Bush está concentrado na liberdade cubana

Jeff Jacoby
The Boston Globe

Na semana passada, em um discurso sincero, o presidente Bush manifestou apoio a um país que sofre sob a tirania. Ele declarou que seu povo tem direito à liberdade, democracia e dignidade, e condenou o ditador "que prende, tortura e exila seus opositores políticos". Ele pediu eleições livres e liberdade de expressão. E prometeu que os Estados Unidos continuarão pressionando este regime odioso para que "finalmente comece a respeitar os direitos humanos de seu povo".

Mas a mensagem do presidente não se resumiu apenas a uma censura geral. Ele reconheceu que reformas democráticas às vezes ocorrem lentamente, e deixou claro que Washington responderá de forma encorajadora caso veja até mesmo o menor progresso rumo à liberdade e ao governo da lei. "Os Estados Unidos reconhecem que a liberdade às vezes avança passo a passo", disse ele.

Se o discurso de Bush fosse sobre a terrível ditadura em Burma, ele teria recebido aplausos de todas as partes. Se estivesse falando sobre os teocratas corruptos da Arábia Saudita ou sobre os governantes depravados do Sudão, os editoriais entoariam louvores e o Capitólio o teria saudado. Mas como seu discurso foi sobre Cuba, ele foi prontamente desdenhado nos círculos da elite como nada mais do que demagogia da direita.

O senador Byron Dorgan, de Dakota do Norte, zombou da posição do presidente, "dizendo ser motivada por política". O jornal USA Today a tratou como "uma falha anacrônica" e até fez pouco da proposta de Bush de direcionar mais ajuda filantrópica e educacional para os cidadãos cubanos. No Conselho de Relações Exteriores, uma fonte do pensamento geral, Walter Russell Mead o desprezou como "um discurso inútil" que "não foi muito convincente ou eficaz".

Ainda mais hostil foi o Los Angeles Times, que apresentou na sua primeira página a manchete, "Castro deve se render aos EUA, diz Bush" -como se forçar Castro a se curvar a Washington, e não libertar o povo cubano, fosse a verdadeira meta de Bush. Abaixo da manchete, o Times noticiou que Bush reafirmou o "bloqueio econômico" a Cuba. Mas não há "bloqueio"; há apenas um embargo dos negócios entre Estados Unidos e Cuba, o que deixa Castro livre para negociar com qualquer outro país do planeta.

Pessoas razoáveis podem discordar quanto a eficácia do embargo, mas certamente todos os americanos deveriam concordar que o reinado de Fidel Castro é uma afronta à decência humana e uma mácula no Hemisfério Ocidental.

Então por que tantos críticos da posição do governo gastam muito mais energia denunciando o embargo americano do que pedindo o fim da repressão de Fidel Castro? O abuso aos dissidentes cubanos não parece enfurecê-los tanto quanto a perda de oportunidades de negócios causada pela proibição americana. O que realmente motiva o lobby antiembargo? A ânsia pela liberdade -ou pelos lucros?

Poucos dias antes do discurso de Bush, 14 membros do Grupo de Trabalho para Cuba do Congresso realizou uma coletiva de imprensa para discutir sua visão sobre a política americana para Cuba. Minha transcrição do evento ocupou 12 páginas com espaçamento simples. É um documento revelador.

Todos os 14 congressistas falaram, mas nenhum expressou ultraje pela forma como Castro sufoca o povo cubano. Nenhum denunciou a falta de liberdade de expressão, ou a elaborada rede de informantes do governo, ou a miséria que leva anualmente inúmeros cubanos a correrem risco de vida para escapar do "fidelismo". Foram feitas referências esporádicas à democracia e aos direitos humanos, mas no geral o Grupo de Trabalho para Cuba pareceu passional apenas quando o assunto passou a ser as quantidades de feijão e coxas de frango que Cuba supostamente está interessada em importar. Será que os 14 membros do Grupo de Trabalho para a África do Sul, nos anos 1980, convocariam uma coletiva de imprensa na qual não manifestariam seu repúdio ao apartheid?

A certa altura o deputado James McGovern de Massachusetts saudou o ex-presidente Jimmy Carter pela "coragem de ir a Cuba, por se apresentar perante o governo cubano e falar a verdade sobre os direitos humanos". Mas outro dia, quando eu perguntei a McGovern se estava igualmente orgulhoso por Bush ter falado a verdade sobre os direitos humanos, ele se disse "muito desapontado com o discurso do presidente. Foi precisamente o oposto do que pediram os dissidentes".

É verdade que alguns dissidentes cubanos pedem pelo fim imediato do embargo americano. Mas outros pedem para que ele continue vigorando até a saída de Fidel Castro. E outros querem o que Bush quer -um fim das sanções econômicas, mas apenas em troca de reformas democráticas irrevogáveis.

McGovern diz que a promoção da democracia e dos direitos humanos é a razão de ser do Grupo de Trabalho para Cuba. Talvez seja. Mas enquanto ele e seus colegas persistem em falar sobre o embargo, Bush está lembrando ao mundo que a verdadeira questão é a liberdade. A diretriz de sua política para Cuba é a liberdade, não coxas de frango. Quando os cubanos finalmente estiverem livres, eles não esquecerão sua firmeza.


Tradução: George El Khouri Andolfato

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