Congelar esperma passa a fazer parte da rotina de americanos que se despedem para ir à guerra

Tatsha Robertson

A ameaça de ataques químicos ou biológicos no Iraque levou alguns soldados norte-americanos a adicionarem um recurso de alta tecnologia ao ritual de deixar para trás os entes queridos ao embarcarem para a guerra: além dos testamentos e notas de adeus, dezenas de militares deixaram amostras de seus espermatozóides em bancos de esperma, para se prevenirem quanto à possibilidade de um ataque inimigo deixá-los estéreis.

"Esse segmento da população não é, certamente, aquele que vemos durante épocas normais", afirma Brent Hazelrigg, diretor do Fairfax Cryobank, em Fairfax, Virgínia. "Em novembro, começamos a receber um número incrível de ligações telefônicas e muita gente passou a nos visitar para congelar o seu esperma. A maioria dos pedidos é de caráter urgente. Trata-se de pessoas que vão embarcar nas próximas 48 horas e que desejam armazenar seu esperma."

Cerca de doze homens armazenaram amostras de seus espermatozóides em um banco de esperma de Cambridge, Massachusetts; 22, em um banco da Califórnia, e 40, em Virgínia. Mas um número ainda maior visitou os bancos de esperma para consultar, e outros pediram informações por telefone. Segundo Nolberto Delgadillo, gerente de armazenagem da California Cryobank, uma rede de bancos de esperma que possui uma agência em Cambridge, a maioria das ligações foi iniciativa de uma namorada ou esposa.

Patrick Atwell, sargento da Guarda Nacional do Exército, da Califórnia, recebeu um ultimato da noiva para que armazenasse amostras de seus espermatozóides. Atwell disse que um colega que serviu na Guerra do Golfo culpa a vacina contra o antraz que recebeu durante o conflito pelo fato de ser estéril.

Portanto, após ter concluído o seu testamento e decidido quem seria responsável por seu corpo, caso o pior venha a acontecer, Atwell, que pode ser enviado a qualquer momento para o Golfo Pérsico, saiu de sua casa, próxima a Fresno, com a noiva, e foi à sede da California Cryobank, em Los Angeles. Ele disse que o que teme não é a morte, mas a possibilidade de não ser capaz de ter filhos.

"Creio que todos os reservistas, guardas nacionais e qualquer um que esteja no serviço militar ativo deveria armazenar pelo menos uma amostra saudável de esperma", afirma Atwell. "Nunca se sabe o que vai acontecer."

Funcionários dos bancos de esperma dizem que é seu dever patriótico oferecer aos militares a opção de armazenamento gratuito de esperma por um ano. Eles também deram um desconto sobre as taxas de processamento e análise dos soldados. O escritório do Fairfax Cryobank enviou kits de coleta para alguns militares, que mandaram as amostras de volta por correio.

Jim Turner, porta-voz do Departamento de Defesa, disse que não existem iniciativas ou políticas em vigor no sentido de encorajar ou desencorajar o uso dos bancos de esperma.

Alguns especialistas da área médica acham que esses soldados podem estar exagerando, mas a atitude dos militares é também um sinal dos tempos. Nos recentes conflitos, o número de baixas norte-americanas em guerras tem sido relativamente baixo, mas o medo da guerra bioquímica e dos seus possíveis efeitos vem aumentando.

Um estudo divulgado neste mês parece justificar os temores. Financiado pelo Departamento de Defesa e conduzido por uma equipe de pesquisadores da Universidade Duke, o estudo revelou que os medicamentos administrados aos soldados durante a Guerra do Golfo, em 1991, a fim de protege-los de doenças transmitidas por insetos e de envenenamento por gases que atuam sobre o sistema nervoso causaram infertilidade e outros problemas sexuais, entre outros males.

O estudo foi encomendado pelo Pentágono, após soldados que serviram na Guerra do Golfo terem se queixado de disfunções sexuais e de infertilidade. Descobriu-se que três produtos químicos aos quais os soldados foram expostos - inclusive os inseticidas Deet e Permetrina, assim como o agente neutralizador da ação de gases neurotóxicos, piridostgmina bromídeo - causaram uma grave deterioração da estrutura testicular e da produção de esperma em ratos de laboratório, segundo Mohamed Abou Donia, o principal pesquisador envolvido no estudo da Universidade Duke.

Turner, do Departamento de Defesa, disse que, ao contrário do que foi feito no estudo de Donia, esses produtos químicos não são usados conjuntamente nos soldados. Ele disse ainda que não há indicações de que a infertilidade deveria ser um motivo de preocupações para os militares.

Especialistas da área médica suspeitam que algumas das mulheres que serviram na Guerra do Golfo também podem ter adquirido problemas de reprodução, mas, segundo Cappy Rothman, um dos donos da California Cryobank, o congelamento de óvulos humanos ainda é um processo novo. Ele só foi bem sucedido em algumas poucas ocasiões e o processo é bem mais complexo do que o armazenamento de espermatozóides. No decorrer da sua vida, uma mulher produz apenas algo como 400 a 500 óvulos, enquanto que um homem gera centenas de milhares de espermatozóides diariamente, o que aumenta a chance de que os indivíduos do sexo masculino consigam se reproduzir.

Tanto a Fairfax Cryobank quanto a California Cryobank dizem que colocaram os seus serviços de armazenagem de esperma à disposição dos militares durante a Guerra do Golfo, tendo, entretanto, recebido poucas solicitações por parte dos soldados.

Segundo Abraham Morgentaler, urologista do Centro Médico Diaconisa Beth Israel, uma preocupação comum dos veteranos de guerra do sexo masculino em todo o mundo é a possibilidade de a exposição a produtos químicos tê-los tornado estéreis.

"Os homens deste e de outros países que possuem baixa contagem de espermatozóides se perguntam se o fato de terem servido as forças armadas pode ter feito com que fossem expostos a alguma substância nociva à reprodução", diz o urologista.

Morgentaler, autor do livro "The Viagra Myth" ("O Mito do Viagra"), que será lançado em breve nos Estados Unidos, diz que todos os militares, independente de serem homens ou mulheres, são expostos a ambientes não familiares. Mas ele acrescenta que a comunidade médica deve decidir como ajudar os indivíduos a se protegerem sem amedrontá-los.

"Existe o aspecto de ser melhor se sentir seguro do que arrependido quanto ao fato de guardar esperma em um banco", diz ele. "Mas, por outro lado, há um número enorme de homens que vai à guerra e têm filhos sem quaisquer dificuldades".


Tradução: Danilo Fonseca

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