Em Gaza aumentam os temores quanto a uma nova onda de ataques suicidas

Charles A. Radin

Gaza - Um ataque realizado por dois jovens palestinos contra o assentamento judeu de Netzarim, na noite do último domingo, e uma ação similar por parte de três jovens contra o assentamento de Elei Sinai, no primeiro dia do ano, fizeram com que aumentassem os temores em ambos os lados envolvidos no conflito quanto à preparação de uma nova onda de ataques suicidas levados a cabo por jovens palestinos na volátil Faixa de Gaza.

Nos dois incidentes, os garotos, armados com facas, penetraram em assentamentos bem vigiados e foram descobertos antes que pudessem causar danos sérios a alguém. Aqueles que atacaram Netzarim foram feridos e estão agora sob custódia das forças de segurança israelenses. Já os que atacaram Elei Sinai foram mortos.

Acredita-se que um dos garotos envolvidos no ataque a Netzarim, Ahmed Hanajereh, de 13 anos, tenha sido o mais novo, até hoje, a participar desse tipo de ataque. Ele foi capturado quando bebia água em uma casa do assentamento, onde procurou se abrigar, fingindo ser um trabalhador tailandês, após o irmão, Mohammed, de 16 anos, ter sido ferido.

Líderes militantes palestinos dizem que os ataques foram uma reação aos sentimentos de desespero motivados pelo controle israelense da Faixa de Gaza, que muitas vezes é intensificado quando os palestinos aumentam o número de ataques contra israelenses, conforme fizeram desde o primeiro dia deste ano. Mas os israelenses dizem que os garotos estariam sendo estimulados a realizar ofensivas suicidas pela liderança palestina.

"A Autoridade Palestina tem se engajado em um supremo esforço para convencer as suas próprias crianças de que não há maior realização do que morrer em uma batalha por Alá", afirma Itamar Marcus, diretor da Palestinian Media Watch, uma organização israelense que divulgou um extenso relatório na semana passada sobre programas de televisão da Autoridade Palestina que incitariam o ódio e a violência contra judeus.

O relatório inclui vídeo clipes nos quais crianças palestinas dizem aos seus colegas que todo garoto palestino almeja o martírio, o líder religioso Mohammed Ibrahim Madi encoraja os jovens a explodirem judeus na sua terra santa, onde quer que os encontre, e o líder palestino Iasser Arafat elogia os meninos que sacrificam as suas vidas.

"A criança que está segurando a pedra, enfrentando o tanque - não seria essa a mais grandiosa mensagem dirigida ao mundo, quando aquele herói se transforma em shahid?", disse Arafat na sua mensagem de ano novo, fazendo uma alusão a um garoto que morreu como mártir.

Abdel Aziz Rantisi, um dos líderes do Hamas, um grupo que defende táticas de terror como parte da sua mobilização para erradicar o Estado de Israel, disse: "Nós alertamos repetidamente as crianças para que não se envolvam com a resistência".

"Elas não estão qualificadas para essa tarefa", disse Rantisi. "Avisamos aos pais para que prestem atenção nos seus filhos, e advertimos as facções para que se posicionassem firmemente contra o uso de crianças na luta de resistência".

Apesar disso, afirma Rantisi, "o fator mais importante que determina o envolvimento desses meninos na luta é o terrorismo praticado pelo inimigo sionista... Os garotos querem vingança".

Os pais e irmãos de Ahmed Hanajereh disseram que a dominação dos palestinos pelos israelenses é a causa básica do conflito, mas que os programas de televisão que mostram morte e heroísmo por parte de crianças palestinas fornecem o ímpeto imediato para desencadear a ação dos jovens.

"Se eu lhes digo que devem continuar rezando pela nossa libertação, isso não significa que os envio para a linha de fogo", explica Khamis Hanajereh, pai dos dois garotos que desfecharam o ataque contra o Netzarim, e que tem mais oito filhos. "Não quero que eles morram... Dezenas de homens armados foram mortos enquanto tentavam atacar os assentamentos".

A mãe dos garotos, Kamleh, disse que eles foram motivados "pelas imagens mostradas na televisão".

"Eu não posso impedir que eles vejam tais imagens", justificou-se Kamleh. Várias dessas imagens são transmitidas repetidamente, com um toque dramático.

Como se para confirmar o argumento da mulher, o seu filho, Abdel Hadi, de 15 anos, disse que, assim como os irmãos, ficou muito triste quando viu a morte de Mohammed al-Dura. "Todos os palestinos se entristeceram com o fato".

As imagens da morte de Dura, um garoto de 12 anos morto ao ficar preso no fogo-cruzado entre atiradores palestinos e soldados israelenses, talvez sejam aquelas relativas ao conflito palestino-israelense exibidas com mais frequência no mundo árabe.

Fadel Abu Heen, líder do Centro de Treinamento Comunitário e Gerenciamento de Crises em Gaza, que realizou estudos em grande escala sobre as reações das crianças quanto ao martírio no decorrer dos últimos dois anos, disse que a percentagem de jovens palestinos que desejam ser mártires aumentou de 71% em 2001 para 79% no ano passado.

Os estudos realizados por Abu Heen examinaram 34 fatores que influenciam a disposição dos meninos em morrer e demonstraram que a glorificação do martírio na mídia é o principal determinante, seguida pelos sentimentos de nacionalismo patriótico, relações familiares problemáticas e religião.

Analistas e oficiais de inteligência israelenses disseram que há uma intensa falta de consenso entre os palestinos sobre a moralidade das missões suicidas de forma genérica, e, em particular, quanto ao envolvimento de crianças no conflito. Mas eles acrescentam que aqueles palestinos que se opõe a tais atividades - o estadista Abu Mazen, o negociador Saeb Erekat, e o ministro da Cultura Iasser Abed Rabbo, entre outros - exercem pouca influência sobre o público.

"Estamos nos deparando com uma nova sociedade em meio aos palestinos", disse o tenente-coronel Yoni Kahoah Halevy, militar israelense veterano, que participou da administração dos territórios ocupados e das negociações com os palestinos. "A Frente Popular de Libertação da Palestina, a Jihad Islâmica e outros grupos dizem que, ao enviar os seus filhos para a realização de missões suicidas, não estariam criando morte, e que tais ações seriam, ao contrário, atos de esperança que criam nova vida".

Segundo ele, tais facções convenceram uma grande fração das crianças palestinas de que "o suicida que explode bombas não morre - ele começa uma nova vida".

Tradução: Danilo Fonseca

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