Na Cisjordânia, vestibular incorpora táticas de guerra

Charles Radin
The Boston Globe
Em Tulkarem (Cisjordânia)

Soldados israelenses disfarçados se infiltraram em Tulkarem, no dia 7 de agosto, e se engajaram em um intenso tiroteio com militantes palestinos, matando pelo menos três pessoas. Mas o incidente não dominou as manchetes de nenhumas das três emissoras locais de televisão.

Os resultados do Tawjihi, o exame palestino feito pelos estudantes que terminam o segundo grau, estavam sendo divulgados, e seria necessário muito mais do que uma pequena batalha de rua para deslocar das manchetes as notícias pelas quais Tulkarem aguardava ansiosamente.

Todos os anos, é desta cidade de 95.800 habitantes, que fica quase em cima da chamada "linha verde", a fronteira entre os territórios palestinos ocupados e Israel, que saem vários dos mais bem colocados finalistas nas provas; e este ano as coisas não foram diferentes. Somente cerca de 4% dos 51 mil estudantes palestinos que prestaram o exame eram de Tulkarem, mas aproximadamente 30% dos que tiveram as melhores notas -- e metade dos que se saíram melhor em ciências -- são jovens moradores da cidade.

Há diversas teorias que tentam explicar tal fenômeno. Alguns dizem que a perda de grande parte das terras agricultáveis para Israel, durante a guerra pela independência do Estado judeu, forçou os jovens palestinos dotados de ambição a procurar outras ocupações. Já outros afirmam que, independentemente de Israel, a agricultura é uma causa perdida nesta região. Há ainda quem fale que o interesse pela ciência é uma parte da cultura local que se auto-perpetua há tanto tempo que ninguém sabe ao certo como ou porque a tradição começou.

O que eles sabem é que nenhuma guerra vai mudar essa parte da herança local da qual tanto se orgulham, embora, este ano, Jamal Tarif, diretor do departamento de educação, tenha afirmado que "fazer as provas foi como ir à guerra".

Os estudantes, auxiliados pelos moradores que gritavam das janelas de suas casas, organizaram grupos para monitorar os movimentos das tropas israelenses e deixar que outros colegas soubessem quais eram os caminhos mais seguros até os locais das provas.

Tarif preparou três auditórios para serem usados como locais alternativos para os exames, caso o toque de recolher imposto por Israel impossibilitasse a realização das provas no local principal. Quando ele decidiu utilizar os locais alternativos, a notícia foi passada verbalmente de um estudante a outro.

"Se eu desse a notícia através do rádio ou da televisão, os israelenses poderiam ter encarado o fato como um desafio e tomado ações contra nós, por havermos violado o toque de recolher", conta Tarif.

Em outras cidades palestinas afetadas pelo toque de recolher imposto pelos israelenses, os exames demoraram cerca de 40 dias para terminar. Em Tulkarem, todo o processo foi completado nos quatro dias determinados por Tarif. Mesmo assim, as notas e as colocações não puderam ser anunciadas até que o processo fosse completado em todo o território ocupado.

Foi então que chegou o grande dia: os nomes de todos os aprovados foram lidos repetidamente nas estações de rádio e emissoras de televisão locais.

Os pais dos adolescentes que foram reprovados, ou que passaram com notas abaixo das esperadas, bateram à porta de Tarif. Um deles foi Abbas Abu Ghazaleh, cuja filha tirou 83,3, uma boa nota, mas que ficou abaixo daquelas que tirou na escola no decorrer do ano, uma média de 90.

"Creio que há algum erro", disse Ghazaleh, reconhecendo estar preocupado com a possibilidade de que as notas de sua filha no teste pudessem reduzir significativamente as suas chances de conseguir uma bolsa de estudos para cursar a faculdade.

Tarif deu de ombros. "O processo é como um casamento ou um funeral quando sai o resultado. Se eles são bem sucedidos, riem. Se fracassam, choram", disse o diretor.

O que ele disse foi ilustrado pelo desmaio de uma garota, cuja nota, 62,5, foi lida no rádio -- um número que, apesar de a ter aprovado, é considerado medíocre.

