Washington estuda opções para mudança de regime no Iraque

Robert Schlesinger
The Boston Globe
Em Washington (EUA)

O presidente Saddam Hussein do Iraque este mês comemorou o 34° aniversário da revolução que levou seu partido Baath ao poder no Iraque proclamando abertamente sua invulnerabilidade.

"Vocês não me derrotarão desta vez, nunca", disse Hussein em discurso televisado para todo o país. "Mesmo que tragam todo o mundo com vocês e convidem também todos os demônios para apoiá-los".

Bazófias jamais faltaram a Saddam Hussein. Mas o que lhe falta --de acordo com antigos e atuais funcionários do governo norte-americano, desertores iraquianos e especialistas militares- é uma máquina de guerra funcional. Onze anos depois do final da Guerra do Golfo, as forças armadas do Iraque estão em situação pior do que estavam ao final do conflito.

Enquanto um debate estranhamente público se desenrola em Washington sobre precisamente que estratégia militar atingiria com mais eficiência o objetivo muitas vezes repetido pelo presidente Bush de alterar o regime do Iraque, há pouca dúvida de que as tropas norte-americanas seriam capazes de derrotar as forças armadas iraquianas sem grandes dificuldades.

"Eles estão muito mais fracos do que estavam ao final da guerra do Golfo Pérsico", diz Richard Perle, presidente do influente Conselho de Política de Defesa do Pentágono. "Dez anos se passaram, e nesse período as capacidades iraquianas se deterioraram. Eles têm hoje um terço do arsenal que tinham em 1991, e é o mesmo terço, 11 anos mais velho".

Os estrategistas militares dos Estados Unidos estão considerando três opções para um ataque contra o Iraque: enviar unidades de forças especiais para apoiar os grupos oposicionistas do país, deslocar uma força esmagadora de até 250 mil soldados para a região ou usar uma combinação de forças especiais, grupos oposicionistas e cerca de 50m mil soldados regulares norte-americanos.

Os maiores problemas militares que os estrategistas do governo enfrentam em uma guerra contra o Iraque estão relacionados à possibilidade de que Hussein empregue armas de destruição em massa e ao desafio de organizar um novo governo depois da queda do ditador. Essas questões devem ser debatidas na quinta-feira, quando o Comitê de Relações Exteriores do Senado se reúne para realizar audiências sobre o Iraque. Funcionários do governo afirmaram repetidas vezes que o presidente Bush ainda não havia decidido sobre a realização ou não de ações militares para derrubar Hussein.

Na época da Guerra do Golfo, os exércitos do ditador iraquiano tinham um efetivo de um milhão de soldados, com 5,5 mil tanques, e equivaliam a entre 67 e 70 divisões. Atualmente, consistem de cerca de 424 mil soldados, com 2,2 mil tanques, constituindo cerca de 23 divisões. Mas os números brutos não ilustram propriamente o estado das forças armadas iraquianas.

"O Iraque não conseguiu financiar ou importar qualquer espécie de nova tecnologia militar convencional para reagir às lições da Guerra do Golfo ou produzir novos modelos de equipamento em escala importante", escreveu Anthony H. Cordesmann, do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, em uma avaliação provisória das capacidades iraquianas, a pedido do Colégio de Guerra Naval. "Boa parte de sua ordem de batalha está obsoleta agora, ou a caminho da obsolescência, a prontidão de combate é incerta e a capacidade de manutenção das tropas em condição de combate é baixa".

As principais forças armadas iraquianas se dividem em três componentes: o Exército, a Guarda Republicana e a Guarda Republicana Especial.

Os cinco corpos do Exército apresentariam a menor resistência às tropas norte-americanas. "Eles contam com equipamento deficiente, sua logística é deficiente e seus soldos são baixos", diz Danielle Pletka, ex-assessora do Comitê de Relações Exteriores do Senado e hoje membro do American Enterprise Institute. "Eles são como o exército confederado na guerra civil norte-americana, em 1865".

A maior parte das estimativas indica que cerca de 40% das unidades de combate do Exército iraquiano estariam prontas para uma batalha, mas há estimativas que calculam a prontidão em 30%.

O Corpo Norte e o Corpo Sul da Guarda Republicana recebem provisões melhores e têm melhor treinamento, e a análise é de que eles combateriam melhor. Dispõem também de melhor equipamento. Por exemplo, a Guarda Republicana tem centenas de tanques soviéticos T-72 de modelo mais moderno. Algumas unidades dispõem de T-80s montados no Iraque, de acordo com o Congresso Nacional Iraquiano, uma organização de oposição a Hussein, mas acredita-se que a confiabilidade desses tanques seja inferior por terem sido montados no Iraque.

A Guarda Republicana Especial é virtualmente a única força armada admitida em Bagdá. Os comandantes, todos os quais vêm da cidade natal de Hussein, Takrit, são os mais leais e os mais confiáveis das forças armadas. Treinados em guerra urbana, esses soldados formariam a última linha de defesa para Hussein.

Embora o Iraque tenha ainda as maiores forças armadas da região, a missão delas mudou, de acordo com diversos especialistas. "Ele agora quer a segurança do regime e a segurança interna", diz um funcionário norte-americano. "A projeção de poder foi abandonada".

