Israel faz nova incursão na Cisjordânia

Charles A. Radin
The Boston Globe
Em Nablus, Cisjordânia

Israel fez uma nova incursão na sexta-feira neste cidade da Cisjordânia e no campo de refugiados vizinho, em retaliação a dois recentes atentados suicidas realizados por militantes palestinos.

Em uma operação que parecia maior e mais longa do que os recentes ataques militares, as tropas, tanques, e blindados de transporte de pessoal israelenses entraram em Nablus e Tulkarem. Eles recolheram centenas de palestinos suspeitos para serem interrogados sobre vínculos e atividades terroristas. No campo de Balata nos arredores de Nablus, onde vivem 30 mil pessoas, oficiais israelenses disseram que prenderam Issam Abu Bakr, o chefe local do movimento Fatah do líder palestino Yasser Arafat, e três membros do grupo militante Hamas.

As novas ações militares israelenses ocorreram em meio a uma série de esforços diplomáticos por parte de autoridades egípcias e americanas visando reduzir a onda de violência na região, mas nenhum progresso foi relatado.

A entrada inicial dos israelenses na cidade enfrentou pouca resistência dos palestinos, mas um líder militar disse que houve informes das agências de inteligência israelenses de que os palestinos "estão preparando uma surpresa para nós".

Desde o fim do amplo ataque israelense às áreas controladas pelos palestinos em 10 de maio, Israel tem evitado respostas militares diretas e prolongadas aos ataques terroristas palestinos, que começaram a aumentar novamente. As incursões nas cidades de Belém, Qalqilya e Jenin na semana passada foram ataques rápidos para deter os terroristas suicidas antes de partirem para seus alvos em Israel.

Mas a incursão de sexta-feira ao campo de Balata, onde incursões breves e sangrentas já foram tentadas e fracassaram, foi descrita por um médico militar como "uma operação maior e mais profunda". Um palestino foi baleado e ferido durante a ação de sexta-feira no campo.

Os soldados, que se reuniram à meia-noite de quinta-feira em bases próximas de Nablus, disseram que ouviram os comandantes invocarem, em suas palavras de encorajamento pré-combate, os ataques terroristas que mataram três adolescentes no assentamento de Itamar, que fica nas proximidades, e um bebê e sua avó em Petah Tikva.

"Nosso oficial explicou que Balata é uma colmeia de terroristas e que duas das três operações de terror mais recentes vieram daqui", disse Ohad, um médico pára-quedista, enquanto o veículo blindado que o transportava ao campo dava guinadas violentas nas ruas estreitas. Seu artilheiro disparava contra qualquer coisa na beira da estrada que pudesse conter uma bomba.

Segundo as condições estabelecidas pelas forças israelenses ao repórteres que acompanhavam as tropas, apenas o primeiro nome dos soldados seriam usados, e o texto final deste artigo seria submetido à avaliação do sensor militar de Israel.

Os oficiais que participaram da operação disseram que a meta deles era revistar cada prédio no campo de 4 quilômetros quadrados, uma tarefa que reconheceram que demorará bem mais do que a incursão da semana passada em Belém, e a incursão anterior de dois dias na mesma Belém. Revistar cada casa levará no mínimo duas semanas, disseram vários soldados.

Horas antes do amanhecer de sexta-feira, as tropas israelenses cercaram o campo para impedir a fuga de militantes que ocorreu na incursão anterior, em março. Ao nascer do sol, enquanto os helicópteros pairavam no alto em prontidão, as tropas israelenses começaram a entrar nos prédios que foram selecionados como QGs setoriais e postos de vigilância.

Os soldados deram aos moradores palestinos dos prédios a opção de saírem ou ficarem em casa em um quarto trancado, e então caíram no chão, nos sofás, em qualquer lugar macio, buscando repouso da exaustão provocada pela noite longa e tensa.

No segundo andar de um prédio de apartamentos inacabado, perto do extremo sul do campo, 15 membros da família Jea'rah também tentavam se acostumar com a idéia de que nos próximos dias eles ficariam confinados juntos em um pequeno canto do lar deles, atrás de uma porta de aço trancada para a qual apenas os israelenses teriam a chave.

"Todas as crianças, quando elas vêem os israelenses elas ficam com medo", disse Tamara Jea'rah, 14 anos, envolvendo em seus braços um punhado de crianças pequenas com olhar assustado. "Eu não sei o motivo de virem. Eu acho que eles estão disputando (a mesquita de) Al Aqsa e o território".

A tia dela, Ibtisam Jea'rah, disse que a situação da família já era ruim antes desta incursão; todos os quatro irmãos Jea'rah tinham empregos em Israel para onde não são mais capazes de viajar. Financeiramente, "está muito, muito difícil".

Os soldados que aprisionaram os Jea'rahs disseram que a família receberia água, comida e outros suprimentos se batessem no portão e dissessem o que precisavam. Os Jea'rahs fizeram como lhes foi instruído; nada aconteceu.

As crianças pequenas começaram a ficar impacientes e irritadas à medida que o dia esquentava e as garrafas não chegavam.

Nos andares de baixo, os soldados que não estavam dormindo estavam tampando as janelas com sofás e toalhas de mesa para se protegerem de atiradores. Os Jea'rahs podem não saber o motivo dos soldados estarem em Jenin, Nablus e Tulkarem, mas os soldados têm seus próprios pontos de vista.

"Os árabes precisam entender que quando realizam um ataque suicida, ele não termina ali", disse Shai. "Eu não estou contente em estar aqui. Eu não fiquei contente em ter que entrar nesta casa, em ver os rostos daquelas famílias achando que sou uma pessoa ruim".

Os soldados judeus e os moradores muçulmanos ao menos compartilham uma opinião -a antipatia pela política e pelos políticos. "Eu não gosto de política", disse Uri, um sargento e comandante de uma pequena unidade do exército. "Eu não gosto de pessoas que lidam com política, eu não gosto de nada ligado a política".

A falta de fé tanto em uma solução política quanto militar o deixa sem esperança quanto ao futuro. "As coisas continuarão como estão agora ou ficarão ainda pior", disse ele.

Ibtisam Jea'rah também é inflexível quanto a inclinação política de sua família. "Nós somos palestinos, não Fatah, nem Hamas", disse ela.

Em outros desdobramentos na região na sexta-feira, o primeiro-ministro de Israel, Ariel Sharon, recebeu o secretário-assistente de Estado americano, William Burns, e Osama el-Baz, conselheiro do presidente do Egito, Hosni Mubarak. O diretor da CIA, George Tenet, deve chegar à região neste fim de semana.

Enquanto isso, as agências de notícias informaram que um homem palestino foi morto a tiros enquanto tentava se infiltrar em um assentamento judeu na Cisjordânia. O homem armado foi morto no assentamento Shavei Shomron, ao norte de Nablus, por um dos colonos judeus, disseram oficiais militares.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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