Opinião: Chirac está parcialmente certo com relação ao Iraque

H.D.S. Greenway
The Boston Globe

Winston Churchilll disse certa vez, durante a Segunda Guerra Mundial, que a cruz mais pesada que já teve que carregar foi a Cruz de Lorraine, o símbolo dos seus aliados franceses sob o General Charles de Gaulle. Desde então, os franceses continuaram incomodando as potências anglo-saxãs, o Reino Unido e os Estados Unidos, muitas vezes parecendo seguir um rumo diferente pelo puro prazer de manifestar uma posição contrária. Mas isso não quer dizer que os franceses não tenham coisas úteis a dizer ou que não devam ser ouvidos.

No início desta semana, o presidente francês, Jacques Chirac, apresentou algumas propostas bastante úteis, apesar de algo incorretas, sobre como o Ocidente deveria confrontar Saddam Hussein. Ele disse ao New York Times que o Conselho de Segurança das Nações Unidas deveria dar um ultimato ao Iraque. "Deixem que os inspetores de armamentos entrem no país dentro de um prazo de três semanas, sem restrições ou pré-condições". Caso o Iraque recusasse -- ou "andasse para trás", conforme colocou o presidente Bush -- então, chegaria a hora de uma segunda resolução do Conselho de Segurança, sobre a utilização ou não da força militar. Segundo Chirac, a França participaria da elaboração dessa segunda resolução, e o voto francês dependeria do teor deste documento.

O ultimato para que os inspetores entrem é um bom plano, mas o próprio Chirac estava "andando para trás" quando tratou da segunda resolução. Não deve haver uma segunda resolução. A primeira resolução deve conter tanto o ultimato quanto o voto para utilizar a força, caso Saddam não permita a entrada dos inspetores ou atrapalhe de alguma forma o serviço destes. Só então Saddam Hussein saberia que só conta com duas opções: se desarmar ou ser retirado do poder. A esperança de se elaborar uma segunda resolução prejudicaria a eficácia da primeira.

Há perigos quanto a essa abordagem. Quem vai decidir se Saddam estaria violando os acordos? Caso seja a ONU, não haveria uma tentação para se julgar que Saddam Hussein não estaria exatamente violando tais tratados, na esperança se achar uma saída sem conflito? Saddam poderia tentar fazer com que os empecilhos que impusesse aos inspetores parecessem menores do que realmente o fossem. Mas, conforme disse o britânico Tony Blair, as Nações Unidas precisam apresentar uma maneira de resolver o problema representado pelo Iraque, e não uma forma de evitá-lo.

Além disso, mesmo sem serem importunados, os inspetores podem demorar até um ano para completarem os seus trabalhos. Isso daria ao regime iraquiano tempo suficiente para aprimorar as armas químicas e biológicas que já possui, e talvez até acelerar o seu programa nuclear. E, afinal, será que os inspetores poderão realmente encontrar algo?

Mas há riscos que valem a pena serem enfrentados. O problema do Iraque precisa ser encarado pela comunidade das nações, e não pelos Estados Unidos sozinhos, ainda que os norte-americanos sejam os responsáveis pela maior parte dos combates. Saddam Hussein já está desafiando resoluções da ONU que se seguiram à Guerra do Golfo, mas uma nova resolução do Conselho de Segurança é necessária, caso o mundo realmente queira lidar com a ameaça representada pelo Iraque.

E, que ninguém se engane, o Iraque realmente representa uma ameaça mortal para os seus vizinhos, para os Estados Unidos e para o mundo. Saddam Hussein está determinado em obter as piores e mais perigosas armas conhecidas pela humanidade, de forma que possa desempenhar o papel imaginado pela sua personalidade monomaníaca. Ele atacou os seus vizinhos por duas vezes e utilizou gás venenoso contra o seu próprio povo. As regras normais de precaução parecem não se aplicar a ele.

O problema de Bush não é o fato de ele desejar tomar uma providência quanto ao Iraque. O seu problema é a abordagem arrogante e unilateral que muitos membros do seu governo parecem exigir, enfurecendo não só os nossos aliados, mas também o Congresso, e especialmente os republicanos. Tem havido uma fascinante guerra civil por detrás dos bastidores, travada entre o segundo governo Bush, e figuras proeminentes do primeiro, que advertem que a guerra no Afeganistão não terminou, que a guerra contra o terrorismo precisa ser a nossa maior prioridade, e que a questão palestina não pode ficar pendente.

Deve-se conceder um crédito a George W. Bush por ter abandonado, pelo menos por ora, a abordagem unilateral e ter dado início a um diálogo com o povo norte-americano e com a comunidade internacional. Pelo menos por hora, o secretário de Estado Colin Powell parece estar vencendo a batalha contra os "super-falcões" do governo Bush.

E isso é algo que faz sentido, política e diplomaticamente. Sessenta e quatro por cento da população norte-americana é a favor de uma ação militar contra o Iraque, mas somente 30% desejam faze-lo sem a participação dos aliados. E, conforme o analista do Partido Republicano, Don Nickles, senador por Oklahoma, disse ao presidente: "Queremos estar ao seu lado, mas você não está nos dando um retorno suficiente". Os nossos amigos no exterior ficarão ainda mais céticos, mas precisamos de aliados, não só para confrontar o Iraque, mas, o mais importante, para travar uma guerra incansável contra os terroristas.

Se os argumentos de Bush contra o Iraque forem sólidos, eles se sustentarão. Caso as provas sejam demonstradas, a maioria dos países vai concordar com Tony Blair, que disse que seria algo de irresponsável conhecer as ameaças e não fazer nada quanto a elas. Os ecos das advertências de Churchill sobre Hitler, que passaram desapercebidas, ainda fazem parte da memória coletiva mundial, e Jacques Chirac forneceu um bom esboço sobre o que deve ser feito.

Tradução: Danilo Fonseca

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