Opinião: O Iraque não é a única ameaça aos Estados Unidos

H.D.S. Greenway
The Boston Globe

O desarmamento do Iraque é algo que interessa profundamente aos Estados Unidos e à ONU, mas, à medida que este país flexiona os seus músculos para ir à guerra, há vários outras situações perigosas no mundo que, caso não sejam abordadas, vão infectar a nossa saúde nacional. Aqui estão três delas, que não podem ser ignoradas:

- "Não muito diferente do vírus da Aids, se modificando e passando por mutações à medida que resiste ao sistema imunológico". É assim que Jean Luis Bruguiere, especialista francês em contra-terrorismo, definiu as divisões e mutações da Al Qaeda, ao ser entrevistado pelo Boston Globe. A Al Qaeda pode estar debilitada, mas está longe de ter sido exterminada. Ela não conta com um país para atuar com exclusividade, como foi o caso com o Afeganistão, mas a organização se dividiu e se esquivou para os subterrâneos da clandestinidade em dezenas de outros países.

Vários especialistas em terrorismo há muito vêem a Al Qaeda como um corpo maligno amorfo. No topo está a liderança, sob a direção pessoal de Osama Bin Laden e do seu mentor e estrategista, Ayman Al Zawahiri, que ainda podem estar vivos e em liberdade.

Em um patamar inferior há um grupo semi-informal de associados que podem operar por conta própria, sabendo que, o que quer que façam, será justificado pela rubrica da Al Qaeda, de forma que não precisam de muitos contatos com a liderança. Logo abaixo há os exércitos de candidatos amadores a terroristas e imitadores que contaram com a inspiração e com um exemplo do que pode ser feito para nos atingir. Conforme pudemos ver, esses fanáticos poder ser muçulmanos de segunda ou terceira geração, nascidos no Ocidente, ou mesmo os convertidos do cristianismo para o islamismo, os quais a Al Qaeda denomina de "mouros brancos".

A luta prolongada e incansável contra a Al Qaeda vai exigir um rígido trabalho policial e o compartilhamento de inteligência. O meu medo é que esse esforço possa ser comprometido, caso voltemos demasiadamente a atenção para outro ponto.

- Assim como um paciente na mesa de operação, de quem se removeu um tumor, mas que ainda aguarda ser costurado, estando vulnerável a uma infecção, da mesma forma o Afeganistão continua extremamente vulnerável. A nossa tarefa naquele país foi feita apenas pela metade. As forças de segurança estrangeiras, das quais o país precisa e que deseja desesperadamente, inexplicavelmente não se deslocam para além da capital.

A autoridade do governo central é tão tênue no interior do país que a violência e a corrupção estão se disseminando em nessas áreas. Foram os governos dos comandantes tribais que fizeram com que a maioria dos afegãos recebessem bem o Taleban, quando o grupo se apoderou do poder, e, atualmente, são os mesmos governos desses comandantes que ameaçam o Afeganistão.

Um ano após o início da guerra no Afeganistão, somente uma fração das verbas prometidas pela comunidade internacional para reconstruir o país realmente se materializou. Hamid Karzai, o líder escolhido pelos norte-americanos, expressou recentemente o seu temor de que o Iraque possa monopolizar a atenção, a energia e a assistência da qual o seu país necessita. O seu temor é justificado.

- Naquilo que se transformou em uma situação crônica, o conflito entre israelenses e palestinos continua gerando medo, ressentimentos e aumentado a austeridade política para os israelenses, e estimulando o desespero, o ódio e a criação de novas gerações de mártires entre os palestinos. A Anistia internacional anunciou que tanto israelenses quanto palestinos estão massacrando crianças impunemente, e a Comissão de Direitos das Crianças das Nações Unidas disse que ambos os lados são culpados de cometer "atos de terror".

A guerra entre palestinos e israelenses e todos os horrores a ela associados são de extrema importância para os Estados Unidos, devido à ressonância que gera em todo o mundo árabe e em grande parte do mundo muçulmano. A Al Qaeda pode até não dar bola para os palestinos, mas o conflito pode render, como nenhum outro, recrutas e simpatia para a rede extremista.

Está evidente que os palestinos e os israelenses são incapazes de romper com a sua "dança macabra" por si próprios, e é imperdoável que os Estados Unidos se recusem a enfrentar o problema. Em longo prazo, o fim da ocupação israelense é a única maneira de se colocar um fim ao conflito, e a única forma de fazer de Israel um lugar mais seguro.

Membros do governo Bush têm dito que os Estados Unidos são capazes de lidar com mais de um conflito simultaneamente, não havendo, portanto, a possibilidade de que a guerra no Afeganistão e aquela contra a Al Qaeda sejam prejudicadas. Mas o problema entre israelenses e palestinos já foi varrido para debaixo do tapete do Salão Oval da Casa Branca, na ânsia de se atacar o Iraque. E eu fico pensando em James Baker, o ex-secretário de Estado, que admitiu que a atenção do governo do pai do atual presidente se concentrou tanto sobre o Iraque que ninguém deu à Bósnia a atenção que se fazia necessária.

A guerra contra o Iraque pode ser inevitável, e até mesmo necessária, mas eu adoraria ouvir o presidente falar mais a respeito desses outros assuntos, à medida que procura justificar um ataque contra Saddam Hussein.

Tradução: Danilo Fonseca

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