Mídia americana permanece sendo mais liberal do que conservadora

Jeff Jacoby


Um vasto acervo de evidências comprova algo que muitos intuitivamente já sabiam: a mídia americana se inclina para a esquerda. As comprovações surgem sob as formas mais diversas: estudos clássicos como "A elite da mídia" (publicado pela primeira vez em 1986) e "Colorindo as notícias" (2001) de William McGowan, revelações feitas por figuras como Bernard Golberg em seu recente best-seller "Inclinações" ("Bias") além de calhamaços de estudos sobre a indústria da mídia e pesquisas de opinião.

Mas alguns liberais sempre argumentaram que a tendência liberal da mídia era uma coisa do passado.

"Este é um dos grandes mitos da política", destacava Dan Rather em 1995. "A maioria dos repórteres não sabem se são republicanos ou democratas, e votam tanto em um partido quanto no outro... devo dizer ainda que não acredito que termos como 'liberal' ou 'conservador' queiram dizer muita coisa atualmente".

Peter Jennings expôs o mesmo argumento no ano passado. "Acho que o mais importante seria afirmar", disse ele a Larry King, "que pertencemos predominantemente ao centro e não possuímos ideologias que figuram em nossa cobertura diária". De modo similar, Geraldo Rivera, para tomar mais um exemplo, argumenta que "quem julga que a mídia possua uma inclinação liberal não ouve ou lê com atenção".

E agora uma afirmação ainda mais : a grande mídia não apenas se afasta da esquerda como na verdade está sendo arrastada para a direita.

"A imprensa política anda maluca ultimamente, e há destacadas figuras institucionais que são, sem qualquer exagero, a encarnação do Partido Republicano", declarou recentemente o ex-vice-presidente Al Gore. "Fox News, The Washington Times, Rush Limbaugh - há vários deles, e alguns destes órgãos são financiados por bilionários ultra-conservadores... a maior parcela da mídia tem custado a identificar o impacto generalizado desta quinta coluna em seu esquadrão -- isto e, a infiltração diária dos pontos de vista republicanos na definição daquilo que é ou deixa de ser objetivo para a mídia como um todo".

A tese de Gore foi corroborada por diversas figuras proeminentes da mídia liberal. Paul Krugman, do The New York Times, considerou-a "obviamente verdadeira". E.J. Dionne, do "Washington Post", avalia que os conservadores obtiveram um "triunfo genuíno" -- "uma mídia pesadamente inclinada a favor de políticas e políticos conservadores". Afinal de contas, ele observa, quando o líder democrata no Senado, Tom Daschle, denunciou publicamente Rush Limbaugh, dois talk-shows da televisão a cabo tomaram a decisão inédita de entrevistar Limbaugh.

Uma coisa a ser dita sobre este "novo" argumento é que ele nada tem de novo. A idéia de que agentes conservadores tenham convertido a mídia em uma caixa de ressonância republicana surgiu há pelo menos seis anos, quando foi transformada em artigo de fé pelo governo Clinton.

Todos recordam o repúdio de Hillary Clinton frente às informações sobre o caso amoroso entre seu marido e Monica Lewinsky e as reações indignadas contra uma "vasta conspiração da direita". O que praticamente todos esqueceram foi a profundidade do pânico do governo Clinton, que se convencera de que os conservadores haviam tomado conta da mídia. Em 1995, este pânico resultou em um relatório de 332 páginas destinados a provar -- não, não estou inventando nada disso -- que políticos republicanos e intelectuais conservadores, alguns "tablóides britânicos", o editorial do "Wall Street Journal" e o "Washington Times" teriam formado um complô, financiado pela fortuna da família Mellon, cujo objetivo seria obter "histórias escandalosas" sobre Bill Clinton "destinadas à grande mídia".

A conspiração, de certa maneira, faz parte da tradição americana. Há quem creia que a CIA tenha levado a cocaína aos bairros pobres de Los Angeles; outros afirmam que Richard Mellon Scaife seja a raiz de todo o mal. Sob um determinado ângulo, não chega a surpreender que Al Gore tenha ressuscitado o mote da era Clinton de que os tentáculos da direita manipulam CNN, Time, The New York Times, USA Today, National Public Radio, NBC, e todos os outros veículos influentes que perfazem a grande mídia nacional. Esta não é a única teoria risível exaltada pelo ex-vice-presidente.

A realidade ensina, porém, que as poucas vozes conservadoras da mídia não devem guardar qualquer esperança de que possam superar a inclinação liberal que predomina no restante da mídia. Esta é uma simples questão de aritmética. Como notou Michael Kelly na última semana, os telespectadores da Fox News representam 3% dos telespectadores do noticiário de ABC-CBS-CNN-NBC-PBS. A circulação do "Washington Times" equivale a um oitavo da vendagem do "Washington Post". No universo da mídia, o poder emana dos números.

O mesmo vale para a inclinação da mídia. A mídia nacional é, em sua maior parcela, de centro-esquerda porque os trabalhadores da mídia nacional são geralmente de centro-esquerda. "Todos sabem disso... há uma forte convicção liberal entre os correspondentes", afirmou Walter Cronkite. Inevitavelmente, esta convicção liberal se faz presente no trabalho de repórteres e editores. E como não poderia? Quando todos em uma redação partilham de convicções liberais, os pontos de vista conservadores podem ser refutados com facilidade. Temos, como resultado, que em diversos temas -- desde a pena de morte até a redução de impostos -- a grande mídia geralmente canta em uníssono. É difícil compreender como Al Gore não saiba escutá-la.



Tradução: André Medina Carone The Boston Globe

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