Clonagem de embriões humanos em todo o mundo é inevitável

Raja Mishra
The Boston Globe

A clonagem de embriões humanos, que já foi um feudo de cientistas marginalizados, está se tornando cada vez mais comum em laboratórios de todo o mundo. Várias equipes científicas produzem regularmente embriões clonados, e vários outros laboratórios estão se preparando para faze-lo.

Vários pesquisadores acreditam que muitos laboratórios dos Estados Unidos estariam se preparando para criar embriões humanos microscópicos a fim de coletar as suas células-tronco, que podem ser utilizadas para fazer novos órgãos e tecidos para o tratamento de doenças. Nenhum dos principais pesquisadores quer criar um ser humano clonado, mas, mesmo assim, o desenvolvimento deste ramo científico é encarado com desconfiança.

Os opositores pressionaram com sucesso na semana passada o Senado dos Estados Unidos para que fosse proibida a chamada clonagem terapêutica no país. Eles esperavam impedir a repetição de experiências que geram notícias nas primeiras páginas dos jornais, como aquela realizada no segundo semestre do ano passado, pela Advanced Cell Technology Incorporation (ACT), de Worcester, Massachusetts, que foi o primeiro relato publicado de clonagem humana para obter células-tronco.

Os experimentos com a clonagem já se proliferaram no exterior, em especial na China e na Inglaterra, segundo entrevistas com pesquisadores. Vários cientistas estão simplesmente esperando por alguma calma política antes de se engajarem nos seus próprios trabalhos com a clonagem humana.

O aumento dos experimentos com a clonagem embrionária humana demonstra a lacuna existente entre a idéia que o público faz sobre o tópico e a realidade científica. Embora a população permaneça dividida quanto à necessidade de se criar embriões humanos - ainda que estes só sejam usados para o tratamento de doenças - vários cientistas consideram a clonagem como sendo um componente essencial e inevitável da medicina do século 21.

"Ninguém é capaz de colocar novamente a tampa na jarra ou de introduzir o gênio de volta na garrafa", afirma Michael Lysaght, diretor do programa de engenharia biomédica da Universidade Brown, que monitora as tendências no campo da medicina regenerativa.

Os Estados Unidos não possuem leis que regulamentem a clonagem de embriões humanos. O fracasso da proibição da clonagem, votada pelo Senado, deixou vários cientistas americanos discretamente otimistas quanto ao futuro deste campo científico, mesmo que eles estejam vendo os colegas estrangeiros disparar à sua frente nas pesquisas com a clonagem.

De fato, vários pesquisadores acreditam que haverá novos relatos de experimentos de clonagem com embriões humanos publicados nos próximos anos. O professor de biologia do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), Rudolf Jaenisch, disse ter avaliado vários desses relatórios, que descrevem as experiências de forma detalhada.

Na Universidade de Connecticut, Xiangzhang Yang, um outro especialista em clonagem, afirma ter recebido notícias sobre trabalhos de clonagem humana realizados em "meia-dúzia de laboratórios" da China, e está pedindo aos seus colegas daquele país que procurem publicar os seus trabalhos em revistas especializada ocidentais. Pelo menos um dos laboratórios clonou um embrião humano antes da ACT, afirma Yang, e todos realizaram experiências de clonagem diversas vezes.

No Reino Unido, onde a pesquisa relacionada com embriões ganhou o apoio governamental, um hospital acadêmico de Londres e um instituto de pesquisas escocês obtiveram permissão do governo para fazer experiências com a clonagem, segundo funcionários do Departamento de Embriologia e Fertilização Humana, a agência governamental britânica que monitora a pesquisa com embriões. Além disso, o pioneiro da clonagem, Ian Wilmut, que trabalha na Escócia, e que criou a ovelha Dolly, o primeiro mamífero clonado, também solicitou uma licença do governo.

Até agora, só a ACT publicou um trabalho descrevendo a clonagem de embriões humanos, em um obscuro jornal da Internet. Vários cientistas acreditaram que o estudo é prematuro, já que os cientistas da ACT não foram capazes de extrair células-tronco de embriões clonados - o que é a meta dos pesquisadores da clonagem de embriões. Além disso, os cientistas tentam desenvolver técnicas de clonagem mais eficientes, já que a maioria das tentativas, até o momento, terminou em fracasso.

A maioria dos cientistas se opõe ao implante de embriões clonados em mulheres para a produção de bebês, uma técnica denominada clonagem reprodutiva. Vários pesquisadores famosos alegaram já ter implantado clones em mulheres, embora não haja prova de que isso tenha realmente sido feito. No entanto, vários cientistas respeitados se preocupam com a possibilidade de que tais tentativas possam se proliferar, à medida em que a clonagem se torna generalizada e os pesquisadores mais capazes.

