Venezuela está mergulhada em rumores e impasses

H.D.S Greenway
The Boston Globe
Em Caracas (Venezuela)

Costuma-se dizer que a maldição da Espanha nos primeiros anos do século passado era sua incapacidade para a conciliação. Tratava-se de um país nascido de "rancores arraigados... não havia o hábito da organização, do compromisso, nem sequer do respeito mínimo, e nem sequer se buscava nada disso", escreveu o historiador Hugh Thomas ao comentar a Guerra Civil Espanhola.

Parte desse legado foi transmitido às antigas colônias espanholas, e aqui neste país rico em petróleo e cada vez mais pobre a polarização política chegou a um tal extremo que já não se pode imaginar a mínima possibilidade de diálogo construtivo entre os partidários do presidente Hugo Chavez e seus opositores -- uma realidade ainda mais trágica para um país que já foi considerado um modelo de democracia para a América do Sul.

Instigados pela retórica feroz de Chavez, que criou um novo gênero de ódio entre classes, os líderes de oposição partiram para denúncias inflamadas e hiperbólicas. Apenas alguns poucos têm a modéstia de reconhecer que Chavez apenas chegou ao poder graças à incapacidade de seus pares para produzir um governo responsável e livre da corrupção.

"Golpe de Estado": eis o que se picha nas paredes da cidade, ao lado de acusações de traição contra esta ou aquela facção. "No país inteiro, só se fala sobre a saída de Hugo Chavez", afirma Miguel Henrique Otero, editor do El Nacional, um dos principais jornais diários do país.

"Todo dia surgem rumores de golpes, rumores de uma ou outra data", afirma o Embaixador Americano Charles Shapiro em uma rádio local. "Eu imaginava que a fonte primária de energia neste país era o petróleo. Mas agora chego à conclusão que a fonte primária de energia é o rumor".

Os Estados Unidos estão em uma posição delicada. Quando Chavez foi deposto em um aparente golpe de Estado no mês de abril, a reação do governo Bush foi mais acolhedora do que condenatória à deposição de um presidente democraticamente eleito. Quando Chavez regressou ao poder 48 horas depois, Washington já não sabia mais o que dizer. Mas a declaração da Embaixada Americana, que afirmou na semana passada que o governo de seu país se opunha a ações ilegais ou violentas para a deposição de um governo eleito de forma constitucional e democrática, não agradou a muitos. Os opositores de Chavez viram ali uma intromissão americana nas questões nacionais da Venezuela, enquanto os seguidores do presidente se perguntaram por que a declaração teria demorado tanto e o que a Embaixada talvez soubesse e que o governo não saiba.

O errático, esquerdista, populista e ex-paraquedista Chavez já ensaiara golpes de Estado antes de chegar ao poder em uma acachapante vitória nas eleições de 1998, após ter prometido acabar com a miséria e a corrupção. Até agora, não cumpriu nenhuma das metas.

Chavez promoveu um plebiscito nacional para promulgar uma nova constituição mas, como afirmou a comissária de direitos humanos Mary Robinson em 2000, "as reformas em curso tendem a centralizar o poder sem as devidas compensações, e não consolidam a independência do poder judiciário". Nos anos seguintes o poder presidencial fortaleceu-se rapidamente. Chavez foi capaz de afastar-se definitivamente de grande parte da classe alta e da classe média, da elite empresarial, da Igreja Católica, da mídia independente, de uma parcela das Forças Armadas e até mesmo dos sindicatos, que se sentiram desautorizados pelo controle que Chavez tentou lhes impor.

Ao seu lado estão camaradas que enriqueceram e, acima de tudo, as massas miseráveis do país, que veneram Chavez com uma intensidade quase religiosa e o vêem como o coringa do baralho em um jogo do qual sempre saíram derrotados.

A admiração de Chavez por Fidel Castro, sua amizade com tiranos do Oriente Médio e seu suposto apoio financeiro a guerrilheiros colombianos de esquerda dispararam alarmes desde os Andes até Washington. Dentro da Venezuela, a má sorte deste país que deveria ser riquíssimo é atribuída à colossal incompetência administrativa. A Venezuela é o quinto maior exportador de petróleo e o quarto maior exportador para os Estados Unidos, responsável por 7% do consumo americano de petróleo. Mas o PIB venezuelano deverá cair 6,3% neste ano, o desemprego poderá chegar a 15%; a classificação de crédito do país cai, os investidores vão embora e a inflação já ultrapassa a marca de 16%. Enquanto isto, crescem as restrições à liberdade política e Chavez incita a violência contra quem queira discordar dele -- especialmente a mídia, que cada vez mais julga a si própria como a única e autêntica oposição.

"O comunismo bate à nossa porta", afirma Carlos Fernandez, presidente da poderosa organização empresarial Fedecamaras.

"Vivemos uma ditadura", afirma Carlos Ortega, presidente da maior central sindical do país, a Confederacion de Trabajadores de Venezuela. "Nossa situação é insustentável... o modelo de Castro não será instituído aqui". Mas por mais que se fale em Fidel Castro, parece mais apropriado o nome do argentino Juan Perón, um homem que também mobilizou os "descamisados", mas mergulhou um dos mais promissores países do mundo em uma crise que ainda não chegou ao fim.

A Venezuela está longe de ser uma tirania, de acordo com os padrões mundiais. Líderes do golpe fracassado não foram perseguidos ou processados, os jornais não foram fechados, os partidos políticos não foram banidos. Mas os indicadores são todos ruins, e os seguidores de Chavez que defendem a violência são apavorantes.

Obcecado com a questão iraquiana, o governo Bush talvez não reflita sobre as conseqüências de uma mudança de regime neste canto do mundo e conte apenas com o tranqüilo e confiável fornecimento do petróleo. Mas isso não está garantido.

H.D.S. Greenway é colunista do Boston Globe.

Tradução: André Medina Carone

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