Excesso de peso está vinculado a mortes por câncer

Raja Mishra


Pessoas obesas enfrentam riscos consideravelmente maiores de morrer de câncer do que aquelas com peso corporal saudável, segundo um estudo que estima que 90 mil mortes por câncer poderiam ser evitadas anualmente caso os norte-americanos que estão acima do peso emagrecessem.

Com a obesidade em ascensão nos Estados Unidos e outras nações industrializadas, as conclusões contidas no estudo indicam que o número de mortes relacionadas a vários tipos de câncer em breve aumentará, em alguns casos de forma drástica. Os homens obesos, por exemplo, tem uma probabilidade quatro vezes maior de morrerem de câncer do fígado do que os magros, segundo pesquisadores da Sociedade Americana do Câncer, com sede em Atlanta, na Geórgia. Já as mulheres obesas correm um risco seis vezes maior de morrerem de câncer do útero.

O estudo, publicado na edição desta quinta-feira do "New England Journal of Medicine, revelou que o excesso de peso responde em média por 14% de todos os casos de mortes por câncer entre homens norte-americanos e 20% entre as mulheres.

"Obviamente, essa é uma outra razão para que se procure evitar a obesidade, como se mais um motivo fosse necessário", afirma Hans-Olov Adami, epidemiologista de câncer do Instituto Karolinska, na Suécia. "Talvez o câncer seja uma doença mais assustadora para a população, e quem sabe essa mensagem seja mais persuasiva".

Segundo especialistas, embora o vínculo entre obesidade e câncer já fosse conhecido, o estudo foi o mais completo até o momento, acompanhando mais de 900 mil pessoas durante 16 anos. Cerca de 57 mil morreram de câncer, sendo que os indivíduos extremamente obesos apresentaram uma probabilidade 50% maior de se encontrar neste grupo. De acordo com o estudo, essa tendência mostrou ser verdadeira para todos os principais tipos de câncer.

O estudo evidenciou a ligação entre a obesidade e oito tipos de câncer aos quais os pesquisadores não vinham dando muita atenção: cervical, ovariano, mieloma múltiplo, linfoma, pancreático, do fígado, do estômago e da próstata.

Com a obesidade já sendo uma das causas para os riscos elevados de se sofrer de doenças cardíacas, diabetes e derrame, os especialistas afirmam que os novos resultados se constituem em mais uma razão poderosa para que se solicite aos norte-americanos - segundo estudos, 30% da população dos Estados Unidos é obesa - que adotem estilos de vida mais saudáveis.

Um fator central para as novas descobertas foi o indicador de saúde conhecido como índice de massa corporal. Esse número, uma medida padrão da gordura corporal, pode ser calculado ao se dividir o peso, em quilogramas, pela altura, em metros, ao quadrado. Aqueles com índice de massa corporal acima de 30 são considerados obesos; os que tem entre 25 e 29 estão acima do peso. Índices abaixo de 25 são tidos como saudáveis. Os indivíduos com índice de massa corporal superior a 40 sofrem de obesidade mórbida. Assim, um indivíduo que tenha 1,75 m de altura e pese 95 quilos é obeso, com um índice de massa corporal de cerca de 31.

Segundo o estudo, homens obesos com índice de massa corporal entre 35 e 39 têm uma probabilidade 20% maior de morrerem de câncer do que aqueles de menor peso. Já os homens extremamente obesos, com um índice de massa corporal maior que 40, tem uma probabilidade 52% maior de morrerem vitimados pela doença.

Segundo o estudo, os homens obesos correm um risco extremamente maior de morrerem de câncer do fígado, pâncreas, estômago, esôfago, cólon, reto e vesícula.

As mulheres obesas com índice de massa corporal superior a 40 correm um risco 62% maior de morrer do que aquelas de peso normal, e são especialmente propensas a falecer devido a cânceres do útero, rim, pâncreas e esôfago.

Mas os motivos para tal risco elevado ainda não estão inteiramente claros.

Especialistas em câncer dizem que em geral é mais difícil diagnosticar o câncer em indivíduos obesos, o que possivelmente possibilita que a doença se desenvolva por mais tempo antes de ser detectada - aumentando assim o número de mortes.

"A obesidade faz com que seja mais difícil se chegar a um diagnóstico por meio de exames", afirma Robert J. Mayer, do Instituto do Câncer Dana-Farber, em Boston. "Certas pessoas obesas não cabem dentro de máquinas de exame."

Mayer destacou que as pessoas obesas são também mais difíceis de serem tratadas. As cirurgias para a remoção de tumores malignos são mais complexas quando o cirurgião precisa cortar camadas de gordura. E a quimioterapia, uma ciência precisa na qual os médicos precisam administrar aos pacientes doses específicas de drogas contra o câncer, é um procedimento mais complicado naqueles indivíduos com excesso de tecido corporal.

Mas as pessoas obesas podem ainda apresentar várias complicações físicas que fazem com que tenham, desde o princípio, mais probabilidade de sofrer de câncer. Os obesos têm níveis altos de açúcar no sangue, o que gera índices elevados de um hormônio chamado fator de crescimento derivado da insulina, que se suspeita que seja cancerígeno. Os indivíduos obesos também são mais susceptíveis a sofrer de refluxos ácidos, o que aumenta os riscos de câncer do esôfago.

As mulheres obesas têm probabilidade de apresentar altos índices de estrogênio, o que pode elevar o risco de câncer. Os especialistas perceberam que o estudo revelou a existência de índices elevados de câncer do útero e da mama em meio às mulheres obesas. Ambos os cânceres estão associados a níveis elevados de estrogênio. Mas os pesquisadores afirmam que o estudo sugere que são necessárias mais pesquisas a respeito do vínculo entre níveis elevados de hormônio e o câncer.

"Temos que admitir francamente que a nossa compreensão do problema neste estágio é bastante incompleta", afirma Adami, do Instituto Karolinska.

Mas Adami e outros dizem que o crescimento dos índices de obesidade nos Estados Unidos e outros países ocidentais significa que as mortes pelo câncer aumentaram drasticamente no futuro. Um estudo realizado pelo governo federal em 2002 revelou que 31% dos adultos norte-americanos têm índice de massa corporal maior que 30. Esse número era de 23% entre 1988 e 1994.

A obesidade extrema, com índices de massa corporal acima de 40, aumentou de 3% para 5% entre a população adulta no mesmo período. Os negros e hispânicos foram os que apresentaram os maiores índices de obesidade.


Tradução: Danilo Fonseca

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