Nova geração de bombas americanas é "mais inteligente", mas nunca foi testada

Ross Kerber
The Boston Globe

Uma nova geração de "bombas inteligentes", baratas e letais, que utilizam componentes de última geração, mapas digitais, e um sistema aprimorado de direcionamento aos alvos, provavelmente se constituirá em um arsenal de armas críticas para um possível ataque dos Estados Unidos ao Iraque, segundo vários analistas de defesa.

"Caso entremos em guerra com o Iraque, não haverá nenhuma ponte sobre o Rio Eufrates, a menos que isso seja do nosso interesse", afirma Jim Hasik, consultor militar que trabalha em Atlanta.

No entanto, Hasik e outros analistas se preocupam com a possibilidade de que as armas novas e mais precisas não tenham sido adequadamente testadas e que os seus estoques sejam reduzidos -- um desafio para o otimismo dos militares com relação à sua nova tecnologia.

Dentre as novas bombas, uma das mais importantes é a Joint Direct Atack Munition (Munição de Ataque Direto Integrado, ou JDAM, na sigla em inglês), um armamento para ser utilizado em qualquer condição meteorológica, fabricado pela Boeing Corporation, com componentes da empresa Textron Incorporation, de Providence, Rhode Island, além de outros fornecedores civis.

Ao contrário das armas mais antigas, aquelas de nova geração localizam a sua trajetória por meio de recursos avançados, tais como dados de elevação de alvo e sinais de satélite. A JDAM já se mostrou eficiente na campanha do Afeganistão. Até fevereiro deste ano, os comandantes norte-americanos já haviam lançado 6.600 JDAMs sobre aquele país, segundo estimativas de consultores. O número foi tão grande que os estoques ficaram baixos, e os militares tiveram que providenciar a produção urgente de novas unidades fabricadas em uma fábrica no Missouri.

Mais bombas desse tipo estão sendo fabricadas, já que custam menos de US$ 30 mil por unidade (cerca de R$ 111 mil), uma fração do preço de armas como o míssil de cruzeiro Tomahawk , que custa mais de US$ 1 milhão (cerca de R$ 3,7 milhões). Os observadores vêem nesse arsenal um grande avanço com relação às armas utilizadas contra o Iraque na Guerra do Golfo de 1991.

Ao falar perante a Comissão de Serviços Armados da Câmara dos Deputados, em 18 de setembro, o general Richard B. Myers, comandante do Estado Maior das Forças Armadas, mencionou a JDAM para fortalecer o seu argumento de que "o poder de combate da nossa nação aumentou drasticamente no decorrer da última década".

Há outras armas similares, como a Joint Stand-Off Weapon, uma bomba fabricada pela Raytheon Corporation, de Lexington, Massachusetts, que é capaz de planar por quase 100 quilômetros, e um míssil ar-terra da Lockheed Martin Corporation, que será lançado em breve. Essas armas são projetadas para serem usadas tanto pelos aviões da Força Aérea, quanto pelos da Marinha.

O Pentágono não vai divulgar a quantidade de relatórios de eficiência de bombas lançadas, que certas pessoas afirmam ser uma informação necessária para avaliar as recentes campanha aéreas no Afeganistão e em Kosovo. Os críticos apontam alguns problemas nessas armas -- por exemplo, elas não foram testadas contra alvos móveis, como tanques.

Além disso, em um memorando de 1º de agosto, Thomas Christie, a maior autoridade do setor de testes de armamentos no Pentágono, criticou a Marinha por utilizar "perigosamente sistemas de combate que não demonstraram ter uma performance aceitável", incluindo uma versão da arma "stand-off", e de um sistema de localização do alvo a laser. O memorando foi divulgado em 24 de setembro por uma organização não governamental, o Projeto de Supervisão do Governo.

Talvez as questões mais críticas com relação às novas armas sejam aquelas que dizem respeito às suas origens civis. Há quem se pergunte se a Boeing é capaz de fabricar JDAMs com a rapidez necessária. Outros expressam preocupações quanto à possibilidade de que os sistemas de orientação das bombas possa ser avariado por dispositivos fornecidos por lojas online por preços que chegam a apenas US$ 40 (cerca de R$ 148). A redução na precisão poderia resultar em danos colaterais, caso as bombas fossem usadas contra alvos urbanos.

A Força Aérea afirma que o ritmo da produção não preocupa e que as bombas tem sistemas internos de orientação para compensar os efeitos de medidas de "jamming" (técnicas para danificar ou confundir o sistema eletrônico de direcionamento dos armamentos). A Marinha reconhece que se apressou para colocar as bombas planadoras em operação, mas diz que só fez isso devido à necessidade premente.

Até mesmo especialistas como Phil Coyle, o predecessor de Christie, e um cético conhecido com relação a programas de armamentos, e que atualmente trabalha para o Centro de Informações de Defesa, diz que as novas armas são, geralmente, tão precisas, que o maior problema quanto à sua utilização diz respeito a qualidade das informações de inteligência utilizadas para localizar os seus alvos.

"A JDAM, em especial, é a arma que vai vencer a guerra", afirma Tim Brown, analista da GlobalSecurity.org, de Washington.

"Se desejarmos identificar um armamento que com certeza vai se destacar em termos de capacidade de destruir mais equipamentos iraquianos a um custo menor, e com um menor risco para as vidas dos norte-amerianos, esse armamento é, sem sombra de dúvida, a JDAM", diz Brown.