Os esforços de reconstrução se concentram em tentar reconstituir um sistema de defesa aérea dilacerado pelos ataques aéreos dos Estados Unidos 11 anos atrás.

"Para a defesa aérea, existe um orçamento aberto no Iraque", disse um antigo oficial iraquiano que hoje trabalha para o Congresso Nacional Iraquiano mas não quis ser identificado.

O Congresso Nacional Iraquiano estima que a defesa aérea do país disponha de 180 lançadores de mísseis antiaéreos, 800 outros sistemas de mísseis antiaéreos portáteis, 1,5 mil canhões antiaéreos e 1,5 mil metralhadoras antiaéreas.

A maior incógnita e o maior risco que os estrategistas militares norte-americanos enfrentam é a extensão dos esforços de reconstrução do Iraque para seus arsenais de armas químicas e biológicas. Os inspetores das Nações Unidas foram expulsos do país por Hussein em 1998, e os cientistas iraquianos estão trabalhando sem fiscalização desde então.

Hussein não teria razão para evitar o uso dessas armas caso os Estados Unidos atacassem com o objetivo explícito de tirá-lo do poder. Os especialistas temem que ele possa usar as armas contra soldados norte-americanos ou contra Israel, em um esforço por atrair apoio árabe à sua causa. Mas alguns especialistas calculam que os Estados Unidos seriam capazes de dissuadir as tropas iraquianas quanto ao uso, se não Hussein.

"Não estamos falando de Saddam Hussein lançando armas químicas ou nucleares contra tropas norte-americanas, mas sobre pessoas agindo por ordem dele", diz Pletka, do American Enterprise Institute. "E nós diríamos, a quem quer o fizesse, que ele seria encontrado e punido. Será que a pessoa realmente obedeceria?"

A lealdade ou pelo menos a passividades dos soldados e da população iraquiana são outra dúvida. Ainda que alguns especialistas se preocupem com a possível perda de muitos soldados em combates de casa em casa, em Bagdá, há analistas militares que crêem que assim que estiver claro que Hussein será derrubado, seu regime despencará.

"O que mantém Saddam Hussein no poder é a idéia de que ele estará no poder amanhã", disse John Pike, da GlobalSecurity.org. "Quando o 19º Corpo Aeroterrestre norte-americano surgir em Bagdá, essa suposição desaparecerá".

A extensão da contribuição dos oposicionistas iraquianos em termos de forças pode ter efeito considerável sobre os planos dos Estados Unidos. Fawzi al-Shamari, ex-general iraquiano que desertou no final de 1986, diz que em seis meses ele poderia montar uma força de combate efetiva com os vários grupos dissidentes.

"Tão logo eles descobrirem que os Estados Unidos estão falando sério, se revoltarão", disse Shamari recentemente. "Já plantamos as sementes lá. Se as alimentarmos, a revolta controlará todo o Iraque".

Mas outros especialistas questionam a capacidade desses grupos para contribuir com soldados.

"Há muita disputa entre os grupos oposicionistas, e por isso será difícil obter uma combinação sinérgica de capacidades", disse um funcionário do setor de defesa norte-americano. "Eles são grupos de infantaria leve, de modo que o melhor que se poderia obter seria uma vitória tática".

De acordo com as informações divulgadas, há três planos principais em consideração pelas forças armadas dos Estados Unidos.

O primeiro modelo, favorecido por Wayne Downing, um general reformado que se retirou recentemente co Conselho de Segurança Nacional aparentemente por divergências quanto à estratégia a ser usada no Iraque, usaria o poder aéreo e forças especiais em apoio á oposição iraquiana. Os críticos dessa abordagem dizem que a oposição iraquiana não é uma força combatente tão efetiva quanto a Aliança do Norte, no Afeganistão.

"O problema com o plano Downing é que usa forças pequenas com precisão, e portanto seria fácil que algo saísse errado", diz Loren Thompson, diretor do programa de segurança nacional no Instituto Lexington, uma organização de pesquisa. "A menor falha de inteligência poderia acabar com toda uma operação".

O segundo modelo, um plano tradicional de emprego de força esmagadora, envolveria até 250 mil soldados para derrubar Hussein e seus partidários. Os críticos dessa abordagem alegam que uma força dessas dimensões soa demais a exército de ocupação. Eles dizem que ter a oposição interna como parte das forças de libertação será importante para qualquer que venha a ser o governo que assumirá o poder no Iraque em lugar de Hussein.

Alguns especialistas militares dizem que a forças esmagadora não usa bem as lições do Afeganistão e os avanços tecnológicos obtidos desde a Guerra do Golfo. Eles dizem igualmente que é improvável que Saddam espere sentado enquanto os Estados Unidos posicionam todas as suas peças.

A terceira opção envolveria o uso de supremacia aérea, grupos oposicionistas iraquianas e forças especiais norte-americanas, com a presença de uma força de 50 mil soldados regulares dos Estados Unidos capazes de executar operações rápidas para garantir a derrubada de Hussein.

Tradução: Paulo Migliacci

UOL Cursos Online

Todos os cursos