O "vírus" do terrorismo

H. D. S. Greenaway

Há apenas dois anos, ninguém teria imaginado que o terceiro milênio estaria vendo tantos e tão grandes retrocessos no mundo. Nada poderia simbolizar melhor essa regressão do que a imagem do presidente dos Estados Unidos sendo vacinado contra a varíola, uma doença que foi vista pela última vez em território norte-americano meio século atrás e que foi considerada eliminada em todo o mundo pela Organização Mundial de Saúde (OMS) em 1980. Parecia-nos então que um imenso flagelo fora eliminado do planeta, uma doença que dizimara comunidades inteiras, causando número imenso de mortes dolorosas e terríveis. Mas já não é verdade.

A geração mais jovem não traz nos braços os círculos do tamanho de moedas que eram a marca da imunização contra a varíola nas gerações anteriores, e para eles a doença soa a história antiga, uma relíquia semelhante a outras enfermidades agora extintas como a difteria. Hoje, no entanto, os norte-americanos precisam uma vez mais se defender, com uma vacina que está entre as mais perigosas do mundo, a fim de evitar uma atemorizante doença que a humanidade talvez venha a ressuscitar em nome do terrorismo. É quase como se aqueles que nos desejam mal decidissem vasculhar os túmulos em busca de meios para continuar colocando em prática suas visões impiedosas e messiânicas.

Não muitos anos atrás, um atentado suicida a bomba era uma aberração, algo de estranho e de antinatural. Quando os israelenses primeiro encontraram essa prática, entre os guerrilheiros do Hizbollah que se opunham à ocupação israelense do sul do Líbano nos anos 80, os líderes de Israel reagiram com horror e disseram que se tratava de um fanatismo desconhecido entre seus adversários palestinos. Mas não é mais assim. O vírus do suicídio torna as medidas dissuasórias convencionais obsoletas, e as precauções, como a identificação de cada peça de bagagem pelos passageiros de um avião antes que embarquem, parecem completamente absurdas. E o vírus se difundiu, atingindo escolas de aviação nos Estados Unidos, rebeldes tchetchenos e muitos outros grupos e lugares.

Na Tchetchênia e nos territórios ocupados por Israel, os assassinatos praticados por terroristas suicidas são executados em nome da independência política, mas muitas vezes sob inspiração religiosa. No caso da Al-Qaeda, os objetivos políticos são ainda mais obscuros. Além de livrar as terras muçulmanas dos governos que têm hoje e de substitui-los por teocracias islâmicas, os seguidores da Al-Qaeda parecem ter uma obsessão maníaca com aquilo que foi perdido, com as glórias desaparecidas de um passado islâmico distante e indistinto, com a retomada de um califado há muito abandonado que de alguma forma propiciaria a união de todos os muçulmanos, tanto os que assim o desejam quanto os demais, para levar a ruína e morte aos infiéis. Enquanto procuram entre os estilhaços do passado algum significado que os justifique, a única coisa que encontram é destruição e morte.

Há casos em que pântanos de terrorismo podem ser drenados por meio de acomodação política. Os britânicos talvez tenham conseguido chegar a um acordo político dessa natureza com o Exército Republicano Irlandês (IRA). O horrendo morticínio no Sri Lanka talvez também esteja chegando a uma conclusão semelhante. Os israelenses e os palestinos chegaram muito perto de um compromisso político antes que as duas partes deslizassem de volta ao familiar território da violência. E quem é capaz de se lembrar agora de que o Congresso Nacional Africano, sob a liderança simbólica do aprisionado Nelson Mandela, era catalogado pelo governo norte-americano como uma organização terrorista?

Outros grupos terroristas, como as Brigadas Vermelhas Italianas, os Weathermen norte-americanos, o Baader-Meinhoff alemão e o Exército Vermelho Japonês, eram "cultos bizarros de violência e ódio", como os descreveu o especialista em terrorismo Paul Wilkinson, movimentos "utópicos" que "rejeitavam totalmente a ordem existente... Não havia terreno para negociar qualquer compromisso entre seus objetivos e os do resto da sociedade". Os terroristas ideológicos habitavam um mundo mental dividido entre opressores e exploradores, com seus colaboradores, de um lado, e eles, os corajosos soldados da justiça revolucionária, do outro.

Isso serve perfeitamente para descrever a Al-Qaeda: além do alcance da razão e da acomodação. Richard Reid, o homem da bomba no sapato, disse que o terror continuaria enquanto os Estados Unidos oprimissem os muçulmanos. Mas para aqueles que vêem opressão na publicação de um romance ou na presença de uma menina na escola, o diálogo é difícil. Como dialogar com o iemenita que matou três médicos norte-americanos simplesmente, disse ele, para limpar sua religião e ficar mais próximo de Deus?

Pode ser que o mundo árabe veja tudo que os Estados Unidos fazem pela lente de seu apoio às políticas adotadas por Ariel Sharon em Israel, e é inegável que os norte-americanos tanto poderiam quanto deveriam fazer mais para chegar a uma solução para o conflito entre israelenses e palestinos. De fato, o conflito é a maior causa isolada de ressentimento entre os muçulmanos. Mas isso não deterá a Al-Qaeda, uma organização que emprega a questão palestina apenas como causa para legitimar seu culto da morte -como os palestinos bem sabem, e rejeitam. Os atentados a bomba na ilha de Bali ou o ataque ao World Trade Center em Nova York não tiveram raízes nos campos de refugiados palestinos. São sintomas de um mal muito mais pervasivo.

O que, portanto, deveríamos fazer? Nós nos defenderemos com o melhor de nossa capacidade, e se formos inteligentes tentaremos eliminar algumas das causas fundamentais que facilitam o recrutamento de terroristas pela Al-Qaeda. Precisamos trabalhar de perto com outros países e com amigos, onde pudermos encontrá-los. Procuraremos perturbar as atividades dos terroristas, quando os localizarmos, e decerto sofreremos novas perdas, como as de setembro do ano retrasado. Demorará anos, mas no final será a abertura de nossa sociedade, as liberdades de que desfrutamos, que atrairão até mesmo aqueles que se opõem às nossas políticas. A melhor coisa que podemos usar em nosso favor é a tolerância.

De todas as pichações que se espalharam pelos Estados Unidos e todos os cartazes que foram colocados no local do ataque nas semanas que se seguiram ao 11 de setembro de 2001, o que mais atraiu minha atenção como resumo da persistência impertinente de que os norte-americanos precisam nos tempos difíceis que nos esperam dizia: "Infiéis bem-vindos aqui".



A coluna de H. D. S. Greenway é publicada regularmente pelo "Boston Globe".

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