Pílula para dieta é vinculada à morte de atleta

Stephens Smith


Para os norte-americanos típicos que procuram perder alguns quilos ou para os atletas de elite cujo objetivo é melhorar a performance nas pistas, a efedrina tem sido a esperança em formato de pílula, um suplemento natural disponível nas lojas de saúde da vizinhança por uns poucos dólares, vendida sob nomes populares como Metabolife e Dexatrim.

Mas um exame médico realizado na última terça-feira na Flórida, que determinou que um produto a base de efedrina provavelmente contribuiu para a morte de um jogador de beisebol de 23 anos da equipe Baltimore Orioles por derrame cerebral certamente vai atrair uma atenção renovada para os riscos de saúde associados aos suplementos alimentares vendidos sem receita médica.

Os defensores da saúde pública já pediram que a comercialização da efedrina seja proibida, uma medida que afetaria uma linha de produtos que gera de US$ 1 bilhão (cerca de R$ 3,6 bilhões) a US$ 3 bilhões (cerca de R$ 10,8 bilhões) anualmente. Uma grande rede fornecedora de suplementos esportivos parou de vender a efedrina após uma onda de publicidade negativa sobre as pílulas. E, duas semanas atrás, um estudo feito em caráter emergencial por pesquisadores em São Francisco concluiu que, embora a efedrina seja responsável por menos de 1% do total de vendas de suplementos naturais, ela responde por 64% de todas as reações de saúde adversas relacionadas a esses produtos.

Os cientistas envolvidos no estudo concluíram que as pessoas que tomam efedrina correm um risco 200 vezes maior de sofrerem complicações resultantes do produto quando comparadas aqueles indivíduos que tomam outros suplementos. Segundo os estudiosos, as chances de se ter complicações associadas à efedrina são equivalentes à possibilidade de se sofrer de câncer do pulmão devido ao hábito de fumar.

"Nós temos certeza absoluta que o produto não é seguro", afirma Michael Slipak, professor de medicina, epidemiologia e bioestatística do Centro Médico para Veteranos de Guerra de São Francisco e autor de um estudo sobre a efedrina publicado na página da Internet da revista "Annals of Internal Medicine".

Steve Bechler, o jogador do Orioles, morreu na segunda-feira passada, um dia após a sua temperatura corploral ter subido bruscamente para 42º C durante um treinamento. Bechler, pesava 107 quilos e sofria de hipertensão. Após a realização de uma autópsia, o médico legista do Condado de Broward, na Flórida, Joshua Perper, chegou à conclusão de que o medicamento xenadrina, que Bechler estava tomando para perder peso, provavelmente contribuiu para a sua morte, que foi oficialmente atribuída à falência múltipla de órgãos.

Perper solicitou à Liga de Beisebol que proibisse o uso dos derivados da erva pelos atletas, seguindo os passos da Liga Nacional de Futebol Americano e do Comitê Olímpico Internacional.

Para os especialistas que investigaram a efedrina e as complicações causadas pela droga - problemas do coração, transtornos psiquiátricos e convulsões - o vínculo entre a efedrina e a morte do atleta não chegou a ser uma surpresa.

"A droga não está regulamentada e achamos que essa situação deveria mudar", disse Shlipak, de São Francisco. "Mas quanto ao remédio ser totalmente banido ou ser comprado somente com receita médica, isto é algo que cabe aos especialistas decidir".

Os pesquisadores californianos examinaram as complicações relatadas em 2001 pelos usuários da efedrina e seus médicos a quase 200 centros de controle de envenenamento em toda a nação. Segundo Shlipak, os cientistas ficaram "chocados" com o que descobriram.

A indústria de pílulas dietéticas vem operando em um território nebuloso desde meados dos anos 90, quando começaram a circular os primeiros relatos dando conta de que a droga composta fen-phen, de uso generalizado, foi responsável por episódios potencialmente fatais de danos às válvulas cardíacas. O fabricante das pílulas acabou desembolsando US$ 3,75 bilhões (cerca de R$ 13,57 bilhões) para pagar indenizações resultantes de processos na justiça.

As pílulas de efedrina têm sido um dos itens mais vendidos nas lojas de suplementos dietéticos, farmácias e supermercados - especialmente depois que o fen-phen foi retirado do mercado.

A efedrina promete reduzir o peso ao mesmo tempo em que aumenta a energia, lançando mão de uma propaganda bastante atraente para atletas como Bechler e também para quatro jogadores de futebol americano que morreram após tomar a substância. A Liga Nacional de Futebol Americano baniu o uso do produto entre seus atletas após a morte do jogador Korey Stringer, do Minnesota Vikings, embora a organização tenha afirmado que a proibição não estaria diretamente vinculada à morte do jogador. A efedrina foi encontrada no armário de Stringer após a sua morte, mas estudos toxicológicos não encontraram traços da substância no seu sangue.

Um sinal de como a confiança na efedrina ficou profundamente abalada foi a decisão tomada no mês passado pela fabricante de suplementos dietéticos EAS no sentido de cancelar a comercialização de produtos baseados em efedrina.

"Esta decisão foi tomada pela EAS com base no desejo do consumidor", disse em uma declaração Jim Heidenreich, vice-presidente de marketing da companhia. "Acreditamos que o consumidor está demonstrando forte preferência por produtos de controle de peso que não sejam a base de efedrina. E isso é bom tanto para os consumidores como para a EAS".

O Departamento de Serviços Humanos e de Saúde dos Estados Unidos solicitou à Rand Corporation que conduzisse uma ampla avaliação quanto à possibilidade de a efedrina realmente ser eficaz e sobre a hipótese de que ela causaria problemas de saúde. Os pesquisadores da Rand estão nos estágios finais da pesquisa e devem divulgar os resultados nos próximos meses, afirma Warren Robak, porta-voz da instituição da californiana.

A xenadrina, o suplemento que Bechler estava tomando, é fabricado pela Cytodyne Technologies, uma empresa de Nova Jersey voltada para produtos que prometem o emagrecimento e a melhora da forma física. A página da companhia na Web enaltece a xenadrina RFA-1 como sendo "o suplemento dietético número um dos Estados Unidos".

A companhia divulgou um comunicado na terça-feira no qual afirma que a xenadrina é segura e eficaz.

"Devido à falta de evidências médicas neste momento a Citodyne não está em condições de tecer comentários específicos sobre as circunstâncias relativas à trágica morte de Steve Bechler", afirmou a declaração da Citodyne. "Até que o relatório toxicológico esteja disponível, afirmar que Bechler algum dia utilizou xenadrina não passa de pura especulação, assim como a insinuação de que a xenadrina tenha de alguma forma contribuído para a sua morte".

Os fabricantes das pílulas para perda de peso juram ser capazes de reduzir alguns quilos de gordura, citando inúmeras pesquisas. Mas tais pesquisas estão sendo alvo de críticas científicas - e, em certos casos, de processos na justiça.

A estrutura química da erva explica porque ela pode ser tão problemática quando administrada em altas doses - e especialmente quando utilizada por indivíduos com problemas cardíacos, afirma Robert J. Myerburg, diretor da divisão de cardiologia da Universidade de Miami. A efedrina faz com que os vasos sangüíneos se contraiam, tornando mais difícil a dissipação do calor corporal. Em casos extremos - e especialmente quando a efedrina é utilizada em conjunção com a cafeína - esse estreitamento vascular se torna tão intenso que o calor fica aprisionado no corpo, elevando a temperatura corporal interna a níveis tão altos que os principais órgãos começam a falhar.

"E é aí que acontecem as fatalidades", conclui Myerburg.


Tradução: Danilo Fonseca

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