após a era do Taleban, muitos vêem Khan como um líder benevolente, comandando uma cidade que se beneficia do comércio com o Irã e dos lucrativos contratos de transporte com a ONU.

Mas alguns observadores afegãos e ocidentais estão percebendo sinais de que Khan se tornou muito mais rígido desde que governou Herat no início da década de 90. Eles duvidam que Khan vá algum dia seguir as determinações de um governo central interino, em Cabul, ou permitir que mudanças sociais e culturais ocorram no território cujo poder acaba de reassumir.

Até o momento, Khan, que alega possuir 30 mil soldados armados, não enviou dinheiro algum advindo de impostos para o governo central e só forneceu cerca de 180 soldados para o exército nacional. Ele também enfureceu uma parcela local dos habitantes: as mulheres com escolaridade, que continuam inconformadas com o fato de Khan ter cancelado abruptamente a comemoração do Dia Internacional da Mulher, em março.

Muitos líderes acham que foram colocados à margem da estrutura de poder nos primeiros meses do governo de Khan. Nenhum deles, porém, quis revelar o nome, por temerem perseguições.

Embora a administração Bush esteja vigiando com atenção as boas relações de Khan com o Irã, "o principal problema nesta região é que a fração escolarizada e civil da sociedade foi mantida fora da estrutura de poder", acusa um observador ocidental em Herat, que também não quis se identificar. "Ismail Khan se tornou bem mais ideológico e muito rígido com relação a questões políticas e sociais".

O próprio Khan, de etnia tajique, que lutou contra a ocupação soviética do Afeganistão, afirma que as mudanças sociais precisam ser implementadas lentamente. Durante uma recente entrevista, um visitante foi advertido para que se dirigisse a Khan como "Sua Excelência, O Emir".

Ao ser perguntado sobre direitos das mulheres, ele disse: "Não devemos esperar que se concedam todas as liberdades instantaneamente porque o povo não está preparado para elas. Você pode falar com toda mulher solteira de Herat e elas vão expressar a sua opinião. Em Europa, você sabe, as mulheres não estão satisfeitas com os seus direitos. Na Europa os salários das mulheres são 25% menores do que os dos homens. Portanto, não dá para se atingir a perfeição em lugar nenhum".

Nafisa Rahimi disse que Khan não estava devidamente informado quando cancelou as comemorações do Dia da Mulher, em março.

Nahimi, que trabalha para a organização de ajuda humanitária Oxfam, organizou um almoço para 500 pessoas. Ao ser convidado para comparecer ao evento, no dia anterior, Khan disse que não só ele como ninguém mais compareceria. Rahimi tentou desesperadamente uma audiência com Khan.

Ela foi até o palácio do governador. Os guardas disseram que ele estava dormindo. Ela seguiu para o Departamento de Relações Internacionais. Um funcionário lhe disse: "Você não nos avisou, e por isso cancelamos o evento".

Finalmente, ela achou alguma compreensão por parte do motorista de Khan.

"O motorista disse que a única maneira de falar com Khan seria me esconder atrás da sua porta e esperar que ele diminuísse a velocidade ao passar à minha frente, quando levasse o governador no carro oficial", conta Rahimi.

O motorista cumpriu o prometido. Rahimi pulou em direção ao carro. "Consegui dizer algo a ele, mas Khan não quis me dar ouvidos. Ele disse, 'Não aceito o que você está dizendo'. Fiquei realmente desapontada".

Naquela noite, ela ligou para o escritório da Oxfam em Cabul, e chorou ao relatar a história. Na manhã seguinte, Rahimi retornou ao Departamento de Relações Exteriores.

"Eu estava com muita raiva", conta ela. "Xinguei bastante os funcionários. Eu lhes disse que até o Taleban era melhor do que Khan. Disse que caso ele fechasse o hotel onde íamos fazer a comemoração, comemoraríamos a data nas ruas".

Mas não foi isso que elas fizeram. O governo fechou o hotel e o manteve fechado por um mês.

"Foi um dia muito triste para mim e para todos", diz Abu Diek, o mais alto funcionário da ONU em Herat, que também tentou reverter a decisão de Khan.

Diek e outros funcionários da ONU em Herat também vêm lutando com a administração de Khan a respeito de contratos de transportes.

Trata-se de uma grande fonte de renda para o governo de Khan. Um dos negócios mais lucrativos é feito com a Alta Comissão de Refugiados e com a Organização Internacional de Migração das Nações Unidas, que estão organizando a movimentação de cerca de 2.500 refugiados por dia. Esses refugiados vêm do Irã e rumam para Herat ou outras cidades.

Após reclamações da ONU quanto ao preço dos contratos anteriores, o consórcio de motoristas de caminhão de Herat ofereceu uma redução de 50% nos preços. Quando a ONU se recusou a aceitar, afirmando que se tratava de uma redução arbitrária, Khan entrou em cena. Até o momento, a disputa permanece sem solução.

"Eles acreditam que tudo o que temos a fazer é sacudir a árvore de doações que os dólares vão cair", afirmou um frustrado Danny W. Gill, chefe de operações da organização de migração, que fiscaliza uma equipe de 50 estrangeiros e 200 funcionários locais em Herat.

Outros funcionários internacionais insinuam que membros do governo de Khan tiveram altos lucros com os contratos. Haji Abdul Baqi, o ministro dos Transportes do país, afirma que o governo de Herat leva 2% do dinheiro pago pela ONU.

Apesar de tudo isso, o governo de Khan não chega a se constituir apenas em conflitos. As mulheres que são recebidas pelo governador se agarram aos presentes que receberam. Algumas choram.

"O meu filho está preso, e eu não tenho nada", diz Zobaida, quando se prepara para deixar a sala, às 0h45. "Ele é inocente".

Khan, do outro lado da sala, a ouve com atenção.

"Diga a verdade", grita ele, dando uma gargalhada. "Por que está mentindo? Seu filho é um ladrão. Antes ele era membro do Taleban. Nós o pegamos quando roubava um carro".

Zobaida, que ganhou US$ 6 e um saco de arroz, sacode a cabeça. "Estou desesperada", diz ela, desta vez em um tom de voz mais calmo. "Vim até ele porque não tenho mais a quem recorrer".

Khan se prepara para partir. Vários homens que lotam uma outra sala do palácio ainda o aguardam. "Estou muito feliz porque ajudo o povo", diz ele.

Tradução: Danilo Fonseca

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