Caçada à Al Qaeda não encontra cooperação em zonas tribais do Paquistão

Elizabeth Neuffer
The Boston Globe
Em Peshawar (Paquistão)

Enquanto tropas americanas vasculham o Afeganistão em busca de combatentes remanescentes da Al Qaeda e do Taleban, uma caçada paralela ocorre do outro lado da fronteira, nas áreas tribais do Paquistão - e os soldados envolvidos nessa caçada se deparam com uma resistência significativa.

Pela primeira vez desde que o Paquistão se tornou uma nação, em 1947, as tropas do país estão realizando operações na Provìncia da Fronteira Noroeste, o centro de uma área tribal semi-autônoma ao longo da fronteira com o Afeganistão, bem como em outras províncias fronteiriças. E esse fato fez com que os grupos tribais da região se dividissem. São indivíduos conhecidos por desafiar interferência externa, desde a época dos antigos mongóis, até os britânicos. Ninguém nunca foi capaz de domina-los.

Niaz Mohamad, membro de uma tribo, zomba da caçada aos simpatizantes da Al Qaeda nas áreas tribais do Paquistão. "Não estou feliz com o fato de essas tropas estarem aqui na minha região procurando por essas pessoas", afirma o homem de 25 anos, da província fronteiriça do Waziristão do Sul, exibindo as suas máquinas de costura em um mercado ao ar livre, que é um canal para grande parte das mercadorias contrabandeadas que formam a base econômica das províncias tribais fronteiriças. "Não daremos nenhuma colaboração a essas tropas".

As tribos fronteiriças assumem uma atitude tão forte de desafio às autoridades centrais que, recentemente, um grupo se rebelou contra a instalação de medidores de consumo de energia elétrica na região. Os chefes tribais que se reúnem nesta cidade, capital da Província da Fronteira Noroeste, e que controlam todos os negócios legais ou não no norte do Paquistão, só falam da chegada das tropas paquistanesas e dos norte-americanos que as assessoram.

Militares paquistaneses confirmam que "um punhado" de norte-americanos, envolvidos com operações de inteligência e comunicação, estão trabalhando com mais de 40 mil agentes de segurança paquistaneses nas áreas de fronteira. Um funcionário da Embaixada dos Estados Unidos se recusou a fazer comentários sobre o assunto.

O que mais irrita a população local é a presença de norte-americanos nesta área de fronteira dominada pela etnia pashtun. A vida nas vilas da região, encravadas em montanhas inóspitas ou isoladas em planícies castigadas pelo sol, é religiosa e conservadora. Os seus habitantes provavelmente se identificam mais com os talebans de linha dura do que com as tropas norte-americanas que chegam em busca desses indivíduos. E a caçada promovida pelos Estados Unidos contra o Taleban e a Al Qaeda é vista como uma intromissão, uma caçada por um inimigo tão esquivo que muitos se perguntam se ele realmente existe.

"Eles conduziram diversas operações militares e não encontraram nada", afirma Dhandan, um motorista de caminhão de Miranshah, no Waziristão do Sul, região que foi alvo de várias das operações. "É uma perda de dinheiro e, além do mais, essas operações estão irritando o povo. Não queremos tropas norte-americanas por aqui".

Mas alguns chefes tribais reconhecem que membros da Al Qaeda estão presentes, especialmente no Waristão do Norte e do Sul, na fronteira com a problemática província afegã de Paktia.

"A Al Qaeda possui os seus núcleos", afirma Abdullah Latif, chefe da tribo Qamber Khel, que habita a fronteira mais ao norte com o Afeganistão. Mas tanto ele quanto outros líderes tribais negam que Osama bin Laden ou Mullah Mohammed Omar, o ex-líder do Taleban, estejam nas áreas tribais, afirmando que a grande recompensa oferecida por eles é muito tentadora, e a área é muito pequena para que qualquer dos dois consiga se esconder.

