Decisão judicial que permite casamento entre homossexuais gera polêmica

Mark Jurkowitz

A tinta mal tinha secado no texto da decisão da última terça-feira, tomada pela Suprema Corte Judicial de Massachusetts, a respeito de casamentos entre homossexuais, quando o programa "Crossfire", da rede de televisão CNN, colocou frente à frente, para discutir a questão, o reverendo Jerry Falwell, fundador da instituição conservadora Moral Majority, e o deputado Barney Frank, que é gay assumido.

"Qual é o problema em duas mulheres se amarem e desejarem se casar?", perguntou Frank. Falwell rebateu, dizendo que o Estado está sendo utilizado para "sancionar a perversão moral".

Como era de se esperar, a decisão judicial gerou argumentos acalorados e polarizados, mas debates como aquele travado no "Crossfire" não refletem a reação geral. A troca de farpas retóricas, que se acreditava que dominariam as páginas de opinião e os microfones, não se materializou na quarta-feira. Alguns analistas sugeriram que a polêmica quanto aos casamentos homossexuais não provocariam uma guerra cultural generalizada na mídia.

Rush Limbaugh, é claro, avaliou a questão, dizendo ao público que "ter filhos e criá-los é o principal motivo do casamento", e seria de se esperar que o casamento entre homossexuais alimentasse o mundo conservador dos debates no rádio. Mas Michael Harrison, editor da revista "Talkers", não acredita que o assunto faça estardalhaço na mídia neste momento em que o Iraque e a economia são as maiores preocupações.

"A questão gay não é tanto uma questão do tipo 'nós-e-eles', como poderia ser o caso com outros assuntos de natureza política, porque há uma assimilação da cultura gay em nossa cultura", afirmou. "A população tem opiniões diversas. Não é uma questão tão simples como poderia aparentar à primeira vista".

Um editorial do jornal "The Union Leader", de Manchester, New Hampshire, definiu o assunto como uma "bobagem enfeitada". Já o "San Francisco Chronicle" afirmou que trata-se de "um marco fundamental para a aceleração da aceitação do princípio de que o governo não deve discriminar os casais compromissados".

Mas várias publicações - do "The New York Times" ao "The Kansas City Star" - não deram destaque à questão no calor do momento. Chuck Todd, editor da publicação política do "Hotline", disse que os seus funcionários vasculharam os jornais diários do país e só encontraram cerca de 10 editoriais sobre o assunto. (Vários editores de páginas de editoriais procurados pelo "The Boston Globe" disseram que planejavam publicar editoriais na quinta-feira. O "Boston Globe" apoiou a decisão do tribunal na última quarta-feira).

Michael Young, diretor de mídia regional da Aliança de Gays e Lésbicas contra a Difamação, também observou a relativa ausência de comentários nos editoriais.

"Creio que o movimento antigay fará tudo que puder para fazer disso uma questão significativa", disse Young. "Não sei até que ponto ele será bem sucedido. Direitos iguais para gays e lésbicas é um tópico não prioritário na lista de preocupações atuais do povo norte-americano".

Porém, em alguns setores a polêmica foi intensa. Um editorial do "USA Today" declarou: "Uma nação que proclama a sua dedicação à igualdade para todos não pode admitir distinções legais entre parceiros gays e heterossexuais, que se amam e são fiéis da mesma maneira".

Mas o jornal também publicou a visão discordante do Conselho de Pesquisas sobre a Família, segundo a qual "ao autorizar a concessão de licenças de casamento a casais homossexuais, esse tribunal desafiou não só a tradição, mas também a democracia e o senso comum".

O colunista Cal Thomas disse que "o que está acontecendo em nossa cultura é uma demolição de tudo aquilo que considerávamos como normal". Mas no seu site na Internet, o comentarista Andrew Sullivan contra-argumentou: "Não creio que uma pessoa homossexual seja um ser humano de pior qualidade - sob o ponto de vista moral, psicológico e espiritual - do que um indivíduo heterossexual".

Alguns membros mais famosos da classe mais culta demonstraram uma visão mais ambivalente. No seu show da última terça-feira, Bill O'Reilly, do Fox News Channel, opinou: "Os juízes não têm o direito de encontrar brechas na lei e impor os seus pontos de vista a ninguém".

Mas ele também reconheceu: "Pessoalmente, não me preocupo nem um pouco com o casamento entre homossexuais. Se Tommy e Vinny ou Joanie e Samantha quiserem se casar, não vejo isso como uma ameaça nem a mim nem a ninguém". A seguir, O'Reilly falou sobre a grande notícia do momento: a busca policial na propriedade de Michael Jackson.

Genevieve Wood, vice-presidente de comunicações do Conselho de Pesquisas sobre a Família, viu o escândalo de Michael Jackson jogar para segundo plano a decisão quanto ao casamento de homossexuais, e disse que uma questão que "vai redefinir a família nos Estados Unidos" pode ser muito densa para receber atenção de verdade no universo da mídia atual.

"Nós vivemos nesta cultura onde as notícias são superficialmente veiculadas", acrescentou. "E é difícil que haja um debate sério sobre algo tão significativo". Danilo Fonseca

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