Choque com forças americanas pode prejudicar a paz geral

Indira A.R. Lakshmanan


CABUL - Forças americanas entraram em choque com combatentes leais a um chefe guerreiro afegão num incidente que poderá fazer o comandante renegado, um ex-aliado dos Estados Unidos, voltar-se contra os americanos e minar a frágil paz em uma delicada área de fronteira, disseram autoridades afegãs na segunda-feira.

Houve relatos diferentes sobre o combate, que pode ter matado até 13 homens desse líder, incluindo seu filho mais velho.

O combate ocorreu na manhã de domingo, quando forças especiais dos Estados Unidos que patrulhavam um trecho da estrada entre Gardez e Khost, no sudeste do Afeganistão, se viu sob o fogo de dez a 20 atacantes desconhecidos, o que levou os americanos a solicitar um helicóptero Apache, disse o porta-voz militar americano coronel Roger King.

King disse que nenhum soldado americano foi ferido, mas um dos atacantes aparentemente foi morto. Um assessor do chefe guerreiro disse que 11 pessoas morreram.

Segundo King, os homens poderiam ser seguidores de Padshah Khan Zadran -também conhecido como Bacha Khan-, que já foi um dos maiores aliados dos Estados Unidos na luta contra os taliban.

Khan Zadran afastou tanto o governo afegão quanto os americanos ao disparar foguetes contra cidades para diminuir o poder de seus rivais, incluindo um famoso ataque a Gardez em que 13 pessoas morreram. Seus métodos brutais levantaram dúvidas sobre o julgamento dos militares americanos na escolha de seus aliados no Afeganistão; ele foi excluído da coalizão no último outono. Mas seus milicianos ainda atuam, efetuando bloqueios de estradas, e a população se queixa de assédio, extorsão e seqüestros.

Ghamai Khan, um alto assessor de Khan Zadran, confirmou que o combate envolveu os homens do chefe renegado e garantiu que helicópteros e jatos americanos atacaram um posto de controle em Set-Kandaw sem provocação. O assessor disse que a luta durou quatro horas e custou a vida de dez homens de Zadran, incluindo seu filho mais velho, Jalani Khan. "Soldados americanos e afegãos atacaram nossas tropas. Não sabemos por quê", disse o assessor.

O general-brigadeiro Gul Haider, comandante afegão oficial da zona sul, questionou o relato do assessor, dizendo que forças americanas e afegãs revidaram depois de sofrer uma emboscada, e que 13 homens de Zadran foram dados como mortos.

O incidente foi o segundo choque entre forças americanas e homens de Zadran neste mês, aumentando a preocupação de que o chefe guerreiro -que nunca criticou os Estados Unidos, apesar de ter sido afastado- agora os considere inimigos. Em 12 de março, cinco ou seis de seus soldados foram mortos em um incidente semelhante, e ambos os lados disseram que o outro havia começado.

Em uma entrevista antes do último choque com forças americanas, Haider disse que Khan Zadran está "isolado por sua tribo. O Ministério da Defesa tem condições de derrotá-lo completamente, mas por que nos envolveríamos em uma campanha para derrubá-lo se ele não representa uma ameaça para o governo?"

Também na segunda-feira, oficiais americanos disseram que soldados que vasculhavam as montanhas Sami Ghar na província de Kandahar, sul do Afeganistão, descobriram um dos maiores depósitos de armas já encontrados desde o início da guerra contra o terror.

O esconderijo localizado no sábado em Sekangarkay continha 170 foguetes de 107mm, dois morteiros de 82mm, 400 rodadas de morteiros, duas metralhadoras pesadas, dois canhões antiaéreos, milhares de granadas lançadas por foguetes com oito lançadores e milhares de rodadas de metralhadora, disse King.

"Ainda estamos contando" as armas, disse o tenente-coronel Michael Shields, oficial de operações sênior. "Na história recente, o volume disso é significativo."

Dois homens foram detidos nas proximidades, elevando a quatro o total desde o início da Operação Ataque Valente, na quinta-feira, disse King. Os dois outros foram encontrados com literatura de recrutamento e cartões comerciais talibans, juntamente com armas, uniformes e sacos de dormir militares, ele disse.

A busca intensificada por redutos talibans e da al-Qaeda no sul do Afeganistão, perto da fronteira paquistanesa, começou uma hora antes do início da guerra no Iraque. Está sendo interpretada pelos afegãos como um sinal de que os Estados Unidos não vão negligenciar a guerra contra o terrorismo no país enquanto estiverem envolvidos no Iraque.

Oficiais afegãos disseram que 13 pessoas foram detidas desde o início de duas operações americanas em Kandahar na semana passada. King informou que sabia apenas de uma operação, mas reconheceu que a CIA e outras agências podem estar realizando missões.

Enquanto isso, forças de segurança afegãs encontraram um esconderijo de armas em 19 de março que acreditam "se destinar ao uso contra a base aérea de Bagram", o quartel-general dos militares americanos, disse o ministro do Interior do Afeganistão, Ali Jalali. Segundo ele o arsenal incluía 106 mísseis terra-terra.

Também na segunda-feira King disse que os restos mortais de seis membros da força aérea americana serão transferidos para a base aérea de Bagram e para os Estados Unidos, depois da queda de seu helicóptero durante uma missão médica na noite de domingo.

O helicóptero HH-60G Pave Hawk do 41º Esquadrão de Resgate da base da força aérea Moody, na Geórgia, estava a caminho de recolher duas crianças afegãs feridas quando caiu durante uma tempestade na província de Ghazni, no sudeste. Foi o pior acidente de helicóptero até hoje no Afeganistão, disse King.

O acidente eleva a quase 60 o número de militares americanos mortos no Afeganistão, mais da metade dos quais morreram em operações fora de combate.

"Você pensa nos sacrifícios que esses homens fizeram -quando você vê militares realizando um vôo que é basicamente uma missão humanitária", disse King. "Eles estavam tentando salvar a vida de crianças afegãs. É devastador."

Em 30 de janeiro, um helicóptero Black Hawk do exército caiu durante uma missão de treinamento perto da base de Bagram, matando quatro pessoas.


Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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