Mulheres levam ao trabalho o espírito competitivo do esporte

John Powers
The Boston Globe

Não demorou muito para que Kate Delhagen compreendesse até que ponto sua experiência em esportes competitivos poderia ajudá-la no local de trabalho. "Quando isso se tornou claro?", diz Delhagen, diretor da Forrester Research. "Tão logo comecei a trabalhar para terceiros. Tão logo recebi o meu primeiro contracheque".

Como jogadora de basquete e fundista da Universidade de Princeton, Delhagen aprendeu determinação, ganhou poder de decisão, tornou-se mais resistente e aprendeu sobre estabelecer metas e sobre a importância do espírito de equipe. As virtudes dos vestiários esportivos, as mulheres começam a descobrir agora, são as virtudes que dominam no comando das empresas.

"Se eu estivesse à procura de funcionários", diz Delhagen, "a prática de algum esporte de competição certamente não atrapalharia o currículo de um candidato".

Trinta anos depois que uma lei garantiu igualdade sexual nos esportes, nas universidades e nas escolas dos Estados Unidos, os resultados começam a se fazer sentir nos salões dos executivos, onde a grande maioria das mulheres presentes praticava esportes no colégio ou na universidade. Um estudo com mais de 400 executivas de primeiro escalão conduzido pela OppenheimerFunds no começo do ano demonstrou que mais de 80% delas haviam praticado algum esporte organizado depois do primeiro grau.

O que as mulheres descobriram, como já tinha acontecido a gerações e gerações de homens antes delas, é que o esporte lhes oferece uma vantagem competitiva, porque as ajuda a desenvolver capacidades de liderança e disciplina, e a enfrentar o fracasso. Essas capacidades, dizem elas, provaram-se valiosas em momentos decisivos, especialmente para as mulheres que trabalham em profissões dominadas por homens.

"Como mulher, você está basicamente combatendo no mundo dos homens o tempo todo", diz George Hitzke, que foi patinadora artística de competição e agora é vice-presidente da Hologic, que produz sistemas de raios-X. "Você começa muito cedo, e quando chega ao segundo grau, ao ensino superior e ao mundo dos negócios, é a mesma coisa. Para uma mulher, ter sucesso requer mais luta do que para um homem".

Mas as mulheres que faziam esportes vêm descobrindo que seus dias nos campos, quadras e pistas também ajudam em seus currículos. Sejam homens ou mulheres, os atletas sempre são vistos como dotados de um pacote de aptidões e atitudes que os empregadores desejam.

"Quando recebo telefonemas de empresas de recrutamento executivo", diz Amy Patton, que treina o time feminino de lacrosse da Universidade Dartmouth, "eles perguntam quem são os capitães, quem são os líderes".

Assim que começam suas carreiras profissionais, as mulheres que foram atletas descobrem que as experiências compartilhadas facilitam sua entrada em redes de contatos sociais que no passado eram exclusividade masculina.

"Você tem alguma coisa em comum", diz Kate Rogers, gerente regional de vendas da Boston Beer Company e ex-capitã dos times de basquete e futebol da Marian High School, em Framingham, e do Saint Anselm College. "Você começa conversando sobre esportes, e isso abre caminho para um relacionamento".

As mulheres que competiram com e contra homens em equipes esportivas mistas dizem que isso não só as estimulou a ganhar mais habilidade esportiva mas também rompeu as barreiras entre os sexos. Kristine Uttley, gerente de contabilidade corporativa na Watts Industries, uma fábrica de encanamentos e válvulas de aquecimento, jogou em um time misto de basquete na sua escola de segundo grau, em North Andover.

"Os meninos eram sempre maiores, mais fortes e mais atléticos", diz Uttley, que virou titular do time feminino de basquete do Bentley College. "Mas jogar com eles era um benefício. Quanto melhor o concorrente, melhor você será".

Jennifer LaVin, que disputou provas mistas de natação e tênis na Wilbur Cross High, em New Haven, no começo dos anos 80, diz considerar que isso tenha facilitado sua transição rumo a um emprego como analista de ações em Wall Street.

"Você se torna mais duro", diz LaVin, que jogou hóquei sobre o gelo feminino na Universidade da Pensilvânia e agora é diretora sênior de comunicação corporativa na Cubist Pharmaceuticals, em Lexington. "O esporte me ensinou desde cedo como competir contra homens".

Houve época em que LaVin seria alvo de zombarias por seu comportamento. "No passado, ser mulher e atleta era visto com maus olhos", diz Delhagen. "Elas eram açuladas. Hoje em dia,. Há muito mais aceitação". Essa aceitação surgiu com a igualdade entre os sexos e com a prática universal de esportes. O que os meninos fazem, as meninas fazem, hoje em dia.

"A maior diferença é que agora encorajamos filhos e filhas a praticarem esporte, desde cedo", diz Cheryl Gorman, vice-presidente sênior da Brookline Bancorp, que jogava hóquei sobre a grama em Colby. Agora, os pais inscrevem meninas e meninos para esportes, rotineiramente.

"Vinte anos atrás, você sempre perguntava a um menino o que ele jogava, mas nunca a uma menina", relembra Sumru Erkut, diretor associado do Centro Wellesley College de Pesquisa Feminina, que está conduzindo um estudo financiado por verbas federais sobre o efeito do esporte no desenvolvimento feminino. "Hoje, se eu perguntar isso a uma menina de cinco anos, terei resposta".

A diferença entre as mães dos anos 60 e as filhas dos anos 90 é notável. "Comecei a jogar hóquei sobre a grama na idade que minha filha tem agora, e ela já está há seis ou sete anos praticando esportes de equipe", diz Gorman. "Eu acredito que isso a ajudará a progredir. Ela vê a vida desse jeito, agora".

A evolução da sociedade entre 1970, quando Gorman entrou na faculdade, e agora foi profunda. "Você provavelmente pode dividir a coisa em períodos de 10 anos", calcula Delhagen. "Tenho 40. As mulheres com mais de 50 terão resposta muito diferente sobre sua experiência esportiva do que as mulheres de 30 ou menos".

A maior parte das mulheres de 50 anos ou mais animava torcidas nas tardes de sábado, porque lhes faltavam outras opções. "Quando entrei no Colby, me perguntaram se queria ser líder de torcida", diz Gorman.

Virtualmente todas as mulheres com menos de 30 anos puderam escolher entre diversos esportes na juventude, e muitas continuam a praticá-los depois da escola. "O que isso diz a meninas em idade de formação é que elas são capazes", afirma Delhagen. "Vocês podem chutar uma bola por aí, jogar beisebol".

A recompensa, física e emocional, é evidente, dizem os pesquisadores. "As meninas que praticam esporte têm maior probabilidade de terminar o segundo grau, menor índice de gravidez na adolescência, e menos chance de beber ou fumar", diz Susan Leitao, diretora associada de programas do Centro de Estudo do Esporte e Sociedade da Universidade Northeastern.

Quando começam a trabalhar, as esportistas descobrem que são aceitas como iguais pelos homens que compreendem a dedicação e o espírito altruísta exigido nos esportes. "Você encontra um território comum", diz Delhagen. "Fala sobre o basquete em Princeton. Os homens me perguntam se joguei lá".

Tradução de Paulo Migliacci

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