Reality Shows não são mais motivo de riso

Matthew Gilbert
The Boston Globe

Esqueça aquele papo sobre a derrocada da civilização, da Morte da Privacidade e dos perigos de o Big Brother orwelliano venha a se transformar em um objeto de adoração. Esqueça também o que se fala sobre o "Truman Show" e da possibilidade de que o "Fear Factor" termine por nos impregnar com um gosto popular por filmes ordinários. Na verdade, as séries de "reality TV" e as suas aspirações ingênuas não têm o poder de arruinar o mundo.

O verdadeiro problema é simplesmente o fato de os reality shows serem a quinta-essência da banalidade. Eles não passam de lixo exibido em horário privilegiado, de tempo livre de teledifusão para indivíduos plásticos que jazem em algum ponto na área nebulosa entre os locutores de "Entertainment Tonight" e estrelas pornográficas. Preenchendo mais de 12 horas de espaço televisivo semanais, eles são veículos baratos rumo a altos índices de audiência Nielsen para redes de TV desesperadas que parecem não conseguir colocar no ar um punhado sequer de roteiros de boa qualidade.

Temos que admitir, a "reality TV" não passa de mais uma onda do estilo tablóide como a explosão dos "talk-shows" dos anos 90, quando a cada semana víamos um novo tagarela profissional apresentando conflitos, que se constituíam em porcarias da mídia, para que com eles se entretivessem as massas. Houve uma transição a partir dos confrontos ensaiados mas destituídos de roteiro, como "The Jerry Springer Show", para as paqueras, também ensaiadas e destituídas de roteiro, de "Joe Millionaire". E ambos os gêneros são primos de "The Howard Stern Show" e de "WWE SmackDown!", onde atores/lutadores exibem a musculatura para as câmeras. Será que as pelejas de Barbie-e-Ken-na-banheira são muito diferentes do "Stern's Butt Bongo Fiesta"?

E a ironia não é a resposta para tal pergunta.

O tom populista da reality TV se constitui na oportunidade perfeita para se exercer aquilo que se considera como "apreciação irônica" - adorar o fato de odiar os shows. Não é incrível que esses concorrentes sejam tão superficiais, que estejam agindo de forma tão mundanamente humana - e, para piorar, em frente a uma câmera? O vazio nítidos de tudo isso faz com muitos de nós assumam uma postura de observação distanciada, de engajamento com espírito de superioridade. Tais shows são 100% porcaria de consumo de massas e especialmente fáceis de serem transformados em alvos de zombarias. São queijo norte-americano processado, como é o caso do escândalo Heidigate que irrompe na mansão de "Joe Millionaire", ou quando o jogador Jeff, de "Bachelorette, tira a camisa para trocar um pneu. O simples fato de observar a forma como a ABC constrói a cerimônia da rosa em "The Bachelorette" é suficiente para que fiquemos a balançar a cabeça, em um estado de incredulidade bem humorada. E é mais fácil rir dos concorrentes dos reality shows do que daqueles de Jerry Springer, que nem sempre sabem entender o objeto sobre o qual chegaram a um acordo.

Mas a satisfação de rirmos de truques de gente idiota é algo de demasiadamente predatório. Estou cansado de revirar os olhos com gosto ao presenciar os hábitos de acasalamento de Jane e John Exibicionista, assim como em ver os egos permeados de celebridade patética em "The Surreal Life". É claro que as mulheres em "Joe Millionaire" se reuniram para um jogo, mas será realmente satisfatório ver a reação do vencedor ao ser enganado? Quando vezes poderei ser capaz de rir de Simon Cowell a dizimar o sonho de alguns fracassados com a finalidade de nos divertir em "American Idol"? Será que a humilhação alheia me faz sentir melhor comigo mesmo? Geralmente são aqueles telespectadores que descartam sumariamente os reality shows que são considerados intelectuais esnobes, mas se passo uma poucas horas por semana gargalhando ante a futilidade de atuações patéticas e da cantoria de intérpretes completamente desafinados, tenho que me questionar a respeito.

E a abordagem científica tampouco funciona mais.

Antes era possível olhar para os participantes dos reality shows como ratos de laboratório, que testavam os papéis de cada sexo e as dinâmicas de grupo para nós. A primeira temporada de "Survivor", em 2000 (isso foi nas profundezas do passado, pelos padrões televisivos) gerou um certo estudo inconsciente de natureza política. Mas agora, os concorrentes de atuação apimentada dos reality shows estão bastante conscientes dos papéis de cada sexo. Os shows não são mais experiências, e sim testes teatrais, algo em que "The Real World", da MTV, se transformou no início de sua história. Recentemente, após as fotos modeladas de Evan Marriot terem conseguido chegar à mídia, o solteiro de "Joe Millionaire", admitiu à revista "Newsweek": "Eu esperava que 'Entertainment Tonight' mostrasse mais coisas ao público, mas isso não aconteceu". Apesar da sua falta de talento, o cara quer ser um astro, e, o assustador é que ele pode realmente conseguir tal proeza.

Longe de serem pratos petri científicos para estudar o comportamento natural humano, os reality shows não passam de produtos de TV elaborados, coreografados e editados de forma grosseira por produtores que compreendem a necessidade de se contar com enredos e personagens simplórios. Caciques dos reality shows como Mike Fleiss de "The Bachelor" e "High School Reunion" amalgamam cuidadosamente drama e comédia, vitória e fracasso, do material bruto que foi filmado. Eles e as redes de televisão sabem que a menos que tal material esteja nas mãos de grandes documentaristas como Frederick Wiseman, a "realidade real" entedia os telespectadores e, por isso, precisa ser trabalhada. A primeira temporada do "Big Brother" foi o que mais se aproximou do estilo não editado de Webcam, e a sua audiência foi uma decepção para a CBS. Temporadas posteriores tiveram mais sucesso, já que a CBS acrescentou jogos e escolheu situações com um olho cravado na tensão sexual.

Estranhamente, o coro dos desgostosos com o gênero diminuiu de intensidade, incapaz que foi de resistir a onda sem fim de novos shows. As mesmas vozes que fizeram objeções a "Who Wants to Marry a Multi-Millionaire?" e a Drava Conger, em 2000, agora se maravilham com a imbecilidade despudorada de Marriott, , lutando para descobrir se realmente ganha US$ 19 mil por ano - como se a Fox e a reality TV realmente precisassem assumir responsabilidades. Os protestos e bocejos que receberam "Chains of Love" em 2001 se transformaram em questionamentos sobre se "The Bachelorette" é melhor do que "The Bachelor" ou se Tista é feminista. Quando Dick Van Dyke enfiou o dedo na garganta na semana passada, para exprimir o que sente com relação à reality TV, tratou-se de um gesto solitário de náusea em meio à um ambiente de selvageria e destituído de roteiros.

A boa nova é que pode não haver mais necessidade de rompantes críticos; os reality shows são uma viga frágil. Quando mais as redes de televisão confiam nesses shows baratos para atingir altos índices do Nielsen, e quando mais nos vemos inundados por clones desses programas, mais os telespectadores se cansam do gênero. A moda vai ser incinerada como sempre acontece com modismos como "Who Wants to Be a Millionaire", e, assim, as redes de televisão serão obrigadas a procurar novos materiais em outros lugares.

E esse vai ser um "Extreme Makeover" que vou sentir satisfação em assistir.

Matthew Gilbert pode ser contactado no endereço eletrônico gilbert@globe.com

Tradução: Danilo Fonseca

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