Analistas questionam preparação das tropas americanas

Robert Schlesinger
The Boston Globe

As vestes de proteção são mais leves e duráveis. As máscaras contra gases proporcionam maior vedação quando colocadas sobre a face. Os detectores de agentes químicos são projetados no sentido de evitar os falsos alarmes que afligiram as tropas dos Estados Unidos durante a Guerra do Golfo.

Em grande parte devido aos aperfeiçoamentos conseguidos nos últimos doze anos, os estrategistas militares afirmam que os soldados dos Estados Unidos que se concentram na região do Golfo Pérsico estão bem preparados para se protegerem contra qualquer ataque com armas químicas ou biológicas, que o governo Bush e o Reino Unido insistem em dizer que o Iraque possui, apesar de Bagdá negar insistentemente que isso seja verdade.

Mesmo assim, alguns especialistas militares e membros do Congresso continuam preocupados com a possibilidade de que as tropas que lutariam contra o Iraque não estejam adequadamente preparadas, especialmente devido a um histórico de treinamento precário nos últimos meses. Uma auditoria do exército completada em julho do ano passado revelou que a maior parte das unidades selecionadas aleatoriamente não estava bem treinada para utilizarem as vestes de proteção. Uma série de estudos encomendados pelo Congresso fez com que se chegasse à mesma conclusão.

As armas de destruição em massa continuam sendo a maior ameaça a uma força invasora. Em 1988, o Iraque utilizou armas químicas para matar pelo menos 5.000 civis curdos na cidade de Halabja, ao norte do país. Mas a capacidade do Iraque para utilizar tais armas de forma efetiva em uma guerra liderada pelos Estados Unidos depende da sua habilidade -bastante incerta- de localizar e alvejar as forças norte-americanas de rápida movimentação, da possibilidade de a quantidade de tais agentes ser suficiente para saturar os campos de batalha, e até mesmo das condições do tempo, que poderiam fazer com que os aerossóis letais se dispersassem ou se dissipassem.

"Poderíamos pensar em um cenário mais positivo com relação aos programas de armas de destruição em massa, segundo uma ótica iraquiana, e nesse caso, não gostaríamos de estar nas unidades militares dos Estados Unidos visadas pelo inimigo", afirma Owen Cote, especialista em defesa do Instituto de Tecnologia de Massachusetts. "Mas isso não nos deteria... Não me importo com o armamento que eles possuam, podem haver baixas nessas unidades, mas isso não iria deter a guerra".

Cada membro das unidades militares dos Estados Unidos enviadas para a região do Golfo Pérsico dispõe de pelo menos duas das novas vestes de proteção, e os fuzileiros navais possuem três. O conjunto de duas peças, semelhante a trajes leves de esqui, são menos incômodos do que aqueles utilizados na Guerra do Golfo. A nova veste possui estofamento de carvão para neutralizar os agentes nocivos. As forças armadas estão mantendo um estoque emergencial da antiga versão -duas vestes para cada soldado- como reservas.

As novas vestes podem ser usadas por 45 dias após serem removidas das suas embalagens a vácuo, mas, tão logo sejam expostas a um agente químico ou biológico, devem ser trocadas dentro de 24 horas.

Segundo o Departamento Geral de Contabilidade, o braço investigativo do Congresso, as forças armadas não estão conseguindo apontar o paradeiro de cerca de 250 mil vestes mais antigas de um lote defeituoso, que tinham pequenas rasgadelas. Oficiais militares dizem que as vestes foram utilizadas em exercícios de treinamento e destruídas.

Os críticos alegam que no lote de vestes de reserva no Golfo podem estar incluídas as 250 mil defeituosas. Mas, segundo o general Stephen V. Reeves, oficial executivo do programa de Defesa Biológica e Química do Pentágono, o lote foi inspecionado para garantir que não contém roupas rasgadas.

As tropas dos Estados Unidos também receberam novas máscaras. Elas proporcionam um maior campo visual, contém uma peça de silicone que promove maior vedação do que a junta de borracha da máscara antiga, e um dispositivo que indica se a vedação é perfeita.

Além disso, as forças armadas contam com vários novos sistemas elaborados para detectar agentes químicos ou biológicos, a fim de que não se gerem tantos alarmes falsos quanto na Guerra do Golfo, onde os antigos dispositivos confundiram inseticida e fumaça de óleo diesel com armas químicas. Um novo detector de agentes biológicos foi instalado nos veículos Humvee, e um outro é capaz de detectar nuvens de agentes químicos a 4,8 quilômetros de distância.

"Nossos jovens soldados são bem treinados e estão prontos, e o seu equipamento é de primeira categoria", diz o general John C. Doesburg, chefe do Comando de Armas Químicas e Biológicas do Exército.

