Kuaitianos contrariam mundo árabe e aprovam ataque dos EUA contra o Iraque

Anthony Shadid
The Boston Globe
Em Al Kuait (Kuait)

Em meio ao debate que toma conta do mundo árabe quanto à possibilidade de um ataque ao Iraque, uma nação está absolutamente certa do que quer.

O regime de Saddam "merece", declara um legislador islâmico no Kuait.

Sentimento anti-americano?

"Os Estados Unidos passarão à história como os salvadores do mundo árabe", afirma um proeminente professor kuaitiano.

Um conselho ao presidente Bush?

"Você precisa finalizar o trabalho que não foi terminado pelo seu pai", recomenda um ex-ministro kuaitiano do petróleo.

Esqueçam os tambores da guerra. No Kuait, um país ocupado pelo Iraque em 1990 e liberado por tropas norte-americanas em 1991, há uma grande torcida pelo ataque dos Estados Unidos contra o Iraque.

As opiniões neste pequeno, vulnerável e muito rico país do Golfo Pérsico contrastam drasticamente com os sentimentos prevalecentes no resto do mundo árabe. Enquanto que muitos árabes suspeitem profundamente das intenções norte-americanas e estejam furiosos com o apoio dos Estados Unidos a Israel, os kuaitianos ainda vêem os ianques como os seus defensores, e não escondem essa posição. Ao contrário dos outros países árabes, eles põe a culpa em Saddam Hussein -- e não nos Estados Unidos -- pela penúria causadas devido às sanções das Nações Unidas sobre o Iraque. E, embora algumas pessoas compartilhem as preocupações dos vizinhos árabes quanto às possíveis mortes entre a população iraquiana, elas se preocupam ainda mais com as ameaças representadas por um Iraque beligerante.

"A população do restante do mundo árabe fala sobre a política insatisfatória de Bush para a Palestina e Afeganistão, e sobre a sua cruzada contra o islamismo", diz Abdulla Bishara, analista kuaitiano e ex-secretário geral do Conselho de Cooperação do Golfo, uma aliança de países do Golfo Pérsico. "Já a população do Kuait faz vistas grossas a essas questões. Para ela, a prioridade é colocar um fim à paralisia que Saddam é capaz de infligir sobre a política regional".

Mas, até mesmo no Kuait, a linguagem diplomática ainda é a regra. O ministro da Defesa, Sheikh Jaber Mubarak al-Sabah, fazendo coro com outra autoridades kuaitianas, afirma que o país não se opõe a um ataque contra o vizinho Iraque, ou mesmo à utilização do seu território como base para a campanha, contanto que tudo isso seja feito com a aprovação do Conselho de Segurança da ONU. Essa é uma condição que Estados árabes, como o Egito, a Jordânia e a Arábia Saudita -- todos eles aliados dos Estados Unidos, e todos céticos, na melhor das hipóteses, quanto a um ataque norte-americano -- têm exigido energicamente que seja atendida.

Mas algumas autoridades, diplomatas e analistas iraquianos insistem em dizer que o Kuait vai apoiar os Estados Unidos com ou sem uma resolução da ONU.

"Tal resolução não será uma exigência", afirma Shafeeq Ghabra, ex-diplomata e diretor do Centro de Estudos Futuros e Estratégicos do Kuait.

Na verdade, as autoridades kuaitianas parecem mais preocupadas com a possibilidade de uma solução diplomática, temendo que a sobrevivência de Hussein só vá fortalecê-lo e aumentar o número de indivíduos em um frustrado mundo árabe que elogia o desafio representado pelo líder iraquiano. Alguns kuaitianos chegam a sugerir que as ameaças dos Estados Unidos de atacar e o visível acúmulo de poderio militar norte-americano no Kuait, em Catar e em Bahrain são apenas gestos diplomáticos enérgicos que tornarão a desapontá-los. Eles se lembram de impasses anteriores, em 1994 e 1998, quando forças norte-americanas retornaram à região, somente para ver Hussein emergir dotado -- segundo os kuaitianos -- de mais força.

"Após todo esse falatório, se não acontecer nada, ninguém mais vai confiar no governo dos Estados Unidos. Washington terá dito uma coisa e feito algo completamente diferente", afirma Sami Al Nesef, analista que possui vínculos com o governo do Kuait.

Doze anos depois, há poucas cicatrizes visíveis da ocupação iraquiana do Kuait, que durou sete meses. Embora o país não tenha a mesma influência de alguns dos grandes Estados do golfo, como a Arábia Saudita, os seus 2,2 milhões de habitantes -- dois terços dos quais originários de outros países -- ainda contam com a sexta maior renda per capita do mundo. Ruas decoradas e ladeadas por palmeiras vivem agitadas com o tráfego de automóveis, apesar do temor quanto a guerra. A vida política é vibrante, estimulada pelo parlamento mais vigoroso da região, cuja influência chega às vezes a eclipsar aquela da família real.

