Estrogênio afeta senso de direção das mulheres

Ellen Barry
The Boston Globe


Sabe aquela velha noção popular que diz que as mulheres possuem um péssimo senso de direção? Bem, segundo os pesquisadores, isso as vezes é verdade, dependendo da época do mês.

Vários estudos determinaram que o senso de direção está estreitamente ligado aos hormônios sexuais. E recentemente um pesquisador da Pensilvânia descobriu que é quando uma mulher está ovulando, e o seu nível de estrogênio é alto, que ela tem mais problemas para encontrar a saída de um labirinto. Quando está menstruada, a sua capacidade de navegação é quase tão boa quanto a de um homem.

Se isso tudo soar um pouco estranho para você, não se preocupe. Qualquer um que tenha visto televisão no horário das novelas conhece o estereótipo segundo o qual a menstruação é acompanhada por um humor circunspecto e explosões de raiva. Mas a maioria das mulheres não passa pelas alterações cognitivas que podem acompanhar uma queda do nível de estrogênio - um decréscimo da fluência verbal e da habilidade motora mais refinada, e um aumento do senso de orientação, conforme descobriram os pesquisadores. Isso não é de se admirar, diz um pesquisador que estudou a diferença cognitiva entre homens e mulheres, e que descreve esse campo de pesquisas, cautelosamente, como sendo de "alto risco".

"Tudo bem quanto ao fato de a testosterona influenciar a agressividade e o estrogênio a irritabilidade", afirma Deborah Saucier, professora de psicologia da Universidade de Saskatchewan, no Canadá. "Mas é muito mais ameaçador afirmar que esses hormônios afetam a habilidade matemática, ou a capacidade de acertar um objeto em um alvo. Não creio que a maioria das mulheres tenha consciência disso".

E, no entanto, os resultados das pesquisas estão aí para serem avaliados: os homens são melhores do que as mulheres nas tarefas de natureza mais espacial, especialmente aquelas que envolvem a rotação e a manipulação de objetos, e superam também as mulheres em testes de raciocínio matemático, segundo Doreen Kimura, professora de neurobiologia da cognição na Universidade Simon Fraser, na Colúmbia Britânica, e uma das pioneiras na pesquisa das diferenças cognitivas entre os sexos. As mulheres superam os homens na tarefa de relembrar diagramas espaciais, encontrar objetos que se encaixam e recordar material de natureza verbal.

No ano passado, o psicólogo experimental David Widman, da Faculdade Juniata, na Pensilvânia, decidiu testar a interação entre os ciclos hormonais e a capacidade de navegação, recrutando para o experimento 19 alunos de graduação e 47 alunas, que estavam em diferentes fases do seu período menstrual. Eles tiveram que navegar através de um labirinto aquático criado em um ambiente virtual, algumas vezes dotado de marcos de orientação, outras vezes sem marco algum.

Os resultados, que o psicólogo planeja submeter à revista "Physiology and Behavior" para publicação, foram surpreendentes. Quando os marcos estavam disponíveis como instrumentos de navegação as mulheres menstruadas se saíram quase tão bem quanto os participantes do sexo masculino - foram 11,8 segundos, em média, para as mulheres, contra 11,5 segundos no caso dos homens. Mas, antes da ovulação, quando os níveis de estrogênio estão mais elevados, as mulheres levaram em média 16,67 segundos para sair do labirinto virtual.

Porém, a remoção dos marcos desequilibrou a situação. Ao navegar sem os marcos, os homens levaram 22,5 segundos para atravessar o mesmo labirinto, e as mulheres menstruadas 29,58 segundos. Já as mulheres no período pré-ovulatório ficaram inteiramente perdidas: levaram 83,5 segundos para sair do labirinto.

Widman, que fez experimentos com centenas de ratos em labirintos, tentou encarar as mulheres desorientadas da mesma forma que fez na experiência com os roedores. Por algum motivo, quando as mulheres apresentam altos índices de estrogênio, os marcos se tornam "mais importante". Ou então as mulheres "não foram capazes de utilizar as pistas euclidianas de maneira alguma", afirma Widman.