Mas certos oficiais militares reconhecem que os novos detectores não são infalíveis.

"As leis da física e da química neste planeta restringem a nossa capacidade de impedir que aconteçam falsos alarmes", diz o coronel Thomas W. Spoehr, que comanda a Terceira Brigada Química na Escola Química do Exército.

No decorrer dos últimos anos, relatórios divulgados pelo Departamento Geral de Contabilidade, pelos auditores do exército e pelos inspetores gerais do Departamento de Defesa criticaram a inadequação do treinamento militar para a guerra química e biológica. Em julho, uma auditoria do exército teria descoberto que 18 dentre 25 unidades militares selecionadas aleatoriamente em duas bases não estavam adequadamente preparadas para utilizar o equipamento de proteção.

"Não estou convencido de que o realismo e o grau de treinamento necessário no nível das unidades militares, da base até o topo da hierarquia, incluindo os altos escalões, seja algo comum", disse Raymond J. Decker, do Departamento Geral de Contabilidade, perante a subcomissão de Reforma do Governo, no Congresso, ao falar sobre segurança nacional, em outubro do ano passado.

"Nossas auditorias detectaram deficiências", disse Joseph E. Schmitz, inspetor geral do Departamento de Defesa, na mesma audiência. Mas ele também observou que "dentre as unidades que estão atualmente posicionadas, as que contam com maior probabilidade de correr riscos advindos das armas de destruição em massa são aquelas mais bem treinadas e equipadas".

Spoehr, o comandante da brigada química, disse que as deficiências anteriores quanto ao treinamento foram reconhecidas e que oficiais responsáveis "tomaram ações corretivas no sentido de remediar cada uma dessas deficiências".

Oficiais militares frisam que as tropas enviadas ao Golfo foram treinadas durante meses para a sua missão no Iraque, incluindo como se protegerem de ataques químicos e biológicos.

"É como a situação do indivíduo que fez o exame final na noite anterior. Isso faz com que se sintam um pouco desconfortáveis", diz o deputado Christopher Shays, republicano de Connecticut, que foi o presidente da audiência no Congresso, em outubro. "No momento, será que eu acredito que eles estejam prontos? Não", disse ele na segunda-feira. "Mas se me perguntarem se acho que os soldados estarão prontos, a minha resposta é sim".

Independentemente das questões relativas ao nível de prontidão dos Estados Unidos, o Iraque terá dificuldades para lançar ataques com armas químicas e biológicas.

"Armas químicas e biológicas não são agentes exatamente práticos no campo de batalha no que diz respeito à letalidade", diz Reeves, do programa de Defesa Química e Biológica. "É realmente necessário contar com os meios corretos de lançamento desses agentes, e também é preciso que as condições meteorológicas sejam favoráveis".

A luz do sol intensa mata alguns agentes biológicos. E alguns agentes nervosos, tais como o VX, são elaborados para durar dias ou semanas, mas as temperaturas excessivamente altas ou baixas podem reduzir esse período.

No passado o Iraque utilizou artilharia, foguetes, mísseis e aeronaves para lançar esses agentes, mas cada um desses sistemas provavelmente terá eficácia limitada.

Os iraquianos possuem aeronaves não tripuladas capazes de pulverizar agentes químicos e biológicos no ar, mas eles terão que enfrentar a superioridade aérea norte-americana. Os mísseis Scud demonstraram ser armas pouco confiáveis para o Iraque durante a Guerra do Golfo. E há também problemas com a artilharia e os foguetes -acredita-se que o Iraque não conte com dispositivos precisos de mira, especialmente contra tropas dispersas e de movimentação rápida. Parece improvável que os iraquianos sejam capazes de lançar uma grande quantidade de agentes químicos e biológicos, capaz de ter um impacto decisivo nos campos de batalha, dizem os especialistas em defesa.

"Com os radares rastreadores de projéteis que as forças dos Estados Unidos utilizam para localizar armas inimigas, a precisão das peças de artilharia norte-americanas e o terrível poder de fogo de nossos lançadores múltiplos de foguetes, a maior parte das baterias de artilharia iraquianas terá sorte se conseguir lançar mais do que uns poucos ataques antes de serem silenciadas pelas armas norte-americanas", escreveu no seu livro "The Threatening Storm: The Case for Invading Iraq" ("A Tempestade Ameaçadora: A Justificativa para Invadir o Iraque"), Kenneth Pollack, ex-analista militar da CIA para o Golfo Pérsico.

Se as forças dos Estados Unidos puderem identificar e localizar o sistema de artilharia utilizado contra elas, afirma Doesburg, "nós o atacaremos e destruiremos".

Tradução: Danilo Fonseca

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