Mas o ressentimento quanto à ocupação ainda persiste. Fotografias no saguão do hotel Sheraton Kuait mostram com detalhes a destruição causada pelo conflito, e pôsteres nos ministérios expressam a gratidão para com a coalizão liderada pelos Estados Unidos, que liberou o Kuait no dia 26 de fevereiro de 1991. Uma questão delicada para os kuaitianos são os cerca de 600 prisioneiros que, segundo o governo do Kuait, ainda estariam encarcerados no Iraque, embora o governo iraquiano negue ter qualquer conhecimento do paradeiro dessa gente.

O ressentimento dos kuaitianos para com outros árabes, e especialmente os palestinos, é bem maior. Eles se ressentem do fato de essas pessoas terem manifestado apoio a Hussein em cidades árabes, e abominam os palestinos devido ao apoio de Iasser Arafat a Hussein, durante a crise na região.

E, atualmente, muitos kuaitianos não temem adotar uma atitude contrária a dos seus vizinhos, o que enfurece muita gente no mundo árabe.

No mês passado, 130 kuaitianos -- entre artistas, intelectuais, parlamentares e acadêmicos -- organizaram um abaixo-assinado pedindo o fim do regime de Saddam Hussein e afirmando que o povo iraquiano merece algo melhor. Primeiramente, eles tentaram publicar o documento em dois jornais internacionais de língua árabe -- o Al Hayat e o Asharq Al Awsat. Ambos o rejeitaram. A seguir, ofereceram o abaixo-assinado a outros jornais, do Marrocos aos Emirados Árabes Unidos. Somente um jornal libanês concordou em publicá-lo, cobrando, no entanto, US$ 100 mil (cerca de R$ 370 mil) para fazê-lo. A quantia era cinco vezes maior do que aquela que o grupo pretendia gastar. Irritados, os membros do movimento recusaram o negócio.

Uma das pessoas que assinaram o documento, Ahmed Bishara, chefe do Movimento Democrático Nacional, recebe bem as críticas ao Kuait. "Haverá uma enorme campanha na imprensa árabe contra nós -- afirmando que somos lacaios dos norte-americanos -- mas estamos acostumados a isso", afirma.

Os islamitas, que representam o bloco mais decisivo no parlamento kuaitiano, estão menos entusiasmados com as intenções dos Estados Unidos, enfurecidos com a matança de palestinos e com medo de que os Estados Unidos desejem assumir o controle sobre o petróleo da região. Mas, embora a filial kuaitiana da poderosa Irmandade Islâmica, com sede no Egito, se oponha a um ataque -- o que, segundo os críticos, reflete a pressão da liderança da organização no exterior -- outros islamitas no Kuait não se opuseram publicamente à campanha militar, e ninguém defende Hussein. Vários islamitas falam abertamente sobre o apoio à presença de tropas norte-americanas no Kuait.

E, mesmo entre os islamitas, há algumas vozes que defendem publicamente um ataque.

Khaled al-Udwa, membro islamita do parlamento, solicitou ao governo do Kuait que não só apóie a campanha, mas que também contribua financeiramente e materialmente para ela, uma demanda expressa na semana passada por outros membros do parlamento.

"Não se pode confiar nesse regime, nem acreditar nas suas palavras", afirmou al-Udwa.

Por ora, as maiores preocupações no Kuait dizem respeito à possibilidade de que refugiados cruzem a fronteira do país e à ameaça de um ataque com armas químicas ou biológicas. Esta semana, o governo kuaitiano divulgou instruções para uma resposta a um ataque químico. Foi divulgada uma lista de centros de defesa e abrigos em seis distritos, assim como locais onde populações refugiadas poderão receber cupons de alimentação.

Na semana passada, militares norte-americanos, alemães e tchecos realizaram um exercício de treinamento de dois dias, a fim de ajudar o Kuait a responder a um ataque, e pelo menos 10 baterias de mísseis Patriot foram instaladas no país. Cerca de 10 mil soldados norte-americanos estão estacionados ao norte da capital, em Camp Doha, para onde os Estados Unidos enviaram tanques, veículos blindados e artilharia.

Alguns kuaitianos estocaram máscaras contra gases, alimentos e até mesmo barracas de proteção. Mas, segundo eles, a ansiedade não vai além desse nível.

"Estamos acostumados a esse tipo de coisa", afirma Adel Bahman, um kuaitiano de 34 anos, sentado com amigos em uma Pizza Hut. "Tanto eu quanto a maior parte das pessoas já nos acostumamos".

Tradução: Danilo Fonseca

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