Pacifistas americanos viajam a Bagdá

Elizabeth Neuffer

Em Amã (Jordânia)

Para demonstrar seu descontentamento com a defesa de uma guerra feita pelo presidente Bush, alguns americanos participaram de manifestações ou assinaram petições. Mas Sheila Provencher, de Norwood, Massachusetts, adotou uma tática mais veemente de protesto: viajou para o Iraque.

"Considero que estou cumprindo meu dever de americana", afirma Provencher, 30, que saiu de Amã no início da semana rumo a Bagdá ao lado de um grupo de líderes religiosos denominado "Jornada Pacífica ao Iraque". "É grande o número de americanos que se opõe a esta guerra, e eu não creio que o governo nos tenha passado todas as informações. Quero ouvir a verdade do povo iraquiano e levá-la de volta para o meu país".

Enquanto Washington prepara uma ofensiva militar, com destacamentos no Golfo Pérsico, a peregrinação de Provencher parece contradizer frontalmente a opinião pública americana e a política adotada pelos Estados Unidos.

Pesquisas recentes indicam que a maioria dos americanos apóia uma ação militar contra o Iraque, embora o número daqueles que se opõe ao envio de tropas terrestres americanas tenha subido para 37%. E embora nesta semana aconteçam manifestações contra a guerra em 120 cidades americanas, elas não deverão atingir a intensidade e as dimensões das manifestações contra a presença americana no Vietnã.

A viagem de Provencher é, em parte, um ato de desobediência civil. Ela e seus companheiros pacifistas desrespeitarão uma determinação do governo americano, que proíbe visitas de seus cidadãos ao Iraque; os Estados Unidos não mantém relações diplomáticas com Bagdá. Todos os integrantes do grupo que entrará em território iraquiano ficarão sujeitos a 12 anos de detenção e uma multa de US$ 1,25 milhões.

Mas os integrantes deste grupo formado por profissionais liberais, padres e freiras católicas provenientes de Illinois, Massachusetts e Califórnia afirmam que se sentem obrigados a viajar ao Iraque por causa de sua profunda fé na paz e contra a guerra.

"Estou sendo a melhor americana que posso", afirmou Simone Campbell, uma freira de 57 anos, advogada e ativista social. "Creio que se nosso país optar pela guerra, seremos o agressor, e isso nos denigre enquanto nação".

A viagem foi concebida como um gesto de solidariedade e também de protesto, afirmam os ativistas. A declaração conjunta deste grupo atesta: "Visitaremos nossa família no Iraque para ouvir suas história, criar relações entre nossos povos e dar a prova de que se enfrentarmos juntos os nossos medos, surgirão novas oportunidades para a paz".

Terra de muçulmanos sunitas e xiitas, o Iraque possui também uma população de aproximadamente 800 mil católicos, cuja maioria pertence à Igreja Chaldeana.

Estes católicos não serão o primeiro grupo de pacifistas a viajar ao Iraque. Após o cessar-fogo de 1991, ativistas que protestavam contra as sanções econômicas impostas ao Iraque fizeram repetidas viagens ao país para contrabandear produtos que haviam sido banidos. Um grupo formado por britânicos e americanos, chamado "Vozes em Terras Selvagens", enviou 50 equipes ao Iraque desde março de 1996, de acordo com o web site do grupo.

As sanções econômicas impostas pela ONU após a invasão iraquiana do Kuait em 1990 não poderão ser suspensas antes que a ONU se certifique de que o Iraque não possui armas de destruição em massa. Porém os inspetores de armas da ONU, que se retiraram do país após bombardeios aliados, recentemente regressaram para concluir seu trabalho.

Diversos especialistas argumentam que 12 anos de sanções favoreceram a disseminação de doenças, epidemias e da morte no Iraque. Em 1999, a Unicef atestou que a mortalidade infantil havia dobrado na última década. As sanções foram alteradas em duas ocasiões, para permitir a entrada de mais alimentos e auxílio médico.

Um outro grupo, a Rede Canadense pelo Fim das Sanções contra o Iraque, é um outro visitante recorrente. "Espero poder pressionar nosso governo para que não apoiemos os Estados Unidos", afirmou um dos integrantes, Minda Morgan, enquanto aguardava em uma abafada sala de espera da Embaixada Iraquiana para obter seu visto para Bagdá.

A "Jornada Pacífica ao Iraque" é comandada por Rick Mcdowell, de Wendell, Massachusetts, um veterano em campanhas contra as sanções. Ele afirma que se opõe tanto à guerra quanto às sanções.

"Foi o povo iraquiano, e não Saddam, quem pagou por estes últimos 12 anos", afirma McDowell, um homem tranqüilo de 47 anos que viajará ao Iraque pela décima-quarta vez. "E nesta guerra o povo iraquiano irá sofrer novamente".

Vários entre os integrantes da comunidade de iraquianos exilados em Amã não acreditam que os pacifistas americanos verão a verdade nestas viagens. O controle de Saddam sobre o país é tirânico a tal ponto, eles dizem, que a verdade só é dita para além das fronteiras iraquianas.

"Quem conversa com iraquianos fora do país nota que eles estão revoltados contra Saddam Hussein", afirma um exilado iraquiano que falou sob a condição do anonimato para preservar sua segurança. "Mas dentro do Iraque eles não estão revoltados. O medo é tamanho no país que ninguém ousa reclamar, ninguém quer se mexer".

Os ativistas americanos insistem em dizer que possuem liberdade para viajar até Bagdá, embora sejam acompanhados por representantes do governo quando não se encontram na capital iraquiana. Eles argumentam ainda que grande parte de suas informações é obtida junto à comunidade católica do Iraque.

Os ativistas puderam perceber os problemas do Iraque antes mesmo que chegassem a Amã.

Vários integrantes do grupo encontraram uma mulher iraquiana que contou a história de seus dois filhos que moram em Bagdá. "Ela perguntava: quando vocês acham que a guerra irá começar? Quanto tempo tenho ainda para salvar meus filhos?", recorda Mary Trotochaud.

Após o regresso aos Estados Unidos, os ativistas pretendem proferir discursos, pressionar congressistas, promover vigílias e conversar com todas as pessoas que queiram saber o que viram em sua viagem. Eles afirmam que esperam reverter a tendência da opinião pública e impedir uma guerra que sua fé não lhes permite aprovar.

"Voltaremos para contar histórias sobre o Iraque", afirma Kathy Thorton, uma freira de 59 anos que preside a NETWORK, um grupo católico que promove justiça social. "Continuaremos a falar em voz alta e tentaremos impedir a guerra".


Tradução: André Medina Carone

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