EUA encerram a maior guerra simulada de sua história

Robert Schlesinger
The Boston Globe
Em Suffolk (EUA)

As forças armadas dos Estados Unidos acabaram de concluir os seus maiores jogos de guerra já realizados, simulando batalhas que seriam travadas em 2007, e nos quais quase 50 mil soldados reais e virtuais, tanques, aviões e outras unidades foram utilizados. Embora as lições aprendidas possam ser aplicadas a um ataque ao Iraque, o Pentágono afirma que esse não foi o objetivo do exercício.

Para as duas semanas e meia de exercícios, que terminaram no sábado passado, foram utilizados uma crise humanitária e um golpe em um país não especificado do Oriente Médio como os catalisadores de um estado de desordem civil que poderia descambar para um grande conflito no qual fossem empregadas armas de destruição em massa.

Na eventualidade de um tão antecipado ataque ao Iraque, as lições tiradas das experiências de guerra poderiam modelar o planejamento estratégico do Pentágono e as táticas de luta urbana.

Conhecidos como Millennium Challenge 2002, os exercícios militares que envolveram todos os setores das Forças Armadas foram autorizados pelo Congresso dois anos atrás, a um custo de US$ 250 milhões. Uma avaliação dos exercícios deve ficar pronta nesta quinta-feira, e, mais tarde, o secretário da Defesa, Donald H. Rumsfeld, enviará um relatório formal ao Congresso.

Para os estrategistas do Departamento de Defesa, o jogo de guerra foi não só uma chance de testar os amplos conceitos básicos da transformação militar que Rumsfeld quer que seja a marca registrada da sua passagem pelo cargo, mas também um teste da tecnologia avançada que poderá conferir vantagem aos Estados Unidos no campo de batalha.

"A Revolução da Informação foi a mudança fundamental ocorrida no mundo na última geração, portanto, como eu aplicaria essa revolução à maneira como faço o planejamento de campanhas militares?", diz o brigadeiro James B. Smith, o oficial da Força Aérea que dirigiu os exercícios a partir do Comando do Estado Maior dos Estados Unidos, em Suffolk.

A resposta, segundo Smith e outras lideranças militares, está na utilização da capacitação dos Estados Unidos no setor de processamento de informações, por meio de duas novas estratégias militares, conhecidas como "Operações Baseadas nos Efeitos" e "Operações Decisivas Rápidas".

As operações baseadas nos efeitos se constituem em uma abordagem holística da guerra, que envolveria mais do que opções militares para se chegar a um resultado desejado.

Os estrategistas militares dizem que esperam usar uma avaliação detalhada do inimigo -- incluindo dados militares, culturais, econômicos e políticos -- para determinar onde aplicar pressão no sentido de atingir determinada meta. Por exemplo, o objetivo de interromper o fornecimento de energia elétrica de uma cidade poderia ser alcançado por meio do bombardeio de uma usina geradora. Mas o efeito poderia ser mais eficaz caso se interferisse no funcionamento dos computadores que regulam o fluxo de energia, ou utilizando espiões que pagariam alguém para que cortasse os fios elétricos.

"Em muitos casos, se apenas nos concentrássemos em uma solução militar, provavelmente não reconheceríamos que tal solução poderia acabar tendo um efeito multiplicador ou mesmo ser menos eficiente que um outro meio", explica o general James Comstock, vice-comandante das tropas que participaram das recentes manobras.

As operações decisivas rápidas, a segunda estratégia, utilizariam uma abordagem que possibilitasse alcançar objetivos militares específicos da forma mais rápida e indolor possível, enfatizando o fato de um comandante contar com o máximo de conhecimento e flexibilidade.

"Se um contingente altamente transportável, letal, ágil, com capacidade de sobrevivência e auto-sustentável fosse capaz de aplicar um golpe operacional profundo contra os centros estratégicos e operacionais do adversário, então, seríamos capazes de fazer com que esse adversário cedesse, sem que precisássemos empreender uma longa campanha militar", conclui um relatório sobre estratégia do Estado Maior, escrito em 1999.

