Al Qaeda opera no Iraque, sob os olhos de Saddam, alegam os EUA

Robert Schlesinger
The Boston Globe
Em Washington (EUA)

O secretário de defesa Donald H.Rumsfeld afirmou que agentes da Al Qaeda estão operando no Iraque, com o conhecimento do governo de Saddam Hussein.

"O que eu disse é fato. Existem agentes da Al Qaeda em um número de locações no Iraque", disse Rumsfeld aos repórteres. "É absurda a insinuação que o governo do Iraque não sabe onde esses sujeitos estão ou o que estão fazendo".

Rumsfeld já havia dito, no passado, que a rede terrorista estava presente no Iraque. Sua declaração de terça-feira, no entanto, foi a conexão mais clara que o governo fez até hoje entre os terroristas e o regime de Hussein.

Evidências de coordenação entre a Al Qaeda e o Iraque dariam ao governo Bush mais razões para atacar o país. Para justificar uma ação contra o regime de Hussein, autoridades do governo disseram que havia temores que o Iraque fornecesse armas de destruição em massa aos terroristas.

Especialistas em terrorismo e em Iraque duvidaram de ligações entre o governo iraquiano e os terroristas da Al Qaeda. O pragmático e secular Hussein e o líder religioso da Al Qaeda, Osama Bin Laden, sempre foram desafetos.

"Saddam era inimigo número dois da Al Qaeda, depois de George Bush", disse Ian Cuthbertson, diretor do projeto de combate ao terrorismo do Instituto de Política Mundial. "A idéia que estava de fato abrigando, protegendo e prestando auxílio à Al Qaeda (parece improvável) -- se tiver membros da Al Qaeda lá, duvido que tenha sido mais do que uma política de viver e deixar viver".

Rumsfeld disse, certa vez, que agentes da Al Qaeda saíram do Afeganistão para vários países, inclusive o Iraque. "É muito difícil imaginar que o governo não saiba o que está acontecendo no país", acrescentou na terça-feira. Quando foi pressionado por provas, no entanto, Rumsfeld absteve-se.

"Suponho que em algum momento possa fazer sentido discutir isso publicamente", disse ele. "Hoje não".

Outra autoridade da Defesa, que tem conhecimento os relatórios de inteligência ao quais Rumsfeld se referia, discordou. Falando sob condição de anonimato, disse que o fato do governo iraquiano ter conhecimento da presença de refugiados da Al Qaeda não era o mesmo que uma proteção oficial.

"Seria quase ridículo assumir que são convidados do governo iraquiano", disse a autoridade. "Se jamais descobríssemos que essas pessoas são convidadas do governo iraquiano, isso nos daria o ímpeto para explodir Saddam e o Iraque".

Houve relatos que Mohamed Atta, um dos acusados dos seqüestros de 11 de setembro, encontrou-se com um funcionário da inteligência iraquiana em Praga. Nenhuma conexão sólida, entretanto, foi divulgada conectando o Iraque com os ataques e os terroristas da Al Qaeda.

Houve rumores que os EUA planejaram, mas decidiram não executar, operação militar contra um grupo terrorista que, aparentemente, estava fazendo experimentos com armas químicas no norte do Iraque, controlado pelos curdos. De acordo com relatórios publicados, alguns líderes do grupo podem ter recebido treinamento da Al Qaeda no Afeganistão. Rumsfeld recusou-se a discutir o assunto.

Os EUA são inimigos comuns a Hussein e Al Qaeda. Por outro lado, o Iraque tradicionalmente absteve-se do tipo de restrições muçulmanas defendidas por fundamentalistas como Bin Laden. Entre elas, proibições ao álcool e imposição de roupas conservadoras para as mulheres.

"Ele é o anticristo, se você é muçulmano", disse Cuthbertson. "Saddam tem o regime mais secular do mundo muçulmano". John Esposito, professor da Universidade Georgetown e autor de "Unholy War: Terror in the Name of Islam" (Guerra não sagrada: terror em nome do islã), disse que Hussein, historicamente, é considerado por muçulmanos como "opressor do islã e dos movimentos islâmicos. Saddam não tem 'credenciais islâmicas'".

Quando o Iraque invadiu o Kuwait, em 1990, diz-se que Bin Laden ofereceu a ajuda de seus seguidores, veteranos da guerra afegã contra os soviéticos, para defender a Arábia Saudita. Ele ficou irado quando os sauditas voltaram-se para os EUA, ao invés disso.

Desde a Guerra do Golfo, Hussein tentou passar imagem de muçulmano fiel, para conquistar apoio no mundo árabe, com algum sucesso.

"Não é de se imaginar que se dariam bem, concordo com isso. Por outro lado, historicamente, quando você estuda certos movimentos, as pessoas escolhem estranhas companhias", disse Esposito. "Talvez não seja o lugar favorito dos membros da Al Qaeda, mas não o descartaria".

Tradução: Deborah Weinberg

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