Editorial: A escolha dos brasileiros

Editorial
The Boston Globe

A folgada vitória do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva, conhecido apenas como Lula pelos brasileiros, será um teste para a seriedade da retórica do presidente Bush sobre democracia e livre comércio.

Não deve pairar qualquer dúvida quanto aos méritos democráticos da eleição brasileira, realizada em dois turnos. Na verdade, graças ao voto computadorizado, baseado em procedimentos acessíveis a qualquer pessoa que já tenha utilizado um caixa eletrônico, a eleição brasileira não apenas foi apurada em poucas horas como foi evidentemente mais livre, justa e moderna do que o descalabro eleitoral constatado na Flórida em 2000.

Além disso, Lula deixou claro aos brasileiros e ao público internacional que não pretende suspender o pagamento da dívida pública de US$ 260 milhões, respeitará os termos de um acordo com o Fundo Monetário Interncional que garante ao país um crédito de US$ 30,4 bilhões, e colocará em prática uma política fiscal prudente.

Apesar de tudo, a eleição de Lula foi interpretada como uma má notícia por Wall Street e pelo mercado de títulos. Sua manifesta intenção de incluir a Cuba de Fidel Castro na Área de Livre Comércio das Américas (Alca) que o presidente Bush pretende criar até 2005 causou consternação ao governo americano. E nada poderia contradizer mais os princípios conservadores da equipe de Bush do que a aura esquerdista do ex-líder sindical Lula, cuja prioridade nacional será a promoção de um programa batizado por ele como "Fome Zero". Com uma verba anual de US$ 1,6 bilhão, este programa investiria em um incremento da produção agrícola que possa alimentar os 10 milhões de pessoas que que vivem em condições extremas de miséria no Brasil, que possui uma população de 175 milhões.

Para o bem da posição dos Estados Unidos e de seus interesses de longo prazo no hemisfério, seria melhor se Bush acolhesse o veredito democrático brasileiro e cooperasse largamente com Lula.

Em termos práticos, o próximo presidente brasileiro enfrentará graves restrições para governar. O Partido dos Trabalhadores, ao qual pertence Lula, conquistou 91 entre as 513 vagas da Câmara dos Deputados. Portanto, ele comandará uma coalizão governista moderada e diversificada. Ele necessitará, como já reconheceu abertamente, da confiança dos brasileiros, dos investidores estrangeiros e das instituições financeiras. Por ser o Brasil a segunda maior economia do hemisfério ocidental, Washington tem grande interesse em garantir que a democracia brasileira avance e que o programa de reformas econômicas de Lula possa afastar o Brasil dos desastres de uma fuga de capital ou de uma moratória.

Para este fim, Bush deveria anular os volumosos subsídios protecionistas inseridos na legislação agrícola que foi aprovada neste primeiro semestre. Ele deve ainda reconhecer que o modelo de um livre comércio global incapaz de reduzir a pobreza, como esta que aflige parte dos brasileiros, ao final sucumbe ao anseio manifestado democraticamente pelos pobres e pelos famintos.

Tradução: André Medina Carone

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