"Ela teve que ir para o hospital, onde ficou por várias horas", disse Othman Hamshari, diretor da estação de televisão local, Salam. "A garota ficou hospitalizada até que corrigimos aquilo que fora um erro e anunciamos o resultado correto na TV, e após várias pessoas terem lhe garantido que a nota errada fora realmente corrigida". A menina tirou na verdade 92,5, uma nota que a coloca entre as melhores, embora ainda longe dos dez primeiros, o sonho almejado por todos.

Assim como os seus pais da classe média palestina, os melhores alunos afirmam que não participariam em atos de terrorismo ou de atividades políticas. Mas eles não condenam tampouco os militantes suicidas, muitos dos quais também são muito jovens. Os melhores alunos dizem que há várias formas de lutar, mas eles acreditam que os homens-bomba estão tentando fazer algo pelos seus irmãos palestinos.

"Sinto que eles dão a vida por nós", diz Hathayfa Afif Atili, que mora em uma vila no distrito de Tulkarem, e que ficou em segundo lugar nos exames de ciência, com a nota de 98,8.

Atili, que pretende ser médico, disse não estar interessado em política, ao contrário dos irmãos, três dos quais foram presos pelos israelenses por terem se associado ao grupo islâmico extremista Hamas, uma organização dedicada à destruição do Estado judeu e considerada como um grupo terrorista pelos Estados Unidos e por Israel.

"A luta tem várias facetas", disse ele. "Sinto que quando estudo me torno parte da luta... A ciência é o caminho para a liberação... O Tawjihi é a porta para o futuro".

Iman Wasfi Mahmoud Othman, que ficou em sétimo lugar geral, disse que ela e as suas colegas de escola sentiram que deveriam demonstrar determinação em dobro este ano porque "o sonho das tropas de ocupação é destruir o nosso povo, as nossas vidas e as nossas mentes. Não queremos que eles alcancem esse sonho de nos destruir".

"Foi difícil estudar sob toque de recolher", diz ela. "Mas é necessário desafiar as forças de ocupação. Talvez eu possa fazer algo se estudar".

Quatro pessoas foram mortas no tiroteio no centro de Tulkarem, no dia em que os resultados das provas foram anunciados, incluindo Ziad Mahmoud Mahmad Da'as, líder local da Brigada de Mártires Al Aqsa, e dois membros da sua organização.

A quarta vítima do exército judeu foi o jovem Maher Jizmawi, de 18 anos. O seu pai, Muhammad Sadeq Jizmawi, afirmou que o filho estava a caminho da Escola Ihsan Samarra, para pegar o resultado da sua prova, quando foi abatido a tiros pelas costas pelas forças especiais israelenses que se infiltraram na cidade, na busca a Da'as.

Um porta-voz do exército israelense alegou que Jizmawi estaria no interior do prédio no qual as suas tropas detectaram a presença de Da'as durante o tiroteio, tendo procurado escapar, após outros ocupantes do edifício terem sido mortos ou feridos. O exército invasor disse que Jizmawi não respeitou tiros de advertência, que teriam sido dados para o alto, e uma ordem para que parasse, e por isso teria sido abatido a tiros.

No fim de semana passado, homens que se identificaram para agências de notícias como sendo membros das Brigadas seqüestraram um jovem da cidade, que, sob tortura, vinculou o nome da mãe ao ataque israelense contra Da'as. O grupo arrastou a mulher, de 35 anos, da sua casa, filmou a sua confissão, segundo a qual ela teria passado informações sobre Da'as às tropas israelenses, atirou várias vezes contra a suposta delatora, e jogou o seu corpo no meio da cidade.

Nesse clima de violência, os estudantes esperavam nervosamente até que fosse anunciada a sua aceitação pela faculdade.

Akram Saif el-Din Kharbat, que ficou em décimo lugar no exame de ciências, com a nota 98,4, disse estar determinado a persistir, "porque essa é a nossa dignidade, nos concentrarmos nos nossos estudos... Quando eu me tornar algo de importante, vou servir à causa palestina".

Tradução: Danilo Fonseca

UOL Cursos Online

Todos os cursos