Relatório da OMS alerta para a violência contra as mulheres

John Donnelly
The Boston Globe
Em Washington (EUA)

A Organização Mundial de Saúde (OMS) divulga na quinta-feira (3) um novo relatório sobre violência. Segundo ele, a violência é "previsível e passível de prevenção". A OMS alerta ainda que as mulheres são mais vulneráveis a ataques e pede que os países encontrem formas de reduzir mortes e agressões.

"Todo país lida com a violência. O problema é que, normalmente, as medidas são tomadas após o fato, e não antes", disse Etienne Krug, diretor da OMS responsável pelo relatório. "Tudo na saúde pública é prevenção. Todos os setores --saúde, polícia, justiça- têm seu papel para deter a violência".

O relatório envolveu um esforço de três anos e é a primeira compilação de estatísticas amplas sobre violência. Seu intuito é desfazer a noção de que a violência é parte inevitável da vida.

Ele classifica as categorias que mais causaram mortes violentas. Surpreendentemente, a guerra aparece em último lugar. Das 1,6 milhão de mortes violentas em 2000, mais da metade foi por suicídio, quase um terço por homicídio e cerca de um quinto por baixas de guerra.

Mark L. Rosenberg, diretor da Força Tarefa para Sobrevivência e Desenvolvimento de Crianças, disse que o relatório poderia levar as pessoas a verem a violência de forma diferente.

"Violência é uma dessas coisas que as pessoas acham que nada pode ser feito", disse Rosenberg. "Uma parte muito grande da abordagem de saúde pública na questão da violência é saber que isso não é destino, e sim um problema como outro, assim como a malária, por exemplo' Se compreendermos as causas, poderemos entender os resultados: quem é afetado, quem é envolvido -jovens, velhos, homens, mulheres- e quais são os fatores de risco".

Ao analisar as estatísticas, Krug e outros observaram os altos níveis de violência contra as mulheres.

No caso da "violência contra as mulheres, o que queremos transmitir é que ela está em toda parte", disse Krug. "Ocorre em países de alta renda, países muçulmanos, países católicos, no sul, norte, leste e oeste".

Segundo o relatório, 68% das mulheres violentadas em Bangladesh mantiveram segredo; 47% das mulheres mortas em Alexandria, Egito, foram assassinadas por um parente, depois de terem sido estupradas; e 22% das mulheres americanas afirmam terem sido atacadas ao menos uma vez por um parceiro íntimo. Nesse último estudo, os EUA ficaram atrás de países como Turquia (58%), Etiópia (45%) e Canadá (29%), mas acima da África do Sul (13%) e Filipinas (10%).

O relatório também sugeriu que a violência causada por parceiros é responsável por número significativo de mortes entre as mulheres. Na Austrália, Canadá, Israel, África do Sul e EUA, maridos ou namorados foram responsáveis por até 70% dos assassinatos de mulheres. Isso contrasta fortemente com o número de homens mortos por parceiras. Nos EUA, apenas 4% dos homens assassinados entre 1976 e 1996 foram mortos por suas mulheres ou namoradas.

No mundo todo, o suicídio é a 13ª causa de morte. Entre os 15 e 44 anos, ferimentos auto-infligidos são a quarta principal causa de morte e a sexta causa de problemas de saúde e deficiência, disse o relatório. Em 2000, 815.000 pessoas se mataram, ou 14,5 em cada 100.000 pessoas. Ou seja, uma morte a cada 40 segundos.

O problema é particularmente grave na China. Autoridades do governo estimam em 250.000 o número de suicídios por ano. Com um quinto da população do mundo, o país é responsável por cerca de 55% dos suicídios entre mulheres, de acordo com as autoridades chinesas.

A China é o único país que tem mais suicídios femininos do que masculinos --1,6 suicídio feminino para cada suicídio masculino. A OMS sugeriu que fatores culturais poderiam estar por trás disso, mas não forneceu razões específicas.

Outros países com altas taxas de suicídio foram a Lituânia (51,6 a cada 100.000), Belarus (41,5) e Sri Lanka (37). Nos EUA, a taxa foi de 13,9 suicídios para cada 100.000 pessoas.

O relatório também examinou as mortes por conflitos: No século 16, 1,6 milhão de pessoas tiveram mortes relacionadas a conflitos; no século 20, 109,7 milhões. Atualmente, a África tem os mais altos níveis de mortes por conflitos, com 32 mortes a cada 100.000 pessoas.

Krug pretende levar o relatório a vários países, na esperança de inspirar diferentes partes dos governos a trabalharem juntas em medidas preventivas. Ele marcou 15 visitas para o ano que vem.

As recomendações do relatório incluem escrever um plano nacional de ação; melhorar a coleta de dados; pesquisar causas, conseqüências e custos da violência; fortalecer o apoio às vítimas de violência e promover respostas, como cuidado pré-natal para mães, campanhas na mídia para mudar comportamentos e treinamento de pais.

Tradução: Deborah Weinberg

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