Mas, se os chefes tribais estão furiosos com o interesse norte-americano nas províncias fronteiriças, eles estão igualmente ansiosos com a chegada de tropas e agentes de segurança em uma região que nunca foi controlada pelo governo paquistanês.

Apenas uns poucos chefes tribais dos 16 milhões de pashtuns da região enxergam algum benefício na operação militar. Esses chefes dizem que o exército trará investimentos e riqueza - uma injeção de prosperidade para a deprimida economia tribal. Todo o comércio que existe por aqui consiste de pequenas fábricas de armas, do cultivo do haxixe e da heroína e do contrabando de televisores e de outros equipamentos eletrônicos.

"A vida se tornou uma miséria", reclama Latif.

De fato, as tropas paquistanesas chegaram aqui, no início do ano, trazendo dinheiro para projetos de desenvolvimento. "O exército paquistanês está construindo estradas, escolas e consultórios médicos", afirma o general Rashid Qureshi, porta-voz do governo paquistanês. "Trata-se de um bocado de dinheiro".

Mesmo assim, muitos chefes tribais se mostram irredutíveis. Eles afirmam estar com raiva daquilo que vêem como interferência nos seus negócios.

Esses guerreiros - Winston Churchill escreveu certa vez que os membros das tribos estão eternamente envolvidos em "guerras públicas ou privadas" - não gostaram do fato de ninguém ter lhes pedido para erradicar a Al Qaeda.

"Somos contrários às atividades terroristas", diz Malik Waris Khan, chefe da tribo Afid. "Por que não deixaram essa tarefa ao nosso cargo?".

Outros acusam as forças armadas paquistanesas e os seus conselheiros norte-americanos de violarem tradições profundamente enraizadas e os costumes comuns na fronteira. Duas recentes escaramuças demonstram como os soldados paquistaneses devem ter cuidado ao se meterem nas províncias fronteiriças.

No primeiro incidente, dez soldados paquistaneses foram mortos durante a invasão de uma casa em Wana, no Waziristão do Sul, próximo à fronteira afegã, onde se acredita que membros da Al Qaeda estejam escondidos. Moradores locais dizem que os soldados paquistaneses foram mortos porque insistiram em entrar em uma casa quando as mulheres, que são mantidas confinadas na sociedade tribal da região, estavam presentes. "Eles feriram a santidade e a dignidade da casa", justifica Jabul Noor, de Wana. "Foi a entrada dos militares que desencadeou a luta. Os nossos costumes foram violados e o nosso povo se zangou".

No segundo, três agentes de segurança paquistaneses e quatro homens acusados se pertencerem a Al Qaeda foram mortos em um remoto posto militar de revista, próximo a Kohat, mais a oeste. Oficiais militares paquistaneses afirmam que os suspeitos poderiam estar entre os suspeitos que teriam escapado da primeira operação. Mas os chefes tribais rejeitam tal versão.

"O povo está furioso. Não existe ninguém da Al Qaeda por aqui", afirma Haji Pzergul, vice-chefe da tribo Dawer, que fica em Miranshah, a vila onde suspeitos de pertencer à Al Qaeda estariam se escondendo antes de terem sido mortos em Kohat. "A população local está exigindo agora que os paquistaneses e norte-americanos se retirem da área. Esperamos falar com os seus comandante, e discutir sobre quando essas tropas vão partir".

O tiroteio em Korat já se transformou em algo como um símbolo de resistência e martírio. Uma pequena capela de pedras, adornada com velas e bandeiras, foi construída onde os homens foram mortos, segundo moradores locais. E uma multidão revoltada se reuniu aqui recentemente para exigir a devolução dos corpos dos homens assassinados, a fim de que eles tenham direito a um sepultamento decente. Manifestantes furiosos criticaram o governo do general Pervez Musharraf por ter enviado tropas às províncias fronteiriças, a fim de fazer um trabalho para os norte-americanos.

"A palavra é ação", diz Haji Pzergul, de Miranshah. "Vamos mostrar a essa gente. Vamos exigir que eles partam".


Tradução: Danilo Fonseca

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