Possível guerra no Iraque divide os vizinhos da Turquia

Charles A. Radin

Ancara, Turquia - De uma forma mais intensa do que a usual, a Turquia está dividida entre o Oriente Médio e o Ocidente, entre o secularismo moderno e o tradicionalismo muçulmano, devido ao possível ataque norte-americano contra o Iraque.

Mais de 80% da população, e os dois grandes partidos com representação no Parlamento, se opõe a apoiar os Estados Unidos no conflito. Ao mesmo tempo, os turcos - desde os mais pobres até as elites - dizem que as atuais iniciativas norte-americanas para garantir a participação turca em um ataque a Saddam Hussein poderiam ter sucesso.

"Contra? É claro que sou contra", diz Huseyin Durmus, de 46 anos, que acredita que o conflito que parece se aproximar é o motivo pelo qual tão poucos fregueses têm aparecido para comprar nozes, condimentos, pasta de uvas e de pistache, produtos que ele vende no sujo mercado Maltepe, em Ancara. "Mas os Estados Unidos são o patrão. Caso eles comecem, nós também começaremos. Teremos que fazer isso. Os Estados Unidos não estão nos fornecendo este dinheiro do FMI como doação."

Mais assistência do Fundo Monetário Internacional para a problemática economia turca, um alívio das restrições para a compra de produtos militares de alta tecnologia e o estímulo ao aumento da influência regional da Turquia na era pós-guerra são alguns dos benefícios com que os norte-americanos acenam para Ancara, caso o governo turco se engaje em uma ação conjunta com os Estados Unidos contra o Iraque, segundo o depoimento de fontes diplomáticas e políticas.

Mesmo com tais incentivos, a decisão é séria. A participação turca no conflito poderia azedar as já tensas relações com os seus vizinhos muçulmanos. Ela causaria um terremoto no Partido da Justiça e do Desenvolvimento, que está no poder, e que possui moderadas raízes islâmicas. E, assim como ocorreu na Guerra do Golfo de 1991, tal ação poderia ser prejudicial à economia.

A decisão turca tem também um grande significado para os Estados Unidos. A participação do país imunizaria os Estados Unidos contra as acusações de que se trataria de uma guerra de uma nação cristã contra os muçulmanos, algo que as alianças com as monarquias do Golfo Pérsico não são capazes de fazer. O acordo abriria as portas para que os Estados Unidos utilizassem postos e bases aéreas turcos estratégicos, assim como a fronteira entre a Turquia e o Iraque - possibilitando a abertura de uma frente ao norte contra Hussein, o que, segundo analistas, provavelmente abreviaria o conflito e salvaria vidas norte-americanas.

A liderança turca "não está procurando se amparar nos Estados Unidos", disse um diplomata ocidental que conhece detalhes das negociações. "Eles acreditam que alguns dos seus interesses estão alinhados com os Estados Unidos, mas têm que administrar uma complexa série de fatores. É difícil para qualquer governo conseguir, através do Parlamento, algo contra o qual 80% da população se opõe."

Tampouco há na Turquia um grande afeto por Saddam Hussein. Desde os mercados públicos de Ancara e de Istambul até os salões do governo e as salas de imprensa da grande mídia, os turcos dizem concordar com os Estados Unidos quanto ao fato de o líder do Iraque ser perigoso, e que gostariam de vê-lo fora do poder.

Mas, segundo eles, os Estados Unidos fracassaram em justificar os seus argumentos segundo os quais teria chegado o momento para a guerra, que os norte-americanos poderiam proteger o Iraque e toda a região do caos após a guerra, e que a debilitada economia da Turquia, um dos países que mais saiu perdendo com a Guerra do Golfo de 1991, não seria novamente atingida.

"Ao final da primeira Guerra do Golfo havia dois grandes perdedores - um foi o Iraque e o outro a Turquia", diz Mehmet Dulger, do situacionista Partido da Justiça e do Desenvolvimento, que é diretor do comitê de relações exteriores do Parlamento Turco. "A nossa posição atual é semelhante à de um enfermo em convalescença, e corremos o risco de perder novamente."

Os líderes políticos turcos estão profundamente preocupados com a possibilidade de os Estados Unidos não entenderem o quanto será difícil impedir que o Iraque se desintegre após a remoção de Saddam Hussein, que vem usando de uma truculência terrível para manter sob controle os vários grupos étnicos do país.

"Ninguém - inclusive os Estados Unidos - sabe que tipo de Iraque emergiria após essa guerra", adverte Cemal Kaya, membro do Parlamento pelo Partido Popular Republicano, o maior partido de oposição ao governo. "Os grupos de exilados iraquianos não são fortes, os xiitas do sul não estão organizados. Há armênios e turcomenos - somente os curdos estão organizados. Portanto, que espécie de Iraque será criado?"

