Opinião: O mundo entra na era do fanatismo

H.D.S. Greenway
The Boston Globe

A década entre a queda da União Soviética e 11 de setembro foi chamada de "era pós-Guerra Fria", por falta de melhor definição, assim como os anos entre 1918 e 1939 foram chamados de "entre guerras". Ambos foram períodos de espera entre conflitos titânicos. Agora que o período pós-Guerra Fria acabou, algumas pessoas estão chamando a nova fase de "era do terror".

Entretanto, o terrorismo é apenas parte do atual problema. Fascistas e comunistas usaram o terrorismo para promover suas próprias expressões de desejo de poder. Hoje o que ameaça a paz e o progresso, que pareciam destinados a continuar indefinidamente, é um desafio mundial contra o fanatismo religioso.

Foi a fúria do fanatismo islâmico que atingiu os EUA com tanta força, mas existem outros tipos de intolerância religiosa que afligem o mundo. Nenhum deles é novo --muitas organizações fanáticas foram formadas no início do século 20 mas, devido ao aparente fracasso do secularismo, agora estão emergindo.

O fundamentalismo hindu ameaça o legado de Nehru e Gandhi e o secularismo do estado indiano. Foi um extremista hindu que matou Gandhi, por sua tolerância com muçulmanos, e é o extremismo hindu hoje que está exigindo o estabelecimento de um estado religioso hindu, o que relegaria muçulmanos e cristãos a uma existência precária.

A organização extremista hindu Rashtriya Swayamsevak Sangh, dedicada a derrubar o governo da Índia, foi fundada em 1925. Sua ramificação, o partido Bharatiya Janata, chefia a coalizão que governa Índia hoje, apesar de o primeiro-ministro, Atal Bihari Vajpayee, sair em defesa do secularismo em meio à violência, que já matou quase mil pessoas este ano.

"Acreditamos que a demonstração indiana de unidade na diversidade é útil para todo o mundo, na era da globalização" e que não haveria Índia sem secularismo, disse Vajpayee. Mas os fanáticos hindus, que há dez anos destruíram uma mesquita em Ayodhya, gritando "Hindustão para os hindus" e "Morte aos muçulmanos", ainda são uma ameaça. Sua promessa de construir um templo hindu ali, desafiando a lei, foi a fagulha que incendiou a última rodada de violência por muçulmanos. A reação muçulmana foi muito pior, encorajada e talvez organizada por autoridades do próprio partido de Vajpayee.

Israel tem seu próprio tipo de fanatismo religioso, que grita pela morte dos árabes com tanta força quanto os extremistas hindus pedem a morte dos muçulmanos. O primeiro-ministro Yitzhak Rabin, como Gandhi, foi assassinado por um extremista de sua própria fé, que se opunha à tolerância ou concessões. O movimento Gush Emunim, fortemente representado entre colonos judeus nos territórios ocupados, chamam de vontade de Deus seu próprio desejo de livrar a terra de não judeus. A tumba de seu herói, Barush Goldstein, assassinado por 29 muçulmanos em 1994, é coberta de flores nas preces em Hebron.

Extremistas religiosos tiveram efeito marcante na política israelense, corajosamente desafiando o estado secular que os fundadores de Israel estabeleceram. De acordo com as pesquisas, a cada ano cresce o número de pessoas que substituiria a suprema corte israelense pela lei sagrada judia --assim como os fanáticos islâmicos querem mudar a lei secular pela "sharia", lei sagrada muçulmana.

E quem pode dizer que o direito religioso não teve efeito nos EUA? A própria palavra "fundamentalismo" foi estabelecida no início do século passado, para descrever o renascimento da doutrina protestante que procurava voltar a uma forma de religião mais básica e pura. E também há casos como o grupo "Covenant, the Sword and the Arm of the Lord", que planejou envenenar os reservatórios de água em todas as principais cidades nos anos 80 para "apressar a volta do Messias", segundo Jéssica Stern.

Nem todos fundamentalistas são fanáticos, é claro. Não existem, por exemplo, terroristas da seita amish que querem forçar seu estilo de vida antigo ao outros.

O que a Al Qaeda fez para o fanatismo islâmico, como observou o escritor irlandês Fred Halliday, foi conectar os diferentes grupos de descontentes islâmicos --do Oriente Médio, Paquistão, Afeganistão e Extremo Oriente- em uma rede de terror verdadeiramente global.

Esses movimentos religiosos têm muita coisa em comum: Todos passaram da observância pessoal da religião para um desejo de impor sua vontade à política, aos costumes sociais e à lei. São todos reações contra a modernidade, na medida em que procuram um estilo de vida mais puro e menos corrupto. E são extremamente intolerantes com qualquer um que se oponha.

A permanente luta pela tolerância está definindo nossa era, e não será uma vitória fácil.

Tradução: Deborah Weinberg

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