Essa é a premissa de alguns planos de batalha contra o Iraque publicados nas últimas semanas, e exige um contingente relativamente pequeno para realizar um ataque rápido contra Bagdá, a fim de eliminar o regime de Saddam Hussein com um custo mínimo de tempo e vidas norte-americanas.

Devido ao fato de necessitarem de detalhes reais para testar as estratégias, os planejadores militares em Suffolk utilizaram dados -- políticos, econômicos, militares, sociais e culturais -- sobre um verdadeiro país do Oriente Médio como base para os exercícios Millennium Challenge. O governo não quis que a escolha desse país fosse mal interpretada e, portanto, manteve seu nome em sigilo. Tudo o que Smith revelou foi que o país não era nem amigo nem inimigo, aparentemente eliminando o Iraque da lista de candidatos. "Não temos nenhuma agenda secreta", disse Smith.

Em breve as forças armadas gostariam de compilar bancos de dados detalhados sobre todo teatro de combates possível no mundo, de forma que, se uma guerra eclodisse, os militares do Estado Maior poderiam informar imediatamente o comandante apropriado sobre as suas opções de combate.

Para os exercícios Millennium Challenge, os militares simularam constantemente a existência de 35 mil unidades -- sendo que cada unidade podia ser tão pequena quanto um soldado, ou tão grande quanto um submarino nuclear.

O envio de submarinos virtuais foi controlado a partir de um simulador localizado no Centro de Guerra Naval Subaquática em Newport, Rhode Island. Mas o principal centro das operações estava em Suffolk, em uma sala de paredes brancas e sem janelas, com a seguinte inscrição na porta, "Informação Sigilosa em Processamento -- Além Deste Ponto, Somente Pessoal Autorizado".

Lá os técnicos criaram batalhas virtuais, integrando tiros disparados de navios reais com os danos provocados em navios virtuais, e vice-versa.

As forças armadas norte-americanas enviaram ainda 13.500 soldados para nove campos de treinamento em todo o país, executando manobras verdadeiras de combate. Em uma manhã recente, na praia Del Mar, na Califórnia, por exemplo, um catamaran experimental de 100 metros de comprimento, chamado Joint Venture, desembarcou fuzileiros navais e veículos blindados leves que seguiram para uma base abandonada da Força Aérea, que fez o papel de uma cidade inimiga. Os fuzileiros praticaram táticas de guerrilha urbana no local, passando 96 horas envolvidos em intensas batalhas de quarteirão em quarteirão, ou em cenários de operações policiais.

As diferentes forças utilizaram os Millennium Challenge para testar as suas mais novas tecnologias. Os fuzileiros, por exemplo, operaram o Dragon Eye, uma aeronave não tripulada, transportável por um único soldado, que pode ser utilizada para fazer a vigilância de áreas adjacentes, fornecendo aos comandantes em terra uma visão clara e rápida de determinado setor.

Eles usaram ainda o Dragon Runner, um veículo de quatro rodas, dotado de um sensor,que pode ser levado em uma mochila de campanha, e que é capaz de fazer observações além dos ângulos de esquinas nas áreas urbanas.

A habilidade dos soldados norte-americanos em travar combates urbanos poderá ser testada em um futuro próximo, já que os especialistas militares acreditam que haverá combates de casa em casa, em Bagdá, no pior dos cenários de uma ação militar contra o Iraque.

Outras tecnologias e sistemas projetados para esses exercícios já tinham sido testados, como é o caso de um comando móvel e sistema de comunicações que inclui laptops comerciais ligados através de um servidor exclusivo a uma base central de computadores. Dotado de um software que permite a realização de teleconferências, acesso à Web, à televisão, chat e funções de e-mail, o sistema parece muito simples, mas permite aos comandantes monitorar as operações de uma maneira que nunca foi possível durante a movimentação de tropas.

Rumsfeld e o chefe do Comando Central, general Tommy Franks, que comandou a guerra no Afeganistão, utilizaram o sistema computadorizado enquanto voavam dos Estados Unidos para o Afeganistão.

Tradução: Danilo Fonseca

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