Laços comerciais do Iraque podem deter apoio ao ataque americano

Anthony Shadid
The New York Times
Em Washington (EUA)

O Iraque vem aumentando drasticamente seus laços comerciais com a Rússia e outros países árabes desde o ano passado, em um fenômeno que pode desestimular os novos parceiros de Bagdá a apoiar um ataque americano.

Iraque assinou acordos de comércio livre com 10 nações árabes, inclusive importantes países do Golfo Pérsico, como o Qatar; aprofundou seus laços com a Síria e fechou negócios substanciais com aliados americanos, como o Egito e a Jordânia. Com a Rússia, seu maior parceiro comercial, está negociando um acordo amplo, que visa cooperação em petróleo, agricultura e transporte. Autoridades iraquianas dizem que o acordo envolve US$ 40 bilhões.

Os interesses de Moscou em Bagdá são tão importantes que um diplomata russo reuniu-se com autoridades de oposição iraquiana neste mês, em Washington. A Rússia queria saber se os compromissos serão respeitados caso o presidente Saddam Hussein seja derrubado, disse uma autoridade americana.

Os iraquianos "foram hábeis em construir um interesse econômico em torno da continuação do regime iraquiano", disse James Placke, ex-diplomata americano e diretor de pesquisa em Oriente Médio da Associação de Pesquisa de Energia.

As repercussões econômicas de ação militar contra o Iraque continuam sendo uma variável indeterminada na política do governo. São também mais um fator de complicação nas discussões desta semana, no Conselho de Segurança da ONU, sobre uma resolução contra o Iraque.

Enquanto muitos dos acordos têm pouco significado até que as sanções da ONU sejam suspensas, eles acrescentam ansiedade quanto a uma possível invasão americana e suas conseqüências. As preocupações são mais sentidas na própria vizinhança do Iraque.

Essas ondas de oposição, que envolvem desde hostilidade a apelos por uma solução diplomática, contrastam com o suporte que os EUA receberam em 1991, quando o Egito, a Síria e outros estados árabes enviaram tropas para a Guerra do Golfo.

Grande parte da oposição é motivada por motivos políticos -simpatia pelos iraquianos cuja vida deteriorou-se desde que sanções foram impostas depois da invasão do Kuait pelo Iraque, em 1990. No entanto, o dinheiro também tem peso. Desde a Guerra do Golfo, muitos vizinhos e ex-aliados do Iraque dizem que o conflito e as sanções muito lhes custaram -Turquia estimou suas perdas em US$ 35 bilhões, Rússia em US$ 30 bilhões.

Apesar dos analistas dizerem que o Iraque é um caos econômico, com alto desemprego e inflação em 60%, ainda é o lar da segunda maior reserva de petróleo do mundo -112 bilhões de barris de reservas e ao menos o dobro disso em campos potenciais. Se reinarem o caos e a instabilidade depois de um ataque americano, essas reservas não serão desenvolvidas, privando países como a Rússia de benefícios de acordos que já assinaram, dizem analistas.

"A oposição vem do fato que ninguém compreende qual será o Iraque resultante e que tipo de impacto desestabilizador (um ataque) terá no resto da região" disse Vahan Zanoyan, presidente e diretor executivo da Petroleum Finance Co., firma de consultoria em Washington. "Vamos deixar para trás algo viável, ou vamos deixar uma bagunça?"

Talvez a Rússia, que é membro do Conselho de Segurança, tenha mais a perder. Autoridades americanas admitem que o país será a principal peça para conquistar apoio da ONU para um ataque ao Iraque.

Além dos US$ 40 bilhões do acordo de cooperação, firmas russas compram a maior parte das exportações de petróleo iraquiano e continuam a ser o maior parceiro comercial de Bagdá. Iraque ainda deve à Rússia ao menos US$ 7 bilhões em dívidas soviéticas, talvez até US$ 11 bilhões.

