A Argentina resiste em um atoleiro econômico e político

Mike Williams
The Boston Globe
Em Buenos Aires (Argentina)

Poucos meses atrás, Francisca Centurion sentia pena dos mendigos que via revirando os sacos de lixo em busca de comida e papelão reciclável. Ela os via enquanto andava de ônibus a caminho do trabalho como empregada de uma família rica desta cidade cosmopolita.

Agora Francisca, 55 anos, está nas ruas junto com os mendigos, passando suas noites nas sombras dos edifícios prósperos, reunindo fardos de papelão de 36 quilos que ela carrega em um carrinho de compras quebrado. Antes recebendo um salário mensal de 800 pesos -- que até um ano atrás equivalia a US$ 800 -- ela agora luta para receber algo entre 5 e 10 pesos por noite, que com a desvalorização da moeda equivalem a cerca de US$ 2 a US$ 3.

"É incrível que em um país tão rico eu tenha que recolher papelão para sobreviver", disse a mãe de dois filhos. "Mas eu perdi meu emprego e meu marido me deixou, assim se eu não fizer isto, nós não teremos o que comer. A pior parte é que agora não há futuro. Eu quero que meus filhos cursem a faculdade para que suas vidas sejam melhores. Mas agora não sei de onde virá o dinheiro".

Antes um oásis de prosperidade da classe média em um continente mais conhecido pela pobreza e pelas disparidades de renda, a Argentina está atolada em um desastre político e econômico que muitos aqui comparam à Grande Depressão dos Estados Unidos.

A crise iniciou em dezembro passado, quando a Argentina deu o calote em grande parte de sua dívida externa de US$ 141 bilhões, uma ação que provocou uma corrida aos bancos por parte dos correntistas que queriam sacar seus depósitos. O governo respondeu com um congelamento parcial dos saques, seguido por uma decisão em janeiro de desvincular o peso e o dólar americano, encerrando uma década de paridade de um por um.

Do dia para noite, milhões viram o valor de suas economias se desvalorizar em até 75%, provocando enormes protestos de rua que terminaram em confrontos sangrentos com a polícia, que resultaram em 30 mortos. Operários de fábricas, técnicos e gerentes de classe média foram demitidos em massa, enquanto donos de lojas viram suas vendas despencarem à medida que os preços dos produtos básicos decolavam.

O desemprego oficial saltou para mais de 20%, enquanto a renda per capita mergulhou de cerca de US$ 9 mil em 1999 para atuais US$ 2.500. Os especialistas prevêem que a economia sofrerá uma contração de 16% neste ano.

A crise rapidamente se espalhou para o reino político, como o palácio presidencial se transformando em uma porta giratória por onde passaram cinco líderes diferentes em um espaço de poucos meses. O atual presidente provisório, Eduardo Duhalde, convocou eleições para março próximo, mas deseja que elas ocorram mais cedo caso a Justiça permita, pois seu governo é perseguido por rumores de renúncia e falta de confiança pública.

Nos últimos meses, os protestos sangrentos cederam enquanto o governo Duhalde lutava por meio de negociações com o Fundo Monetário Internacional por um plano de renegociação da dívida, que poderia começar a restaurar a confiança. Enquanto isso, as contas bancárias foram parcialmente descongeladas em 1º de outubro, e as autoridades do governo suspiraram de alívio pelo fato de não ter ocorrido nenhuma nova corrida aos bancos.

Mas à medida que o colapso se aproxima de seu primeiro aniversário -- na verdade, a economia local está atolada em recessão há mais de quatro anos -- a maioria dos argentinos está apenas lutando para sobreviver, ainda entorpecida pelos eventos inacreditáveis do ano passado.

"Em meu pior pesadelo eu nunca sonhei que a Argentina poderia chegar a isto", disse Alejandro Prince, um consultor de economia que assistiu horrorizado sua antes próspera firma encolher 90%. "O pior é que após tantos meses disto nós nem mesmo produzimos uma vacina para a doença. Não há novos líderes, não há idéias novas, não há novos planos".

Prince citou estatísticas que mostram o quão duramente a classe média argentina foi atingida. Um especialista em consultoria de alta tecnologia, ele disse que a vendas de computadores pessoais despencaram de 880 mil em 2000 para cerca de 100 mil atualmente.

"Ainda há algumas vendas corporativas, mas o mercado doméstico evaporou", disse ele. "O problema é a moeda. Um bom PC ainda custa cerca de US$ 1.200, mas as pessoas agora recebem em pesos. Elas não podem comprar uma máquina que pode custar grande parte de um ano de salário".

O sentimento de choque e desesperança está por toda parte nas ruas de Buenos Aires, uma cidade conhecida como a "Paris da América do Sul" por sua arquitetura francesa, rica vida cultural, cafés de rua pitorescos e ambiente europeu.

As fachadas antes impecáveis dos bancos internacionais agora estão cobertas por feias placas de metal que visam proteger as janelas dos manifestantes, enquanto as paredes externas estão cobertas de pichações que chamam os bancos de ladrões e saqueadores.

A construção de vários novos edifícios foi suspensa, enquanto outras torres de vidro e aço permanecem em grande parte desocupadas. Os valores dos imóveis e dos aluguéis despencaram.

Enquanto isso, famílias recém empobrecidas perambulam pelas ruas à noite, revirando latas de lixo em busca de restos de comida e materiais recicláveis, enquanto a polícia recolhe os sem-teto que tentam acampar nos parques e praças da cidade.

Milhares de pessoas sem renda sobrevivem indo a clubes de permuta, trocando roupas velhas ou bens de família por comida e outros produtos de primeira necessidade.

Elisabeth Woll-Juve que antes ganhava a vida como jornalista especializada em questões que afetavam os idosos, hoje sobrevive com o que consegue obter com a troca de pegadores de panela, guardanapos e panos de mesa que ela costura à mão.

"Há advogados, dentistas e médicos oferecendo seus serviços por comida", disse ela. "Nós estamos vivendo como minha mãe vivia durante a Segunda Guerra Mundial, fazendo qualquer coisa para sobreviver".

Ninguém sabe por quanto tempo a crise durará, ou quem poderá despontar como líder capaz de salvar o país. O sistema político está um caos, com os partidos tradicionais em desordem e em desgraça. Dezenas de novos partidos surgiram --mais de 80 somente em Buenos Aires. Algumas pessoas acreditam que o ex-presidente Carlos Menem, que deixou o governo sob uma chuva de acusações de corrupção, poderá vencer a eleição devido ao seu retrospecto, apesar de manchado.

"Nós estamos na pior crise dos últimos 100 anos", disse Graciela Romer, uma analista de pesquisas. "Nossa estrutura partidária tradicional foi arrasada e nós estamos passando por um processo de mudanças profundas. A maioria das pessoas não consegue ver a luz no fim do túnel porque não tem mais nenhuma fé em nossos políticos e nossas instituições. Nós não somos mais o país que éramos poucos meses atrás".


Tradução: George El Khouri Andolfato

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