Analistas afirmam que economia dos EUA resiste a uma guerra

Sue Kirchhoff
The Boston Globe
Em Washington (EUA)

O conflito no Golfo Pérsico de 1990 e 1991 fez com que os preços do barril de petróleo disparassem, prejudicou as Bolsas de Valores e levou a uma grande recessão. Os economistas estão apostando que uma segunda invasão do Iraque não provocaria a repetição de tais fatos.

Neste momento em que os Estados Unidos se inclinam na direção de um conflito militar com Bagdá, líderes empresariais, parlamentares e analistas de mercado estão avaliando os possíveis impactos econômicos, incluindo preços mais altos do petróleo, aumento dos gastos com as forças armadas e oscilações da confiança do consumidor. Muitos dizem que, atualmente, os Estados Unidos estão mais bem posicionados para enfrentar uma guerra do que uma década atrás.

O Iraque está exportando uma quantidade de petróleo bem menor do que em 1990, o orçamento federal, apesar dos déficits que ora emergem, está em melhor forma; e o público e os mercados estão mais preparados para uma operação militar.

O diretor do Federal Reserve (O Fed, banco central dos Estados Unidos), Alan Greenspan, disse ao Congresso na semana passada que não espera que um novo conflito com o Iraque empurre a economia norte-americana de volta para uma recessão, contanto que os combates não sejam prolongados. Ao mesmo tempo, há ceticismo quanto à possibilidade de que uma guerra seja capaz de dar um empurrão na economia ou no mercado de ações, que enfrentam problemas. O preço do petróleo, por exemplo, já está trazendo, embutido, um preço extra de US$ 5 (R$ 17) devido à possibilidade de guerra, com base em preocupações nutridas pelo mercado de que as reservas do Oriente Médio possam ser afetadas.

"O problema já é real", afirma Vahan Zanoyan, presidente da Petroleum Finance Corporation, uma firma de consultoria com sede em Washington. "Estamos falando sobre um impacto resultante da guerra? Bem, ele já está presente, antes mesmo de a guerra começar".

Se os aliados dos Estados Unidos arcaram com a maior parte dos US$ 60 bilhões (R$ 204 bilhões) gastos com a Guerra do Golfo, os Estados Unidos poderiam terminar, desta vez, tendo que pagar sozinhos toda a conta. Uma vitória rápida e decisiva poderia acalmar os mercados, removendo incertezas e pavimentando o caminho para a diminuição dos preços do petróleo, caso Bagdá retomasse o papel de grande fornecedor do produto. Mas isso provavelmente não alteraria outras questões fundamentais de curto prazo, que assustaram os investidores, incluindo um excesso de oferta no setor tecnológico. A economia já convive com um excesso de estímulos fiscais. O que não tem existido é a demanda nos negócios.

"No final das contas, o problema com o mercado de ações são os lucros, e o problema é saber até que ponto a economia vai se fortalecer", diz Brian Nottage, da firma de consultoria economy.com.

"As pessoas estão achando que uma guerra vai ajudar automaticamente a economia", diz ele. "Mas elas estão se baseando em um modelo anacrônico. Não fazemos mais guerras dessa maneira. Haverá carência de certos produtos bélicos que serão repostos com o passar do tempo, mas sem pressa. Não vamos construir mais aviões ou tanques amanhã devido à guerra".

É difícil prever os efeitos de uma guerra que pode ocorrer ou não. Não se sabe se haverá um conflito, quanto tempo ele duraria, se ele se espalharia para outros países ou os possíveis custos da reconstrução do Iraque. Ao tentar avaliar o que poderia acontecer, o primeiro fator sobre o qual a maior parte dos analistas se debruça é o petróleo.

Após a invasão do Kuait pelo Iraque, em 1990, o preço do barril de petróleo disparou de US$ 15 (R$ 51) para US$ 40 (R$ 136). O Iraque, no auge da sua produção, fornecia cerca de 3,5 milhões de barris de petróleo diariamente para o mercado mundial.

As reservas confirmadas de petróleo iraquiano, de cera de 112 bilhões de barris, são as segundas maiores do mundo. Mas, desde que a ONU e o Iraque chegaram a um acordo sobre a retomada da venda do petróleo iraquiano em 1996, as exportações variaram bastante, interrompidas por episódios políticos, por uma infraestrutura sucateada, e pelas incertezas do mercado quanto ao futuro. As atuais estimativas indicam que as exportações do Iraque, controladas pelas sanções impostas pela ONU, estariam bem abaixo do volume atingido durante o ápice da produção.

Devido à imprevisibilidade da situação, os fornecedores de petróleo buscam alternativas. Em caso de guerra -- e a completa interrupção das exportações iraquianas -- acredita-se que os países mais importantes da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), como a Arábia Saudita e o Kuait, teriam condições de compensar a queda da produção mundial. Os Estados Unidos também estão se preparando para utilizar as suas reservas estratégicas de petróleo.

"Caso haja uma interrupção temporária das exportações de petróleo, este será um problema de curto prazo que vai ser solucionado", garante Abbas Alnasrawi, especialista em petróleo da Universidade de Vermont.

