Pesquisa financeira também será feita no exterior

Hiawatha Bray

O JP Morgan Chase & Co. planeja transferir parte de seu trabalho de pesquisa sobre o mercado de ações para Mumbai, neste verão. A medida assinala possíveis novas arenas para essa tendência que já enviou dezenas de milhares de empregos em tecnologia para fora do país, nos últimos anos.

Uma gigantesca contratação no exterior poderia resultar em importantes perdas de vagas nos EUA, no setor de serviços profissionais. A firma de consultoria A.T. Kearney Inc, na semana passada, divulgou uma pesquisa com 100 grandes firmas americanas, entre casas de corretagem, bancos e seguradoras. Segundo os resultados, meio milhão de empregos em serviços deverão ser transferidos para outros países nos próximos cinco anos - 8% do total de vagas no setor.

A prática poderá se disseminar pelas empresas de serviços financeiros e firmas de consultoria comercial, pelas mesmas razões que empresas de software, como a Microsoft Corp. e IBM Corp., estão aumentando seu uso de trabalho no exterior. Países como a Índia oferecem custos trabalhistas pronunciadamente menores, enquanto fornecem trabalhadores com excelente conhecimento técnico e financeiro. Por exemplo, em 2001, quem se graduou pelos prestigiados Institutos de Tecnologia da Índia podia esperar receber salário de apenas US$ 12.000 (cerca de R$ 36.000) por ano, comparado com um salário inicial médio de US$ 102.338 (aproximadamente R$ 307.000) para graduados da Harvard Business School.

Na semana passada, o JP Morgan, que tem sede em Nova York, anunciou que os relatórios de pesquisa que prepara para os investidores em ações serão, em breve, desenvolvidos por funcionários graduados de escolas indianas, trabalhando em Mumbai. A.T. Kearney, por sua vez, disse que grande parte de sua pesquisa já está sendo feita por trabalhadores indianos.

"Estamos falando de um pessoal altamente educado, com diplomas avançados e que é muito motivado", disse a diretora de gerenciamento da A.T. Kearney, Andréa Bierce.

Durante décadas, empresas que prestavam serviços financeiros, como Citigroup e GE Capital, transferiram parte de suas atividades para o exterior. Tradicionalmente, o trabalho enviado para fora, porém, envolvia tarefas relativamente de baixo nível, como inserir gigantescos volumes de dados em computadores ou executar simples atividades de contabilidade. Essa tendência acelerou-se nos últimos cinco anos, enquanto as empresas procuravam cortar custos para continuar competitivas.

No entanto, esse movimento de transferência da pesquisa financeira para o exterior acontece em momento sensível para Wall Street. Na semana passada, 10 grandes bancos de investimento chegaram a um acordo de US$ 1,4 bilhão (cerca de R$ 4,2 bilhões) com o departamento de fiscalização, que procura proteger os investidores de pesquisas fraudulentas. Não ficou claro se esse acordo apressará o uso de trabalho de analistas estrangeiros.

"Com o mercado de instituições financeiras em baixa, as instituições financeiras não estão tendo os rendimentos que esperavam. Assim, tiveram que procurar formas de reduzir os custos", disse Bierce.

De fato, há um ano, A.T. Kearney transferiu grande parte de sua própria pesquisa para a Índia. "Uma das razões foi reduzir os custos gerais", disse Bierce. "Mas também tiramos vantagem da diferença de horário". Ela pode enviar um pedido de dados a um colega na Índia, que está trabalhando enquanto ela está em casa. Na manhã seguinte, a informação já está esperando por ela em sua caixa postal.

Outra firma de pesquisa, Deloitte Consulting, disse que a expansão do recrutamento de serviços no exterior não se limita aos EUA. No mês passado, o analista da empresa, Christopher Gentle, previu que as firmas financeiras das principais nações industrializadas transferirão um total de 2 milhões de empregos para países onde os salários são mais baixos, nos próximos cinco anos. Metade desses empregos devem ir para a Índia. Gentle estimou que a mudança poderia causar uma economia de US$ 138 bilhões (cerca de R$ 414 bilhões) por ano para as 100 maiores firmas do mundo, a partir de 2008.

O porta-voz da JP Morgan Chase disse que sua empresa não demitirá analistas americanos para contratar MBAs indianos. Ao invés disso, os funcionários indianos farão as análises mais maçantes dos números, liberando os americanos para se concentrar em análises financeiras de mais alto nível e permitindo que tenham mais tempo com os clientes. "Não apenas vamos aumentar a produtividade dos analistas dentro dos EUA, mas diminuir os custos de todo o departamento", disse Marchiony.

Não se sabe se os investidores vão aceitar conselhos financeiros baseados em análises feitas fora do país. O setor está atualmente trabalhando sob uma nuvem de escândalos. Acusações que analistas importantes deram informações imprecisas aos investidores para ajudar suas firmas a conquistar negócios de bancos de investimentos levaram ao acordo da semana passada entre reguladores e corretores.

No entanto, o porta-voz da SEC (a CVM americana), John Heine, disse que o fato da análise ser feita no estrangeiro não deveria importar para os investidores, porque não importa para os reguladores. "Se a pesquisa está sendo utilizada como produto de um banco de investimento, ele deve se responsabilizar por ela", disse Heine. "Não importa onde trabalham as pessoas que montaram o produto".

Por enquanto, outras grandes empresas financeiras não parecem ter pressa em seguir a JP Morgan Chase. Representantes da Fidelity Investments e Putnam Investments disseram que as firmas há muito têm analistas fora dos EUA, mas não para reduzir os custos trabalhistas. Ambas dizem que não têm planos de transferir o trabalho de análise para a Índia ou outros centros de mão-de-obra barata. Respostas similares vieram da Merrill Lynch & Co., Solomon Smith Barney e Goldman Sachs. Deborah Weinberg

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