Aplicadores investem movidos pelo medo

Charles A. Jaffe


Em um ambiente de investimentos dominado por uma feroz tendência de queda e prejudicado por taxas de juros que atingem o recorde de baixa dos últimos 40 anos, os produtos financeiros mais vendidos estão todos se beneficiando de um mesmo fator: o medo.

Esse medo pode assumir a forma do pânico de um investidor que perde dinheiro no mercado ou da consternação palpável de um aposentado que se depara com retornos cada vez mais minguados do seu fundo de aposentadoria. O que é óbvio é que um público nervoso está buscando "investimentos seguros".

"A população tem tendência a agir com base no medo, ao invés de se balizar por eventos positivos", afirma Richard Geist, que dirige o Congresso de Psicologia do Investimento e publica o jornal "Strategic Investing". "Os vendedores de produtos financeiros também sabem disso e estão tentando tirar vantagem desse fato".

Uma recente pesquisa divulgada pelo Grupo de Serviços Financeiros Hartford demonstrou que quase três entre cada quatro cidadãos estadunidenses se preocupam com a possibilidade de que a sua atual taxa de retornos de investimentos possa não ser adequada para atender às suas metas financeiras. Esse fato se aplica a todos os grupos etários, indicando que o fator medo está presente em todos os investidores, e não só naqueles mais velhos, que dependem mais desse tipo de rendimento.

Como resultado, quando os entrevistados pela pesquisa se depararam com a descrição de uma opção de fundo de renda fixa elaborado para suplantar a inflação, 77% disseram que desejariam colocar o seu dinheiro em tal tipo de investimento.

Esse tipo de reação generalizada é exatamente a razão pela qual a propaganda de planos que prometem altos rendimentos baseados em anuidades - que amarram investimentos a uma apólice de seguro - e "notas de investimentos" parecem estar espalhados por toda parte.

Tal nervosismo também ajuda a explicar porque as companhias de investimentos que protegem a integridade do valor investido, e que procuram aliar segurança à capacidade de participar dos ganhos das bolsas de valores, passaram, nos últimos três anos, de uma condição de agentes secundários da ciranda financeira, com apenas alguns milhões de dólares movimentados, para uma categoria multibilionária que não pára de crescer. No decorrer do mesmo período as vendas de "notas de acesso direto", um tipo de título corporativo de investimento vendido diretamente ao investidor individual, saltaram de US$ 2 bilhões (cerca de R$ 7 bilhões) anuais para a casa dos US$ 42 bilhões (cerca R$ 147,6 bilhões) por ano.

Os títulos protegidos da inflação, que prometem um baixo retorno fixo e correção monetária, também cresceram, tanto em vendas diretas ao público quanto em novos fundos mútuos de "retorno real". O Tesouro dos Estados Unidos emitiu bilhões de dólares em títulos indexados à inflação e vem tendo problemas para atender à demanda pública.

Os mais complicados desses produtos tendem a fazer uso de promessas ou de garantias de estabilidade ou de altos rendimentos, a fim de atrair o investidor. Alguns fundos de anuidade, por exemplo, oferecem taxas mais tentadoras, de 6% ao ano, mas com índices de rendimento menores após o primeiro ano. As firmas de investimento que protegem o valor investido e as "notas com proteção parcial do valor investido" prometem que o investidor não perderá dinheiro caso o mercado continue a apresentar tendência de baixa.

A desvantagem? Em troca de um ano ou dois de altos rendimentos e da promessa de manutenção da integridade do capital investido, os investidores ficam sujeitos a fazer concessões, inclusive quanto a baixa liquidez e altos custos, segundo os especialistas.

Ultimamente, a tática de permanecer em uma zona confortável e de optar por aqueles investimentos que fazem sentido em quaisquer condições de mercado é a fórmula que a maioria dos especialistas prescreve para evitar os maus produtos que tiram proveito do fator medo.

"Se esse temor nos levar a sermos mais cautelosos, comprando produtos mais tradicionais de firmas reconhecidas, o resultado provavelmente não será tão ruim", acrescenta Geist. "Mas se tal medo fizer com que tomemos uma atitude estúpida, aquilo que vier a acontecer será algo ditado pelas nossas emoções".


Tradução: Danilo Fonseca

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