Quando Widman se sentou com seus alunos para discutir os resultados do projeto, algumas mulheres retrucaram de mau humor: "O que você está dizendo é que somos estúpidas". Ele tentou explicar que o teste identificou apenas "conjuntos diferentes de habilidades" - mas o cientista veterano de várias experiências com ratos se viu na mesma posição desconfortável em que estiveram pesquisadores antes dele, tentando explicar que os seus dados não tinham a intenção de servir como artilharia para a batalha dos sexos.

"Tem muita gente preocupada com a questão do preconceito: suponha, por exemplo, que se ficasse sabendo de forma genérica que as habilidades espaciais variam de acordo com o sexo, e certas pessoas começassem a dizer que as mulheres não podem ser pilotos de companhia aéreas porque, caso estiverem ovulando, poderiam se perder", afirma Steven Gaulin, antropólogo da Universidade de Pittsburgh, que publicou várias obras sobre psicologia evolucionária. "Pode ser que vejamos todo o tipo de tolices brotar em relação a esse assunto".

Talvez seja mais seguro perguntar o porque desse fenômeno. A explicação mais simplista é a hipótese do "subproduto": os hormônios fluem através dos fetos a fim de transforma-los em meninos ou meninas. Tão logo ficamos inteiramente formados, a maior parte do papel dessas substâncias está completo, e os efeitos que elas exercem sobre nós não têm mais sentido. Mas uma explicação mais popular, em vários setores, deriva da teoria evolucionária. No decorrer dos primórdios da história humana, homens e mulheres exerciam tarefas radicalmente diferentes - os homens viajavam longas distâncias com o objetivo de caçar, e aqueles que encontravam o caminho de volta viviam mais e geravam mais filhos, teoriza Irwin Silverman, psicólogo experimental da Universidade de York em Toronto. Segundo o modelo da "Divisão de Trabalho", as mulheres ficavam mais próximas ao fogo, cuidando das crianças e procurando plantas que podiam ser consumidas com segurança, o que poderia explicar as suas habilidades particulares: as mulheres são melhores que os homens quanto à tarefa de escolher pares de objetos que se encaixam, e em reconhecer quando os objetos mudaram de lugar ou foram removidos.

Mas há aqueles que franzem a testa ante a idéia de que os primeiros seres humanos do sexo feminino eram tão mais simples quando comparados aos machos da espécie.

"Creio que Irwin está errado", afirma Gaulin. "Ele nunca foi capaz de ser muito explícito quanto à natureza do diferencial de demandas relativo à caça e à coleta. A coleta não é um ato espacialmente fácil. Tomamos muitas cervejas discutindo essa questão".

Gaulin tem uma hipótese diferente, que se tornou conhecida como "o sistema de acasalamento". Ele acredita que um bom senso de direção conferiu aos humanos do sexo masculino uma vantagem reprodutiva - talvez porque os primeiros machos humanos, que se acredita que tenham sido, de forma geral, polígamos, foram forçados a "navegar" por longas distâncias para encontrar as suas parceiras. Para testar essa hipótese, ele procurou espécies estreitamente relacionadas nas quais um macho pudesse precisar de uma vantagem significativa em termos de habilidades de navegação enquanto que outro macho delas prescindisse. Ele terminou descobrindo os arganazes, pequenos roedores que podem ser monógamos ou polígamos, dependendo da espécie - e os observou com atenção para descobrir se tais habilidades seriam variáveis. A resposta foi positiva. Quando os pesquisadores colocaram dispositivos de rastreamento por emissões de rádio nos arganazes, descobriram que os machos polígamos se deslocavam por distâncias cinco vezes maiores do que as suas companheiras, enquanto que os machos monógamos possuíam o mesmo raio de ação - mais reduzido - que as fêmeas. E os arganazes monógamos, ao contrário dos polígamos, demonstraram ter um senso de direção que não era melhor do que o das suas companheiras.

Há quem rejeite ambas as explicações evolucionárias, fazendo notar que a tarefa cognitiva que possui o maior diferencial entre os sexos - a rotação mental de uma figura tridimensional - não era uma habilidade utilizada diariamente pelos primeiros humanos.

Gaulin reconhece ser incapaz de fornecer um motivo evolucionário para explicar porque as habilidades das fêmeas variariam de acordo com o ciclo menstrual.

"Simplesmente não sabemos porque", diz ele, acrescentando que não vai ficar especulando sobre os motivos. "Às vezes é muito fácil criar uma história simplista que explique tudo".


Tradução: Danilo Fonseca

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