AOL Time Warner torna-se Time Warner AOL com demissão de Pittman

Peter J. Howe
The Boston Globe

À medida que baixa a poeira relativa ao abalo que sacudiu a AOL Time Warner, causando a demissão do famoso Robert W. Pittman, e colocando dois executivos da Time Warner no comando do conglomerado empresarial, alguns analistas dizem que o resultado do episódio é aquilo que deveria ter acontecido logo no início. A Time Warner, da velha guarda, terminou colocando sob as asas do seu império de mídia a AOL, uma jóia da "nova economia".

Poucos negócios corporativos da história têm a probabilidade de enfrentar as dúvidas que pairaram sobre a compra da Time Warner pela AOL, por US$ 124 bilhões (cerca de R$ 362 bilhões) em janeiro de 2001, quando o "boom" da Internet ainda era suficientemente forte para fornecer capital a AOL, na forma de ações altamente apreciadas, a fim de assumir o controle de um ícone da indústria de comunicações e entretenimento, conhecido por décadas.

Conforme as ações da AOL Time Warner despencaram em mais de 70% desde a fusão das duas empresas, as prometidas "sinergias" entre a gigante da Internet, que conta com 34 milhões de assinantes, e a Time Warner, ficaram muito longe das expectativas. No final de abril deste ano, a AOL Time Warner amargou uma redução no valor das suas ações de US$ 54 bilhões (cerca de R$ 157,68 bilhões), em um reflexo da desvalorização da AOL e outras propriedades da Internet.

Após a saída do vice-chefe de operações, Pittman, na semana passada, a companhia anunciou uma nova equipe diretora que coloca os veteranos da Time Warner solidamente no comando do barco.

Don Logan, presidente da unidade da revista "Time", assumiu um novo "grupo de mídia e comunicações" que faz do serviço AOL uma das três unidades operadoras, ao lado das revistas e da Time Warner Cable, que possui 11,8 milhões de assinantes de TV a cabo. O diretor da Home Box Office, Jeff Bewkes, foi designado para supervisionar as redes de televisão e de entretenimento, incluindo o estúdio de música e cinema Warner Brothers, a rede de TV a cabo Warner Brothers e outras unidades de televisão e de cinema.

Bewkes e Logan estão subordinados ao diretor-executivo Richard D. Parsons, que assumiu o cargo após a saída de Gerald M. Levin, em maio. E Stephen M. Case, da AOL, o presidente da companhia, enfrenta cada vez mais críticas porque não teria pulso para reverter a difícil situação da empresa.

"Se examinarmos a importância relativa das diferentes unidades, a AOL certamente não é a mais importante da companhia", afirma Josh Bernoff, analista do instituto Forrester Research, em Cambridge, que acompanha o desempenho das companhias de TV a cabo. "A razão pela qual a fusão aconteceu de tal forma dependeu nos valores relativos das ações à época".

Rakesh Khurana, professor associado de comportamento organizacional na Escola de Administração de Harvard, disse que os problemas enfrentados pela AOL Time Warner são uma prova cabal de que "essas idéias de fusões de parceiros iguais não passam de uma ficção social. A maior parte das gigantescas fusões corporativas fracassa em alcançar as sinergias previstas e, geralmente, o principal motivo para isso é o choque de culturas".

A inesperada reviravolta do caso AOL Time Warner, segundo Khurana, reside no fato de que a empresa que foi oficialmente englobada, a Time Warner, terminou emergindo como a força dominante, depois daquilo que "se constituiu em uma estratégia fracassada". As ações da AOL Time Warner caíram na semana passada para US$ 11,58 (R$ 33,81), comparados aos US$ 60 (R$ 175,20) que foi o preço que prevaleceu durante a maior parte de 2000.

Conforme o "boom" do setor de tecnologia em Wall Street, da década de noventa, entrava em colapso, Pittman se tornou o mais recente dos vários líderes executivos que eram tidos como potenciais herdeiros da cadeira de diretor-executivo dos conglomerados empresariais, e que acabaram saindo ou sendo despedidos, na medida em que a fortuna da companhia sumia pelo ralo.

No início da semana passada, William Nuti, de 38 anos, vice-presidente da Cisco Systems, que já foi descrito como o sucessor do diretor-executivo da Cisco, John T. Chambers, renunciou para se tornar presidente de uma pequena companhia de Long Island que fabrica scanners e sistemas de computação remotos. Entre os outros executivos notáveis que despencaram este ano estão o presidente da Sun Microsystems, Ed Zander, e o presidente da Microsoft, Rick Belluzzo.

Khurana diz que todos esses episódios são exemplos de situações em que "os próprios diretores-executivos" estão sob pressão, e se vê uma rotatividade muito alta entre as suas equipes executivas".

A saída de Pittman foi descrita como sendo um triunfo da briga corporativa travada pelos diretores da Time Warner, dotados de fortes egos, que se recusaram a engolir a iniciativa de Pittman em aglomerar os feudos de mídia da empresa em um todo integrado.

Mas Bernoff disse que "jogar a culpa pelos problemas da AOL em Bob Pittman neste momento é como afirmar que o meteorologista é o culpado pelo mau tempo".

O núcleo dos negócios da AOL, baseado nos acessos discados à Internet, "está nitidamente em declínio", diz Bernoff. O progresso da companhia em fazer com que os usuários do sistema discado da AOL passem para as conexões de banda larga tem sido contido pelas condições anti-truste aprovadas pelo governo federal, que exigem que a Time Warner Cable disponibilize as suas redes de cabo de banda larga para provedores rivais de serviços da Internet, antes que transfira os seus clientes para um serviço de banda larga da AOL.

Pittman, de 48 anos, foi mandado de Nova York para a sede da AOL, em Reston, Virginia, três meses atrás, para tentar reverter o quadro de acentuada queda dos lucros advindos de publicidade da AOL. Essa queda foi de 30% no primeiro trimestre deste ano. Além disso, ele tentaria reaquecer o volume de assinaturas, que haviam estagnado. O "Washington Post" anunciou na última quinta-feira que a AOL tomou iniciativas extremamente agressivas para tentar fazer com que os números crescessem, mas a AOL Time Warner disse que a companhia não havia feito nada de errado.

Bem antes de se fundir à AOL, a Time Warner já era conhecida pelas suas unidades dotadas de uma autonomia ciumenta, que se recusavam a trabalhar em conjunto. Um dos casos bizarros da companhia diz respeito aos meses que a Time Warner Cable levou para receber aprovação da sua "unidade irmã", a Warner Brothers, para utilizar o nome do personagem de desenho animado, o "Papa-Léguas", controlado pela Warner, para um serviço de Internet de alta velocidade.

O analista Fred Moran, da Jefferies & Company, disse sem rodeios que Pittman "está sendo transformado em um bode expiatório".

Parsons, em uma carta aos funcionários, disse na semana passada: "Fazer com que a AOL Time Warner entre nos eixos e siga em frente como uma companhia unida, com um só coração, um espírito e um objetivo, continua sendo o nosso desafio central... Conseguir tal unidade de visão e execução tem mostrado ser mais difícil do que havíamos imaginado".

Tradução: Danilo Fonseca

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