Pesquisador americano e dois cientistas britânicos recebem Nobel de Medicina

The Boston Globe
Stephen Smith

Um biólogo do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts) conquistou o prêmio Nobel de medicina por ter empregado um pequeno parasita para trazer à luz os segredos da morte das células humanas -- uma descoberta que revolucionou o campo da biologia e impulsionou pesquisas sobre tratamentos contra o câncer e doenças cerebrais. H. Robert Horvitz, que estudava matemática e economia até ser seduzido pelos mistérios da biologia, dividiu o prêmio com dois pesquisadores ingleses, um deles seu mestre e outro um antigo colaborador. Juntos, eles criaram um novo paradigma para a pesquisa sobre a morte celular ao empregar parasitas chamados nematodes para compreender por quais razões e de que maneira as células humanas cometem suicídio -- um processo inerente à própria vida.

Pesquisadores de companhias farmacêuticas já utilizam suas pesquisas para desenvolver tratamentos cujo objetivo seria incitar as células cancerígenas à autodestruição. E os vencedores do Nobel, ao lado de outros grandes nomes da biologia, acreditam que sua descoberta um dia resultará em métodos que impedirão a morte prematura de outras células e auxiliariam milhões de pacientes afetados pelo mal de Alzheimer ou pelo mal de Lou Gehrig, além de outros distúrbios neurodegenerativos.

"Para mim, nada é mais compensador do que saber que uma de minhas descobertas teria conduzido a tratamentos farmacológicos ou processos de cura", afirmou Horvitz, menos de cinco horas após ter recebido a notícia de que vencera o mais cobiçado prêmio da pesquisa médica. "Seria a realização de um sonho".

Colegas do cientista no MIT comemoraram o prêmio de Horvitz na segunda-feira com champanhe, bolo e discursos efusivos sobre sua generosidade científica -- mas à distância. Horvitz, que nasceu em Chicago e formou-se no MIT e em Harvard, está de férias nos Alpes franceses. "É uma pena que você não esteja aqui pessoalmente", afirmou o presidente do MIT Charles Vest, olhando para uma foto de um sorridente Horvitz. "Mas sei que a champanhe é bem melhor aonde você está agora".

Aos 55 anos de idade, Horvitz é o mais novo cientista do trio. Sydney Brenner, mestre de Horvitz em seu período de estudos em Cambridge, Inglaterra, tem 75 anos de idade; John E. Sulston tem 60. Os três dividirão um prêmio de US$ 1 milhão pela conquista do Nobel de medicina, a primeira categoria a anunciar seus vencedores neste outono.

Este foi o 56o prêmio Nobel conferido ao MIT em 101 anos de história do Prêmio Nobel.

"O dia de hoje", afirmou Vest, "deve nos fazer lembrar da extrema importância da pesquisa elementar. Trata-se realmente do impulso para a compreensão dos processos mais fundamentais da ciência e, no caso de Bob, da vida e da morte".

A pesquisa elementar começou com uma das mais elementares criaturas vivas -- o nematode Caenorhabditis elegans.

Foi Brenner, atual presidente do Instituto de Ciências Moleculares de Berkeley, Califórnia, quem descobriu que o nematode poderia ser empregado como organismo modelo para o estudo da biologia humana. Para as correntes tradicionalistas da biologia, a afirmação era uma heresia -- mas Brenner estava com a razão.

"Era um organismo muito simples com o qual seria possível responder questões de biologia celular que, naquela época, dificilmente seriam respondidas por um trabalho com organismos mais complicados", afirmou Robert Sauer, chefe do departamento de biologia do MIT.

Horvitz e Sulston exploraram esta descoberta. Sulton mapeou o processo de divisão de cada célula e determinou sua função específica no desenvolvimento do nematode, para a seguir mostrar de que maneira determinadas células são programadas para morrer. Horvitz, por sua vez, descobriu e descreveu os genes que controlavam a morte celular no início da década de 80, oferecendo um roteiro para pesquisas sobre doenças humanas.

Até então os biólogos eram treinados para voltar seus microscópios exclusivamente para as células vivas, partindo do pressuposto de que elas eram a matéria da vida humana. Mas nas últimas duas décadas Horvitz, Brenner e Sulston foram responsáveis por um terremoto na biologia, e mostraram que a morte de células humanas é indispensável à vida humana.

"Há 20 anos, todos pensavam que uma célula morta era uma célula morta -- e nada mais", afirma o biólogo celular da Escola de Medicina de Harvard, Junying Yuan, que participou de pesquisas no laboratório de Horvitz no MIT. "As pessoas associavam esta morte à morte de uma pessoa. Elas supunham que a morte das células ocorria da mesma maneira. Não poderiam estar mais enganadas".

