Qual a verdadeira identidade de Steven Soderbergh

Ty Burr
The Boston Globe

Há uma cena em "Schizopolis" (1996), o sexto e menos conhecido filme de Steven Soderbergh, que resume a carreira deste diretor de forma surreal. Escalando a si mesmo como Fletcher Munson, um funcionário de escritório estilo Dilbert contratado pelo líder de um culto religioso, Soderbergh desabafa ficando diante do espelho do banheiro fazendo caretas para si mesmo. Boca de albatroz, poses heróicas, caretas de nerd sem pescoço --todo o catálogo. É uma seqüência bizarramente hilária, embaraçosa e corajosa em medidas iguais, e você não tem idéia do que ele fará em seguida.

O mesmo pode ser dito sobre Soderbergh, a figura pública. Ou figuras públicas --afinal, há tantas. Começando com sua chegada heróica, resplandecente, aos 26 anos com "Sexo, Mentiras e Videoteipe" de 1989, Soderbergh é visto sob uma nova luz à cada novo filme. Seus "personagens" podem ser enumerados como estações na linha do metrô: gênio neófito, tropeçador de segundo filme, artista de bom gosto, diretor destrambelhado de filme B, vanguardista convicto, mestre do filme criminal, herdeiro de Godard, rei dos blockbusters de Hollywood, deidade vencedora do Oscar de direção, presunçoso e agora, com o lançamento de "Solaris", sua refilmagem do clássico cult de 1972 de Andrei Tarkovsky, visionário romântico.

Qual destes é o verdadeiro Steven Soderbergh? Todos e nenhum, e este pode ser um motivo para o diretor parecer ter aprendido a navegar os altos e baixos da percepção dos críticos melhor do que qualquer outro na indústria cinematográfica.

Mas alguns de nós têm se preocupado com ele. No final dos anos 1990, o diretor saiu de um exílio auto-imposto no deserto independente --a era do alegremente obscuro "Schizopolis"-- para reclamar sua coroa de Hollywood. "Irresistível Paixão" (1998), um entretenimento estrelado por George Clooney e Jennifer Lopez tão serenamente confiante que figurou na lista de melhores filmes do ano de vários críticos, colocou Soderbergh novamente em evidência, e o lançamento no ano seguinte de seu brilhante e fragmentado melodrama de vingança, "O Estranho", consolidou seu ganhos artísticos. Então, um momento ao sol: "Erin Brockovich: Uma Mulher de Talento" e "Traffic" saíram em 2000, fizeram rios de dinheiro, conquistaram aclamação da crítica, foram ambos indicados para prêmios de melhor filme e direção (pela primeira vez na história), e finalmente deram a Soderbergh seu homem dourado, por "Traffic".

Quando ele aceitou o prêmio, ele já estava trabalhando em seu filme seguinte, a refilmagem de "Onze Homens e um Segredo", estrelado por Clooney, Brad Pitt, Matt Damon e Julia Roberts. O filme era agradável, seguro e esquecível --característica que nunca valeu para um filme de Soderbergh. Apesar de ganhar pontos por melhorar em relação ao original (a versão dos anos 60 com o Rat Pack é uma festa divertida mas um filme de assalto ruim), era possível sentir que o profissionalismo do diretor estava minando o melhor de suas idiossincrasias. Há muitos profissionais em Hollywood, mas os excêntricos são sui generis e por isso mesmo mais valiosos.

"Full Frontal", lançado há poucos meses (nos Estados Unidos), balançou o pêndulo na outra direção e mostrou Soderbergh se esforçando na busca de uma ousadia que ele conseguiria naturalmente há poucos anos. "Full Frontal" é formalmente interessante --as cenas "reais" do filme foram filmadas em vídeo digital "granulado", enquanto o filme dentro do filme foi rodado em filme colorido de 35mm-- mas é uma série de caixas chinesas que se desfazem no ar, e não prova nada além de que pode ser impossível colocar Julia Roberts em um ambiente experimental sem parecer iludido ou presunçoso.

