Bienal de São Paulo emana a energia das metrópoles

Christine Temin
The Boston Globe
Em São Paulo

A peça se assemelha a uma gigantesca e cristalina casca branca de um ovo cortada pela metade e recheada no interior por uma paisagem miserável, com um lixo avermelhado e latas enferrujadas -- o oposto sócio-econômico dos ovos Faberge que celebravam um modo de vida imperial.

Trata-se na verdade de "O Globo Voador" -- uma escultura criada pelos artistas chineses Huang Yong Ping e Shen Yuan, que se inspiraram no globo aberto de concreto do Congresso Nacional de Brasília para criar a peça. A construção é um dos ícones da moderna arquitetura brasileira e um centro do poder político. Sua forma pura e idealizada que parece flutuar por sobre a cidade foi aqui somada à realidade das favelas -- os enormes territórios semi-urbanizados onde vivem centenas de milhares de brasileiros.

"Foi necessário que artistas chineses viessem ao Brasil para que se fizesse um comentário como este sobre o modernismo sul-americano", afirma Alfons Hug, um alemão que é o primeiro estrangeiro a ocupar o posto de curador da Bienal de São Paulo nos 50 anos de sua história.

Hug planejou uma instalação bizantina dividida em cinco seções principais que ocupam o pavilhão de 90 mil metros quadrados onde se realiza a Bienal. "11 metrópoles", "Representações nacionais", "Núcleo brasileiro", "Net Arte", e várias salas para projetos especiais perfazem esta volumosa mostra de obras de 190 artistas vindos de 70 países.

Em um diáologo com um grupo do Instituto de Arte Contemporânea de Boston que veio conhecer sua mostra, Hug destacou que ela ocupa mais espaço do que todas as áreas de exposição da Bienal de Veneza reunidas.

Hug gosta de coisas grandes. Ele argumenta que as grandes cidades geram o que há de mais instigante na nova arte, e que estas cidades não são necessariamente os tradicionais centros artísticos da Europa Ocidental e "o que há de melhor na Europa", a quem consola com esta afirmação: "Paris é a capital da arte africana. Lá estão as coleções, o mercado e as publicações". Há uma grande quantidade de arte africana nesta Bienal. O modelo de uma cidade futurista criado pelo artista congolês Isek Kingelez, consignado pela Fondation Cartier de Paris, aparentemente confirma a existência da conexão francesa mencionada por Hug.

Os trabalhos de Kingelez pertencem à categoria denominada por Hug como "A décima segunda cidade" -- uma metrópole idealizada pela imaginação. Uma torre de três andares de Sarah Sze, uma artista que vive em Boston, também se encaixa aqui. A peça é feita por isopores retorcidos, escadas pequeninas, lâmpadas, caixas, plantas e tudo o que você puder imaginar -- todas estas peças foram dependuradas em um bambo alaranjado. No contexto de uma exposição sobre as cidades, a obra de Sze insinua que a humanidade se estendeu horizontalmente a tal ponto no planeta Terra que talvez seja chegada a hora de crescer verticalmente.

O ponto forte desta Bienal são os ambientes labirínticos pelos quais as pessoas podem circular -- ambientes criados com vidro, neon e outros materiais. Há obras sobre reciclagem, como a peça "Desenvolvimento sustentável"do artista britânico Michael Landy -- muros erguidos com engradados de garrafas de leite em tons vívidos que trazem o nome do artista estampado em cada um deles: não existe o anonimato nesta cidade do futuro. E novamente o anonimato: o artista brasileiro Cao Guimarães reuniu pessoas que jamais visitaram um escritório durante 24 horas e que especulam sobre como seria a vida da pessoa que ocupa aquele espaço, baseando-se apenas em seus objetos pessoais.

Os artistas americanos -- Kara Walker, Jeff Koon e outros -- são conhecidos para quem acompanha o meio artístico. Alguns artistas de maior destaque trouxeram surpresas. Sean Scully, pintor de tiras largas e de formas livres, exibe estas obras ao lado de suas fotografias de casas destruídas em Santo Domingo, capial da República Dominicana. Sua geometria áspera de painéis, portas e janelas complementa as pinturas e também se revela adequada ao tema urbano da exposição.

Artistas vindos de outras partes do mundo -- especialmente os brasileiros -- serao novidades para a maior parte dos norte-americanos. A instalação da artista paulistana Lina Kim com camisas-de-forças que saltam de baldes e bicas foi posta diante de muros com pequenos espelhos circulares que lançam o espectador neste ambiente desagradável. A boliviana Raquel Schwartz constuiu um espaço acolhedor, recheado por cordas rosas e macias aonde as crianças adoram se dependurar. O teto e o chão são espelhados. Os visitantes olham para cima ou para baixo e vêem sua imagem multiplicada ao infinito -- talvez uma metáfora para um mundo superlotado.

Contando com um espaço semelhante ao de um hangar para aeronaves, rampas que nos convidam a correr, obras interativas com as quais podemos brincar e até mesmo um local para se descansar -- há colchões em uma plataforma elevada -- esta Bienal é um parque temático de arte com atrativos especiais para as crianças. O governo de São Paulo investiu aproximadamente US$ 500 mil (cerca de R$ 1,2 milhão) para que elas viessem em massa à exposição. Nunca vi tantas crianças se divertirem tanto em uma exposição de arte.

Um diálogo de relativa importância ocorrerá entre a Bienal e as exposições do Museu de Arte Moderna (MAM), localizado há poucos metros dali, e aonde estão registrados aproximadamente 50 anos de arte inovadora de brasileiros. Um dos tópicos tratados por ambos é saber o que -- e quem -- é preciso fazer para montar uma exposição.

A peça do artista brasileiro Jac Leirner "De e para o MoMA -- Oxford", de 1991, faz parte de uma instalação do MAM obtida junto a coleção de Patrícia Phelps de Cisneros, uma das principais financiadoras da arte sul-americana. Trata-se de uma peça de solo com ondulações que reúne todos os documentos necessários para a criação, a instalação e a desinstalação da mostra e Leirner em Oxford.

O DVD da artista sueca Annika Eriksson, que dura dez minutos, revela todos os funcionários que trabalharam no evento. Eles se apresentam e dizem quais são as suas tarefas, um de cada vez. Presentes no vasto prédio da Bienal antes que a arte chegasse, eles nos advertem que a arte -- não apenas a sua feitura, como também seun transporte, sua instalação, sua classificação e sua manutenção -- depende de pessoas.

Tradução: André Medina Carone

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