Editorial: Quem são as vítimas da guerrilha na América Central

Editorial
The Boston Globe

Soldados que lutaram nas guerras civis da Guatemala, Nicarágua e El Salvador estão exigindo indenização por parte do governo pelos serviços que prestaram. Alegando que também foram vítimas de guerra, membros das ex-patrulhas de defesa civil da Guatemala e de El Salvador querem dinheiro e terras. Membros do grupo de "contras" da Nicarágua, que lideraram a luta contra os sandinistas, querem compensação similar do governo nicaragüense. As exigências desses combatentes geram, no entanto, a seguinte questão: quem foram as vítimas das sangrentas guerras civis da América Central, e como deveria se dar o processo de indenização?

Mais de 200 mil civis morreram, e um número estimado em 50 mil "desapareceu" durante os 36 anos de guerra civil na Guatemala. A comissão de 1998 da Igreja Católica, "Nunca Mas", calcula que houve mais de 400 massacres em aldeias do país. Uma série de ditadores militares -- que tomaram o poder a partir de 1954, quando um golpe militar patrocinado pelos Estados Unidos derrubou o primeiro governo democraticamente eleito do país -- liderou a violência contra a população predominantemente indígena do país.

Os governos da Guatemala e de El Salvador, onde 75 mil pessoas morreram em 12 anos de guerra, obrigaram milhares de camponeses de seus países a lutar contra os movimentos guerrilheiros de esquerda, jogando civis contra civis. Vários desses conscritos alegam que foram obrigados a lutar, sob ameaça de morte. Com certeza, aqueles que foram forçados a decidir entre morrer ou assassinar o seus companheiros civis sofreram enormemente. Porém, determinar as condições sob as quais indivíduos entraram no conflito sangrento será um processo longo e complicado. No entanto, não há dúvidas de que as famílias daqueles que desapareceram e foram assassinados são vítimas. As necessidades dessas famílias devem preceder as exigências dos combatentes.

A Guatemala, El Salvador e a Nicarágua seguem imersos na pobreza. A repressão continua, conforme ficou evidenciado em 1998, com o assassinato do bispo Juan Gerardi, dois dias após o lançamento do "Nunca Mas", que detalhou as barbaridades cometidas pelas forças armadas guatemaltecas. Promessas de acordos de paz continuam sem ser cumpridas. Mas as exigências dos combatentes não passaram desapercebidas. O New York Times divulgou recentemente que o presidente da Guatemala, Alfonso Portillo, está pensando em pagar as indenizações exigidas pelos ex-soldados, após estes terem ensaiado promover protestos, bloqueando as estradas que levam às ruínas maias de Tikal, um grande centro turístico.

Para países que convivem com tanta pobreza e instabilidade, a indenização para esses combatentes não deveria estar dentre as prioridades nacionais. Os governos deveriam dar atenção, prioritariamente, ao desenvolvimento rural, à educação e aos direitos humanos básicos, atendendo às necessidades das vítimas indubitáveis dos anos de guerras. Somente após as comunidades destruídas pelos combates terem sido indenizadas, os governos devem se dedicar à questão complexa de indenização aos combatentes.

Tradução: Danilo Fonseca

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