Na clonagem terapêutica, que busca curas médicas, o material genético de um paciente é inserido em um ovo oco, que a seguir é artificialmente estimulado a crescer, criando um embrião geneticamente idêntico ao paciente. Os pesquisadores esperam extrair células-tronco desses embriões que possuem apenas algumas semanas de idade, e, a seguir, transformar as células flexíveis em tecidos que poderiam ser facilmente utilizados no tratamento do próprio paciente. Mas o processo destrói o embrião, o que gera questões de ordem ética para muita gente.

Nos Estados Unidos, essas questões éticas têm complicado as pesquisas. No mês passado, a Universidade da Califórnia em São Francisco admitiu, após ter sido sondada pela mídia, que os seus pesquisadores realizaram experimentos fracassados com a clonagem. O trabalho foi feito de forma discreta para evitar a polêmica pública, explicaram os administradores da universidade. Até então, a ACT era o único grupo a ter admitido publicamente a tentativa de produção de embriões a partir da clonagem.

Vários especialistas em biotecnologia acreditam que outras companhias e laboratórios americanos estariam realizando experiências com a clonagem.

"Eu suspeito que há mais grupos do que os que conhecemos que realmente estão trabalhando com a clonagem terapêutica", afirma Jean-François Formela, um dos diretores da Atlas Venture, com sede em Boston, uma firma de investimentos especializada em tecnologia, que, apesar de tudo, reluta em investir na ciência da clonagem.

A controvérsia ética manteve vários outros pesquisadores norte-americanos interessados na clonagem afastados desses trabalhos, pelo menos até o momento. O pioneiro das pesquisas com células-tronco da Universidade Johns Hopkins, John Gearhart, ao ser perguntado se planejava trabalhar com a clonagem humana, respondeu: "Sim, mas não sei quando poderia dar início a tais pesquisas. Teríamos que submeter uma proposta muito bem fundamentada às autoridades e ela passaria por um verdadeiro pente fino na universidade", diz o pesquisador.

Na Universidade Harvard, o Comitê de Pesquisas com Células-Tronco foi criado no ano passado para inspecionar tais propostas. Dez membros, oriundos de várias disciplinas, participaram do painel de discussões, segundo o presidente do comitê, o biólogo de Harvard Richard Losick. Até o momento, eles só examinaram uma proposta de pesquisas sobre células-tronco, afirma. Nenhuma proposta de pesquisa sobre clonagem chegou ainda à mesa do comitê.

No entanto, muitos laboratórios nos Estados Unidos e em outros países poderiam realizar facilmente experiências de clonagem, afirma Yang, da Universidade de Connecticut.

"Tecnicamente, não se trata realmente de um grande problema", diz ele.

O laboratório de Yang conta com um estudante de pós-graduação que já trabalhou com a cientista Guangxiu Lu, da Faculdade de Medicina Xiangya, a cerca de 1,3 mil quilômetros de Pequim. Lu vem clonando embriões humanos experimentalmente com regularidade há mais de um ano, segundo Yang, que entrou em contato com a pesquisadora através do seu aluno. Yang também ouviu falar, através dos seus contatos chineses, de pelo menos cinco outros laboratórios que clonaram embriões humanos em diversas ocasiões. Ele está tentando atrair alguns dos pesquisadores chineses para os Estados Unidos, a fim de que apresentem o seu trabalho aos cientistas ocidentais.

Yang disse que somente admitiria experimentos com a clonagem de embriões humanos caso as verbas fossem oriunda do governo dos Estados Unidos, o que é pouco provável enquanto o presidente Bush, um oponente da clonagem de embriões, estiver na Casa Branca.

Jaenisch, do MIT, que foi o autor de várias experiências pioneiras em clonagem de animais, disse que também não faria trabalhos com embriões humanos sem as verbas do governo.

"Trata-se de uma questão contenciosa e polêmica. Creio que seria extremamente importante que essa pesquisa fosse feita não só pelo setor público, onde poderia ser inspecionada pela população, mas também nas universidades mais prestigiadas, onde seria examinada com rigor, segundo padrões de análise de mais alto nível", diz ele.

A ACT financia os seus próprios experimentos, enquanto que a Universidade da Califórnia recebeu verbas da Geron Corporation, uma empresa de biotecnologia cuja sede fica em Menlo Park, na Califórnia. Fundações também estão se preparando para financiar as experiências com a clonagem.

Robert Lanza, chefe da equipe científica da ACT, acredita que haverá competição doméstica: "Creio que todos estão esperando sentados para ver qual será a próxima tendência", diz ele. "Mas esse é o futuro da medicina. Tenho certeza que vários grupos entrarão neste setor".


Tradução: Danilo Fonseca

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