Pior, ele exibiu uma nova insularidade na sua visão de mundo de diretor. "sexo, mentiras e videoteipe", "O Inventor de Ilusões" de 1993, "Schizopolis" e até mesmo "O Estranho" foram feitos por uma pessoa de fora da indústria cinematográfica, uma com uma compreensão do que atrai e incomoda as pessoas de qualquer outra parte. "Full Frontal" parece mais o trabalho de um homem que vê a vida através do visor da câmera. Ele faz parte do gênero "próprio umbigo", que ocasionalmente vale a pena, que inclui "Time Code" de Mike Figgis e "Aniversário de Casamento" de Jennifer Jason Leigh e Alan Cumming, que nos pede para encontrar ressonância alegórica nos problemas dos ricos astros e diretores de Hollywood.

Segundo se comenta, "Full Frontal" foi divertido de ser filmado, e este deve ter sido seu propósito; Soderbergh costuma fazer uma pausa de vez em quando para uma limpeza interna. "Schizopolis" foi uma destas desopilações de baixo orçamento --ele foi feito depois de "Obsessão", de 1995, uma adaptação obscura do film noir "Baixeza" de 1949, e um filme que o diretor considera como um deprimente ponto baixo de sua carreira.

Voltando para Baton Rouge, Louisiana, onde ele cresceu, Soderbergh concebeu "Schizopolis" como uma meditação livre e freqüentemente muito divertida da linguagem, da política corporativa, do sofrimento romântico e controle de pestes. Há personagens chamados T. Azimuth Schwitters e Homem Número Sem Nome. Há um exterminador que percorre o subúrbio, dormindo com as donas de casa e falando coisas ininteligíveis. Fletcher Munson, o personagem interpretado por Soderbergh, se comunica com sua esposa com frases genéricas ("Saudação genérica!", "Saudação resposta genérica"), e o fato do diretor ter escalado como sua esposa a atriz Betsy Brantley, de quem tinha se divorciado recentemente, oferece uma pista da ansiedade privada com a qual "Schizopolis" lida.

Os filmes que vieram depois de "Schizopolis" marcam o melhor trabalho do diretor, com "O Estranho" como um ponto alto em sua astúcia estrutural e impacto emocional. Assim seria possível esperar que "Full Frontal" --uma limpeza de garganta estética semelhante-- serviria de presságio para outra renovação cinematográfica. E você estaria certo, de certa forma.

"Solaris" consegue em parte reclamar o status de Soderbergh de cineasta natural e de independente mais talentoso de Hollywood. O filme é hipnoticamente lento e estilisticamente mais próximo do filme original de Tarkovsky do que seria prudente comercialmente, mas enquanto o diretor russo usou o romance de ficção científica de Stanislaw Lem para sondar a busca do homem pelo significado espiritual, Soderbergh --um americano e um diretor de Hollywood-- se concentra nas arenas menores do romance e da identidade.

Clooney interpreta um cientista atônito com o reaparecimento de sua esposa morta em uma estação espacial que orbita um estranho planeta: Rheya (Natascha McElhone, em uma atuação rica e complicada) não é uma alucinação, mas uma réplica real, orgânica, criada a partir das próprias memórias do cientista. Os momentos mais poderosamente comoventes de "Solaris" lidam com a conscientização de Rheya de que ela não é nada mais do que um Xerox da mulher que seu amado ama, e não é por acaso que estas cenas minam a obsessão que anima o trabalho mais plenamente sentido de Soderbergh: a incapacidade de homens e mulheres de realmente se ligarem.

Mesmo assim, se ele é um dos poucos diretores de renome no momento, Soderbergh nunca foi autor no sentido clássico. Isto é o que é renovador e confuso a seu respeito. Você pode identificar um filme de Hitchcock pelo seu McGuffin, sua tola loira em perigo, as armadilhas de suspense. Se os personagens falarem diretamente para a câmera, provavelmente é um filme de Jonathan Demme. Mas a única constante de "sexo, mentiras e videoteipe" até "Solaris" é a inteligência esquisita, confiante, ocasionalmente alegre, ocasionalmente fria do próprio cineasta.

"A América não carece de autores", disse o diretor certa vez a um repórter. "Mas há uma carência de filmes feitos por cineastas espertos que sejam lançados em 4 mil salas". Ele tem razão, e em um aspecto crucial, "Solaris" é de fato um filme de Steven Soderbergh: ele deixa você ansioso para saber o que ele fará em seguida, mesmo que você não tenha a menor idéia do que será.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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