Editorial: A política da indignação volta à cena nos EUA

Editorial
The Boston Globe

É aconselhável supor que os políticos nem sempre pensam realmente o que dizem ou dizem o que realmente pensam. O princípio se aplica à discussão em que o presidente Bush insinuou que a questão da segurança nacional não preocupa os senadores democratas. O senador democrata Tom Daschle, líder da maioria, reagiu com veemência incomum e afirmou que o presidente queria politizar a discussão sobre a guerra e deveria retratar-se perante os senadores que são veteranos de guerra.

Bush comentava seu Projeto de Segurança Nacional, que foi aprovado na Câmara dos Deputados, controlada pelos republicanos, mas tem sido arduamente discutido no Senado, controlado pelos democratas. O centro da polêmica é o fato de que, na versão de Bush, o Projeto determina que dezenas de milhares de funcionários públicos perderiam suas garantias após serem deslocados de suas atuais agências para um novo Departamento de Segurança Nacional.

Trata-se de um debate legítimo sobre valores e alternativas políticas. Na verdade, os democratas se dispõem a aceitar a maior parte das propostas do projeto de Bush, e parece bastante aceitável seu argumento de que a segurança do território americano não será ameaçada caso alguns funcionários públicos mantenham seus direitos.

Mas Bush passou da conta quando afirmou, na segunda-feira, que "o Senado dá mais valor a interesses especiais em Washington e não valoriza a segurança do povo americano". Como Bush tem quem escreva seus discursos, sua insinuação de que os senadores democratas são indiferentes à segurança nacional não pode ser atribuída à sua pouca intimidade com a língua inglesa. A agressão de Bush merece o adjetivo escolhido por Daschle: "revoltante".

Apesar de tudo, é necessário notar a lógica tortuosa e as intenções veladas presentes na resposta de Daschle. Este sereno senador de Dakota do Sul tremia enquanto extravasava sua indignação. A emoção exibida por Daschle converteu Bush em um fanfarrão que não tem respeito por democratas como o veterano mencionado por Daschle, Daniel Inouye, do Havaí. Sua paixão também lhe permitiu passar da discussão sobre o insulto de Bush a respeito do Projeto de Segurança Nacional para a tática republicana de manter o Iraque nas manchetes até o dia das eleições e assim impedir que os democratas discutam a questionável política econômica de Bush.

Há claros sinais de que Daschle tenha razões para afirmar que os republicanos pretendem impor aos eleitores a discussão sobre o Iraque e o terrorismo. Por outro lado, a indignação de Daschle talvez tenha sido apenas mais um lance de catimba política, ou então uma tentativa de esfriar o jogo eleitoral.

Ambas partes chegaram onde queriam, e deveriam deixar de lado os jogos da política ao tratar de questões de extrema gravidade. Para começar, poderiam deixar de lado o jargão da manipulação, o discurso da persuasão velada.

Tradução: André Medina Carone

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