Bombas guiadas por controle remoto foram utilizadas pela primeira vez na Segunda Guerra Mundial, e foram alvo de grande atenção quando o Pentágono divulgou as imagens de vídeo da Guerra do Golfo, mostrando as armas destruindo prédios específicos. Estudos realizados mais tarde demonstraram que apenas 8% das bombas utilizadas naquela guerra poderiam ser consideradas como sendo munições precisamente guiadas, o termo militar para as "bombas inteligentes". Além disso, esses estudos mostraram que algumas dessas armas não tiveram um desempenho tão impecável quanto fora anunciado.

Um dos problemas era que os alvos precisavam ser assinalados com raios laser, que são incapazes de penetrar nuvens comuns ou de poeira. Os aviões também tinham que voar a baixa altitude para assinalar os alvos, o que expunha os pilotos ao fogo antiaéreo inimigo.

A Força Aérea e a Marinha responderam com o desenvolvimento de armas que navegam utilizando sinais de satélites, que podem operar em qualquer condição atmosférica e que possibilitam que os pilotos se mantenham a uma distância segura do fogo antiaéreo inimigo. Essa bombas demonstraram ser poderosas durante as primeiras semanas da campanha aérea em Kosovo, em 1999, quando os aviões "invisíveis" B-2, os únicos equipados para lançar as JDAMs, responderam por apenas 3% das missões aéreas, acertando, entretanto, 33% do número total de alvos durante a guerra, segundo um relatório da fabricante da aeronave, a Northrop Grumman Corporation.

Um outro passo foi uma missão do ônibus espacial, em 2000, financiada pela pouco conhecida Agência Nacional de Imagens e Mapeamento, do Pentágono. Utilizando radares especializados, a missão coletou dados topográficos de 80% do planeta, identificando pontos a cada 30 metros, com uma precisão de 16 metros quanto à altitude.

O fato de conhecer essas altitudes ajudará a guiar rumo aos seus alvos mais de 160 sistemas militares, segundo o Web site da agência. Antes de esses dados estarem disponíveis, e considerando que os sinais de satélites não tenham sofrido interferências, uma JDAM tinha uma probabilidade de 50% de cair a 13 metro do seu alvo. Os novos dados referentes à elevação podem fazer com que as armas fiquem duas vezes mais precisas, segundo Hasik, co-autor do livro "The Precision Revolution: GPS and the Future of Aerial Warfare" ("A Revolução da Precisão: O GPS e o Futuro da Guerra Aérea"). Ele acredita que as forças armadas dos Estados Unidos possuem cerca de 15 mil JDAMs prontas para ser usadas.

Dados deficientes referentes à localização dos alvos podem ser fatais. Em dezembro, três membros das forças especiais dos Estados Unidos no Afeganistão foram mortos, e 20 ficaram feridos, por uma JDAM lançada de um bombardeio B-52. Quatro soldados canadenses foram mortos em abril, quando uma bomba guiada a laser foi lançada de um F-16 estadunidense, após o piloto ter confundido a missão noturna de treinamento, em que os soldados estavam engajados, com artilharia inimiga.

Tais casos não fizeram, no entanto, com que os militares desacelerassem os programas de bombas inteligentes. Até agora, 60% das bombas lançadas sobre o Afeganistão foram do tipo precisamente guiado, de acordo com a Northrop. Isso inclui 100 JDAMs que foram lançadas em um intervalo de 20 minutos, em 19 de outubro de 2001. A maioria dos analistas acredita que a percentagem dessas bombas será maior no caso de um ataque contra o Iraque, onde um volume maior de infraestrutura será alvejado.

Um outro motivo para o entusiasmo dos militares é que as bombas ficaram mais baratas. As JDAMs consistem de um kit que custa em torno de US$ 21 mil (cerca de R$ 77 mil), incluindo um receptor GPS, sensores, e aletas de controle. Os kits são instalados nas bombas de ferro já existentes, a mais cara das quais é a Mark-83, um artefato que pesa 450 quilos e custa US$ 7,1 mil (cerca de R$ 26 mil). Loren Thompson, analista do Instituto Lexington, de Washington, diz que isso representa uma revolução em economia militar.

"Atualmente, é possível destruir um alvo que custa vários milhões de dólares com bombas cujo preço representa apenas 1% daquilo que se está destruindo", diz Thompson. "Houve uma época em que, quando se contava com armas tão precisas, elas eram mais caras do que os alvos".

Thompson elogia as forças armadas por terem aplicado os avanços da tecnologia civil para fazer com que as munições e os sistemas de comunicação se tornassem mais efetivos, embora se preocupe com a possibilidade de que o "jamming" possa se constituir em um problema em uma guerra contra um inimigo mais desenvolvido que o Iraque -- um preço que poderia ser pago por se depositar tanta fé na tecnologia. "O Pentágono pode ser considerado como o mais recente adepto da mania ponto-com", diz ele.

Talvez o sinal mais evidente da confiança militar nos seus refinados sistemas de localização de alvos seja uma arma da Força Aérea que está para ser lançada, a Small Diameter Bomb (Bomba de Pequeno Diâmetro", que vai utilizar somente 110 quilos de explosivos para causar o mesmo estrago que uma Mark-83.

Aviões que carregam armamentos mais leves são capazes de atingir mais alvos por missão, e, em tese, a menor quantidade de explosivos reduzirá os efeitos colaterais, diz o coronel da Força Aérea Jim McClendon, o gerente do programa das novas bombas.

"Se contarmos com a precisão apropriada, teremos a letalidade necessária", argumenta McClendon.

Tradução: Danilo Fonseca

UOL Cursos Online

Todos os cursos