O sonho impalpável de uma Europa unificada

H.D.S. Greenway
The Boston Globe
Em Paris (França)

A Europa unificada é um sonho que se esquiva desta turbulenta região do planeta há mais de dois mil anos. Os romanos fizeram grandes avanços, mas sua ascendência jamais se impôs o bastante nas florestas do norte ou nas planícies do leste, e com o início de seu declínio os povos destas planícies e florestas -- hunos, góticos, vândalos, visigodos e congêneres -- lançaram por terra tudo que Roma instituíra.

Dos romanos sobrou apenas uma fraturada herança lingüística e, nas palavras do escritor britânico Patrick Leigh-Fermor, "muros estupendos... estátuas fraturadas de deuses e imperadores... e mosaicos em pisos quebradiços que recobrem o chão de antigas salas de jantar".

Charlemagne, Napoleão e mesmo Hitler tiveram sua chance, mas nenhum deles foi capaz de instituir algo tão duradouro quanto a Pax Romana.

Desde a Segunda Guerra Mundial uma nova unidade européia luta para nascer -- desta feita não pela espada, mas pelo consenso; comandada não por imperadores ou ditadores, mas por burocratas sem face postados em Bruxelas. Ela surgiu com pequenas medidas: a união econômica dos países da Benelux, os seis membros do Mercado Comum, até os atuais 15 membros da União Européia, entre os quais figuram as principais democracias da Europa Ocidental além de Escandinávia e Grécia. Exceção feita a Inglaterra e Suécia, todos adotaram uma moeda comum.

No próximo mês, durante um encontro de cúpula em Copenhague, a União Européia irá contemplar sua maior e mais ousada expansão: estenderá convites para a adesão em 2004 a um grande número de antigos países comunistas do Leste Europeu, entre eles os países bálticos, Eslováquia, República Checa, Hungria, Polônia e Eslovênia, além da pequenina Malta e do território grego da Ilha de Chipre. Romênia e Bulgária ainda deverão aguardar, e o ingresso do restante da antiga Iugoslávia e da Albânia é ainda mais remoto. A programada expansão com dez novos membros, porém, acrescentaria 75 milhões à população da União Européia, que chegaria a um total de 450 milhões.

Ainda não é certo que todos os convidados farão suas inscrições. No Leste Europeu, muitos temem que os países ricos do Ocidente queiram arrancar suas peles e impor condições desfavoráveis. Os possíveis membros do futuro realizarão referendos cujo resultado poderá ser contrário ao ingresso na União Européia.

Na Europa Ocidental teme-se que os novos membros venham a exportar sua mão-de-obra barata e consumir uma parcela elevada dos recursos comuns. Os controvertidos subsídios agrícolas consomem metade do orçamento da UE, e a Polônia possui mais agricultores do que França e Alemanha reunidas. Os franceses recentemente se aliaram aos alemães para adiar a discussão sobre a reforma dos subsídios agrícolas por mais alguns anos, mas em algum momento a Europa irá convencer-se da necessidade de roubar-lhes esta muleta.

O acolhimento de antigos países comunistas, muitos deles atolados na corrupção, já seria difícil ainda que os atuais países da UE estivessem unidos. Entretanto, há graves desacordos e diferenças. Os franceses e os britânicos se olham com profunda desconfiança, e suas diferenças em relação à questão iraquiana são apenas um dos exemplos. O fundamento da política externa britânica consiste em ser o principal aliado americano, enquanto os franceses... bem, bastaria dizer que em uma charge publicada pelo "Le Monde" o presidente Bush dizia: "Ou vocês estão conosco ou com os franceses". E durante a tragédia da Bósnia, os gregos apoiaram Milosevic por debaixo dos panos enquanto o restante da Europa tentava controlar suas ações.

A máquina franco-alemã que impulsionou o Mercado Comum e agora impulsiona a União Européia talvez não permaneça nos trilhos por muito tempo. A França sempre viu a si própria como o jóquei elegante que monta o cavalo alemão, rumo a uma Europa que teria feições francesas. Nos primeiros anos do pós-guerra os alemães aceitaram este papel, mas agora querem impor seu próprio programa.

Os países do Leste Europeu são em sua maioria pró-americanos, e talvez não partilhem do sonho francês da construção de uma União Européia que representasse uma alternativa e uma oposição ao poder e à influência dos Estados Unidos. Além disso, em um conselho formado por 25 países, nenhum entre eles contará com a mesma influência antes exercida em um conselho de 15. A dissolução da coesão será o preço do crescimento.

A mais destacada ausência da nova lista é a da Turquia, que anseia por seu ingresso mas não recebeu nem mesmo um prazo para o início das negociações. Integrantes da UE afirmam que a Turquia não é suficientemente democrática, que enfrenta problemas com direitos humanos, ou que sua economia não está devidamente arranjada. Todos os argumentos são verdadeiros em certa medida, mas a Turquia está implantando reformas efetivas.

A razão verdadeira e oculta é que a Turquia traria um grande número de muçulmanos para uma união predominantemente cristã. Mas como as populações muçulmanas já ultrapassam 10% da população da UE, a idéia de uma Europa unida sob a bandeira do cristianismo tornou-se ligeiramente ultrapassada.

A Turquia integra a Otan, que também se expande rumo ao leste; mas a idéia de vir a lutar ou morrer em defesa da Europa, e mesmo assim não integrá-la, parece não incomodar aos turcos. A União Européia não chegará ao seu potencial pleno antes que a Turquia tenha a chance de ingressar no bloco.

Tradução: André Medina Carone

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