Seguindo no caminho o posto, Horvitz e outros cientistas notaram que as células são eficientes máquinas suicidas -- e além disso programadas geneticamente para trabalhar desta maneira. Trata-se de um processo intrínseco à vida, que contribui para manter o equilíbrio celular do corpo, tal como a cobra troca regularmente sua pele.

O processo de suicídio, chamado apoptose, modela tecidos e órgãos em desenvolvimento e aprimora o sistema nervoso central. No curso da vida, o corpo utiliza a morte celular programada para expelir células danificadas e desnecessárias.

Mas de que maneira isto ocorre? Foi Horvitz quem encontrou a resposta.

Com "uma série de experimentos elegantes", na avaliação do comitê de seleção para o Nobel, Horvitz descobriu que um programa genético regula a morte celular. A identidade de dois genes que induzem a morte celular -- tema de um projeto de pesquisa no qual Yuan teve uma participação decisiva -- foi publicado em 1986. Anos depois, Horvitz descreveu de que maneira a sutil interação entre um outro gene e dois genes responsáveis pela morte, já identificados anteriormente, garantia uma proteção contra o suicídio celular.

Os problemas de saúde surgem a partir do momento em que as células que deveriam morrer permanecem vivas ou as células que deveriam viver acabam morrendo. O resultado pode ser câncer, derrames, doenças cardíacas e doenças cerebrais gravíssimas.



A descoberta dos vencedores do Nobel alterou de modo definitivo o terreno da biologia.

"Sua contribuição certamente merece um lugar no panteão das grandes descobertas deste campo", afirma Marc Kirschner, chefe do departamento de biologia celular da Escola de Medicina de Harvard. "Hoje se trabalha com um paradigma inteiramente novo na biologia que remonta aos experimentos de Bob, e por isso não surpreende que ele tenha conquistado o Prêmio Nobel".

Na verdade, no universo muitas vezes frívolo da premiação científica, havia sinais de que Horvitz era um dos fortes candidatos ao Prêmio Nobel. Ele conquistou uma série de prêmios científicos considerados próximos ao Nobel -- semelhantes, sob um determinado aspecto, ao Golden Globe, que abre caminho para a premiação do Oscar.

Além disso Horvitz, afiliado ao Instituto McGovern para pesquisas cerebrais do MIT e do Instituto Médico Howard Hughes, possui inúmeras publicações e recebeu US$ 7,1 milhões para suas pesquisas desde 1972, concedidos pelo Instituto Nacional de Saúde. Todos estes fatos também contribuíram para sua premiação.

O financiamento e até mesmo a publicação de pesquisas científicas podem ser muitas vezes o reflexo do respeito -- ou mesmo da afeição -- por um determinado pesquisador. Nos círculos dos quais Horvitz participa, ele é visto como um colaborador ávido, sempre disposto a partilhar detalhes de suas pesquisas de laboratório com os colegas.

"Sua condução dos trabalhos no laboratório impede que haja qualquer espécie de competição", afirma Craig Ceol, uma estudante de biologia que trabalha no laboratório de Horvitz desde 1996. "Cada um tem o seu projeto e cuida dele com o maior carinho, e se há alguma disputa, ela é resolvida logo no início".

Ao longo de seus 24 no MIT, Horvitz ampliou constantemente seus horizontes, e jamais quis enclausurar-se em seu laboratório. Ele dá cursos sobre genética e organiza seminário para alunos de graduação do curso de biologia.

Sua paixão legendária tem caráter profissional e pessoal: seu pai morreu do mal de Lou Gehrig, conhecido também como esclerose lateral amiotrófica, e Horvitz ajudou os pesquisadores do Hospital Geral de Massachusetts a selecionar pacientes para estudos sobre tratamento.

O diretor do Instituto McGovern, Philip Sharp, admira há muito tempo a precisão mental de Horvitz. Ele recorda que Horvitz integrou o comitê que supervisionava a construção do prédio 68, que abrigaria os laboratórios de biologia. Quando o comitê selecionava um arquiteto, um colega defendeu ardorosamente o nome de um candidato que não era o escolhido por Horvitz.

O anotador compulsivo Horvitz abriu seus cadernos e refutou todos os argumentos apresentados por seu colega.

"Ele é uma das pessoas mais intensas que conheço", afirmou Sharp.

Esta intensidade se associa a uma capacidade de concretizar idéias e que garante a Horvitz um diferencial que o destaca de seus colegas pesquisadores, segundo afirma Kirschner, que conhece Horvitz desde a década de 70.

"Ele é uma pessoa que sempre teve o perfil de um candidato ao Nobel", afirmou Kirschner. "Ele não é apenas uma pessoa que estava no lugar certo e na hora certa, e que de repente se deparou com algo interessante".

Tradução: André Medina Carone

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