A Turquia é terminantemente contrária à criação de um Estado curdo.Um número estimado entre 15 a 20 milhões da população da Turquia, cujo total é de cerca de 70 milhões de habitantes, é de etnia curda, e uma batalha longa e sangrenta entre o Estado e os grupos separatistas turcos, que às vezes recorrem a táticas terroristas, só terminou há alguns anos. Vários turcos temem que a declaração de um Estado curdo no norte do Iraque pudesse reacender o nacionalismo curdo no leste da Turquia, e eles duvidam que os Estados Unidos estariam dispostos a ficar observando dos bastidores enquanto as forças turcas implementassem o plano anunciado pelo país no sentido de suprimir tal Estado.

Assim como vários turcos, Kaya, que representa a cidade de Agri, no extremo leste da Turquia, também duvida de que o governo norte-americano esteja imbuído de motivos puros para tentar derrubar Saddam Hussein neste momento. Ele acredita que uma região não democrática e abalada por lutas étnicas atenderia aos interesses velados que beneficiariam o domínio militar e econômico dos Estados Unidos.

O partido dominante "não tem escolha", afirma. "Quer gostem ou não, a Turquia estará nessa guerra... Veja, 70% dos norte-americanos não querem tal guerra, mas eles são incapazes de dizer não às companhias petrolíferas do Texas."

Vários turcos que se opõe à guerra admitiram rapidamente que o seu sentimento se baseia mais em considerações de ordem pessoal e econômica do que em princípios morais. Há um grande consenso quanto à idéia de que os Estados Unidos não teriam cumprido os seus compromissos econômicos para com a Turquia após a Guerra do Golfo de 1991, e de que os bilhões de dólares perdidos pela Turquia seriam a causa principal dos problemas econômicos que atingem o país.

"O sofrimento econômico é algo que está na linha de frente do pensamento coletivo", disse um diplomata ocidental envolvido em discussões sobre a participação da Turquia em um possível conflito. As estimativas feitas após a guerra de 1991, que apontavam para um prejuízo de US$ 10 bilhões, a maioria referente à perda de negócios com o Iraque e de oportunidades turísticas, mostraram ser US$ 100 milhões maiores do que o previsto.

Segundo o diplomata, tais números são exagerados, "mas não é um mito a versão de que houve perdas e que essas perdas atingiram mais aos pobres e aos setores mais sensíveis do país".

Mustafa Kibaroglu, especialista em armas biológicas e químicas da Universidade Bilkent e consultor das forças armadas turcas disse: "Sabemos que há armas químicas e biológicas ocultas no Iraque" - em parte devido a contatos diretos com membros das equipes de inspeções das Nações Unidas, que passam tal informação, mas que afirmam não ser sua atribuição fazer declarações públicas.

"Concordamos que seria bom destruí-las. Mas não se deve permitir que os custos de se desarmar Saddam Hussein ultrapassem os benefícios. Um Oriente Médio desestabilizado não é bom para os Estados Unidos, Israel ou Turquia."

Além do mais, líderes militares turcos estão preocupados com a possibilidade de que a presença de grandes contingentes de tropas norte-americanas no norte do Iraque possa alterar a situação dos nacionalistas curdos na região - uma situação que, atualmente, parece estar sendo bem administrada pela Turquia.

Autoridades turcas e norte-americanas afirmam que não há mais de 2.000 ou 3.000 soldados turcos no norte do Iraque, mas Kibaroglu e outros observadores turcos que alegam possuir fontes dentro das forças armadas dizem que o número mais provável é 20 mil e que esse contingente poderia ser dobrado rapidamente, caso necessário.

"A presença de tropas norte-americanas poderia muito bem atar as mãos das tropas turcas que controlam aquilo que os curdos fazem na região", afirmou Kibaroglu. "E isso seria pisar no nosso calo".

Por outro lado, analistas turcos observam que, caso os Estados Unidos derrotassem o Iraque sem a ajuda turca, a Turquia perderia toda a sua supremacia no norte do Iraque. Realmente, eles dizem que essa seria uma das principais razões para que a Turquia participasse da guerra ao lado dos norte-americanos, a despeito da opinião pública.

Tais cálculos políticos, aliados ao desejo das forças armadas turcas em obter helicópteros e tanques norte-americanos, assim como a parceria genuína entre a Turquia e os Estados Unidos que teve início quando a Turquia lutava contra os separatistas curdos nos anos 80, tudo isso são elementos da discreta negociação que se desenrola entre os dois países, longe dos holofotes da diplomacia pública e da opinião popular.

"A nossa hesitação não diz respeito à participação, mas à dificuldade dos nossos problemas", diz Kulger, o diretor do comitê de relações externas. "Os Estados Unidos e o Reino Unido elaboraram o jogo. Tão logo o jogo seja elaborado, todos têm um papel a desempenhar. Temos o nosso papel, e provavelmente vamos desempenhá-lo".

Tradução: Danilo Fonseca

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