A Opep se reuniu na última quinta-feira, no Japão, para decidir se vai aumentar a produção, tendo em vista que os preços subiram mais de 40% este ano, chegando a US$ 30 (R$ 102) o barril. Embora as deliberações da Opec estejam sujeitas a complicações, devido à situação incerta, não se espera que os atuais níveis de produção sejam alterados -- não havendo, portanto, a perspectiva de alívio para os setores da economia norte-americana altamente dependentes do petróleo, incluindo o transporte e o turismo, que ainda não se recuperaram totalmente dos ataques terroristas do ano passado.

"Vimos isso acontecer no passado, quando o preço da gasolina chegou a mais de US$ 0,52 (R$ 1,79) o litro. Ao invés de cancelar as viagens, a população apenas alterou a maneira de viajar. Com uma economia combalida e preços da gasolina em alta, o consumidor optou por viagens mais curtas. As pessoas não cancelaram as suas férias... mas elas passaram a gastar menos", diz Cathy Keefe, gerente de relações de mídia da Associação da Indústria de Viagens dos Estados Unidos.

O quadro de longo prazo, relativo ao petróleo, também é nebuloso, e os cenários variam bastante.

O Iraque poderia procurar aumentar dramaticamente a sua produção - o ministro do petróleo do Iraque previu, no ano passado, que um Iraque não sujeito às atuais sanções poderia produzir 10 milhões de barris diários, um volume maior do que a atual produção da Arábia Saudita. Seria de se esperar que isso provocasse uma inundação no mercado, empurrando os preços para baixo.

A instabilidade de longo prazo no Iraque, entretanto, poderia restringir as reservas, impedindo investimentos e tornando difícil a recuperação da indústria petrolífera do país. Alnaswari afirma que uma série de golpes e a instabilidade civil são acontecimentos prováveis no Iraque, caso um ataque norte-americano venha a derrubar Saddam Hussein.

"Qualquer que seja o tipo de governo que chegue ao poder em Bagdá, tal governo precisará do petróleo e das receitas geradas pelo petróleo para a sua sobrevivência e para administrar o país", afirma. "O que vai acontecer, no entanto, é que a instabilidade no Iraque vai impedir o governo de expandir a sua capacidade de produção e exportação".

Uma guerra poderia gerar um outro impacto direto sobre os Estados Unidos, ao piorar o quadro fiscal do governo. O orçamento federal, cuja previsão de superávit para um período de dez anos chegou aos US$ 5,6 trilhões (R$ 19 trilhões), deve ficar deficitário em 2005.

Os analistas têm dito que uma nova guerra custaria algo entre US$ 50 bilhões e US$ 100 bilhões (R$ 170 bilhões e R$ 340 bilhões), dependendo da duração do conflito. O assessor econômico da Casa Branca, Lawrence Lindsey, disse ao "Wall Street Journal" que esse valor poderia chegar a US$ 200 bilhões (R$ 680 bilhões). Mas o diretor de orçamento da Casa Branca, Mitch Daniels, disse à imprensa que acredita que esses números sejam exagerados.

Embora os valores sejam altos, os custos potenciais de uma guerra contra o Iraque representam apenas uma pequena porcentagem do orçamento e da economia dos Estados Unidos. Até agora, esses números não têm gerado preocupações quanto aos déficits estruturais de longo prazo que causariam danos à economia. Mas isso não significa que não haveria certos ajustes políticos que atingiriam o consumidor, tais como a redução dos gastos federais com os programas sociais.

"Se a questão for determinar se qualquer decisão do presidente quanto à guerra poderá ser administrada, a resposta é afirmativa", diz Daniels. Ele afirma que o governo ainda não tomou decisões quanto ao orçamento do próximo ano ou sobre como financiar a guerra -- mas deixou claro que os gastos em outras áreas do orçamento precisarão ser reduzidos.

Até o momento, o Congresso e a Casa Branca optaram por administrar déficits, ao invés de fazer escolhas difíceis para pagar os custos da luta contra o terrorismo. Stanley Collender, da Fleishman-Hillard, um especialista em orçamentos, acredita que essa tendência deva continuar. "Não consigo imaginar que tenhamos que aumentar os impostos para pagar pela guerra. E tampouco que cortemos gastos com educação ou com o seguro-saúde federal, devido a atual tolerância do Congresso para com os déficits", afirma.

"Será que o orçamento é capaz de suportar tal impacto? É claro. Estamos falando de um orçamento de US$ 2,1 trilhões (R$ 7,15 trilhões). A economia pode, com toda certeza, lidar com o problema", garante Collender.

A única coisa que ninguém sabe ao certo é se o conflito valeria a pena. Guerras passadas tiveram conseqüências militares e impactos econômicos inesperados, incluindo a inflação que se seguiu aos conflitos na Coréia e no Vietnã.

A Stone and McCarthy, uma firma de consultoria econômica e financeira, em um relatório aos seus clientes, intitulado "Guerra. Para que Ela Serve? Para Absolutamente Nada", afirma que uma vitória rápida poderia estimular o mercado de ações a se recuperar no ano que vem, mas que uma guerra prolongada seria capaz de causar novos problemas econômicos para os Estados Unidos, deprimindo ainda mais os mercados.

"Vamos apostar no cenário mais otimista", disse a firma.

Tradução: Danilo Fonseca

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