Firmas de petróleo russas, além de empresas da China e da França, também membros do Conselho de Segurança, fecharam acordos de bilhões de dólares, apesar da maior parte do trabalho depender da suspensão das sanções.

Algumas autoridades do governo foram reticentes em relação aos acordos. "Nenhum desses contratos têm impacto nesse momento", disse uma autoridade. "São todos projetados para conquistar alguma coisa em um ambiente pós-Saddam".

Outras autoridades admitem que os interesses econômicos da Rússia terão influência no curso escolhido pelo presidente Vladimir Putin. Alguns no Congresso já sugeriram que os EUA garantem uma parte dos acordos e o pagamento das dívidas do Iraque a Rússia, para tranqüilizar sua oposição a um ataque americano. Uma alta autoridade do governo disse, na semana passada, que ainda era "cedo para falar sobre esse tipo de coisa".

Iraque tem sido incansável em seus esforços para conquistar o apoio do mundo árabe. O ministro de Relações Exteriores, Naji Sabri, tem tomado a frente.

Nos últimos dois anos, o país fechou acordos variados e de livre comércio com países que vão da Argélia aos Emirados Árabes Unidos. O país conseguiu diminuir a retórica antiárabe, estabelecida depois da Guerra do Golfo, e até degelou relações com o Kuait e Arábia Saudita. As medidas ajudaram a produzir uma reconciliação que culminou na reunião de cúpula árabe em Beirute, em março, quando delegados pediram um fim das sanções e refutaram ataques ao Iraque.

"Tem sido política do governo usar todo tipo de pressão econômica para fortalecer sua posição no mundo árabe. Até agora, tem tido sucesso", disse Abbas Alnasrawi, especialista em Iraque na Universidade de Vermont.

Placke, o analista de energia, chama os esforços de uma tentativa de "se apresentar como um país normal, com quem se pode fazer negócios".

Esses negócios tiveram maior impacto na Síria e na Jordânia.

A Jordânia é mais vulnerável, pois depende de petróleo iraquiano, que é enviado de graça ou por tarifas reduzidas. Durante anos, o país reclamou do impacto das sanções, junto às autoridades americanas. Agora, teme os efeitos de uma possível guerra em sua precária economia, disseram autoridades americanas. O Departamento de Estado, vem procurando alternativas ao petróleo iraquiano para a Jordânia. Vem também buscando, com resultados variados, outros mercados para seus produtos agrícolas, particularmente no Kuait, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos.

"Houve algum progresso, mas ainda não temos um acordo firmado", disse uma autoridade americana.

A falta de um acordo produziu ansiedade entre executivos jordanianos, que têm laços fortes com o rei Abdullah 2º.

Síria também tem muito em risco, dizem os analistas.

Depois de tomar o lado do Irã durante a guerra com o Iraque de 1980-88 e com os EUA na Guerra do Golfo, o país em grande parte reconciliou-se com o Iraque. Seus laços foram reforçados por aproximadamente 150.000 barris de petróleo por dia que o Iraque contrabandeia pela Síria, de forma semelhante às redes que o Iraque promoveu pela Turquia, Jordânia, Irã e estados do Golfo Árabe.

Os dois também fecharam acordos em saúde, comércio, meio ambiente e educação. A Síria tornou-se um novo entreposto para bens para o Iraque. Ultimamente, tem havido discussões para reativar projetos de construção de uma linha de ferro de Bagdá a Aleppo, no noroeste da Síria.

Ainda é assunto de debate quanto a economia será capaz de deter ação militar americana. Analistas, entretanto, dizem que o comércio contribui com oposição substancial a um ataque americano.

Paul Sullivan, especialista em Oriente Médio da Universidade de Defesa Nacional em Washington, disse que, além da oposição popular a uma invasão americana, a rede de laços econômicos que o Iraque construiu na região "está aproximando muitos desses países do Iraque".

Tradução: Deborah Weinberg

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