É preciso tomar cuidado com brinquedos violentos

Hiawatha Bray

Esta época é cheia de grupos que vigiam pelo bem estar da família, que fazem listas dos muitos deleites natalinos que fazem mal à saúde. Não abusem da gemada, dizem; cortem os doces e balas; e, é claro, escolham com cuidado os brinquedos que colocam debaixo da árvore para seus filhos.

Essas organizações têm boa intenção e oferecem muitos bons conselhos. Mas a tentação de mandá-los para o espaço é quase irresistível. Quando um grupo como o de Professores Resistindo ao Entretenimento Infantil Nocivo de Boston aconselha os pais a se afastarem de veículos de resgate militares porque eles "equiparam a proteção com a violência", dá mesmo vontade de rir. Eles ainda não sabem: a proteção muitas vezes envolve a violência. Pergunte a um policial.

No entanto, qualquer pai ficaria perturbado se o Júnior passasse todas suas horas fingindo matar pessoas às dezenas. Milhões de jovens fazem exatamente isso, com a ajuda de alguns jogos populares de computador. Em alguns casos, os jovens continuam com os jogos em suas mentes, mesmo depois de desligada a máquina. Considere o terrível exemplo do último verão, quando dois adolescentes no Tennessee caminharam até uma auto-estrada e começaram a atirar com uma espingarda contra os carros. Uma pessoa saiu ferida; outra, morreu.

Claramente, são crianças perturbadas. Mas o que as perturbou? Quando foram presos, os jovens insistiram que não queriam matar ninguém, mas apenas imitar seu jogo favorito, o Grand Theft Auto, famoso por sua violência.

E foi assim que a produtora do jogo, Take Two Interactive, foi processada pela família da vítima assassinada. A família não teve dificuldades em encontrar um advogado para cuidar do caso. Jack Thompson, de Miami, tornou o combate a jogos de computadores ultraviolentos sua cruzada pessoal.

Thompson investiu contra as indústrias de jogos e de cinema em nome das famílias de três meninas assassinadas no tiroteio de 1997, em uma escola em Paducah, Kentucky. Thompson alegou que anos de exposição a jogos e filmes violentos tinham feito Michael Carneal puxar o gatilho -uma alegação que o próprio Carneal negou. Uma corte federal encerrou o caso.

Thompson acha que terá mais sorte com o caso de Tennessee, no qual os dois atiradores disseram que o jogo os inspirara. "Quando os próprios perpetradores ligam os pontos, isso ajuda", disse ele. "Tudo que você quer fazer é chegar ao júri, porque quando o júri vir o que há nesses jogos, ficará de cabelo em pé".

E tem razão. A maior parte dos jogos de computador populares não é violenta. E a maior parte dos jogos violentos coloca o sangue em um contexto moral, como os muitos jogos de guerra, nos quais o jogador atira contra nazistas ou terroristas -homens maus, que podem ser considerados merecedores de uma bala na cabeça.

Mas e o Grand Theft Auto? Nele, o jogador encarna um assassino brutal, que mata policiais e transeuntes, assim como seus amigos rufiões. O jogo é belamente produzido, altamente entretecedor e brutalmente amoral -um tripé de irresponsabilidade corporativa que deveria envergonhar todos envolvidos na sua criação e venda. E, é claro, é um presente dos deuses para pessoas como Thompson, dando-lhe munição para seu esforço de promover uma lei restringindo a venda de programas violentos.

Thompson disse que está trabalhando com um membro do conselho da cidade de Nova York, para criar uma regulamentação que proíba a venda de jogos violentos para menores de 17 anos. No entanto, leis similares em Missouri e Washington foram vetadas por juizes federais. Mesmo assim, Thompson se acha defensor da liberdade. "Sou realmente fã da Primeira Emenda", disse ele. Ao colocar limites nas vendas de jogos violentos para menores, diz ele, a indústria pode evitar a determinação de limites muito mais draconianos, no futuro. "Quando vier a próxima Columbine", disse ele, referindo-se ao pior tiroteio escolar do país, "o Congresso vai proibir todos esses jogos".

Segundo Douglas Lowenstein, presidente da Associação de Software de Entretenimento, maior grupo da indústria, isso não é provável. "É patente e indubitavelmente inconstitucional regular o conteúdo de jogos", disse. "Jogos de vídeo são uma forma de expressão protegida." De fato, as cortes federais disseram exatamente isso, várias vezes. Lowenstein adverte que, caso os tribunais mudem de opinião sobre a violência em jogos no futuro, podem começar a cortar a liberdade de expressão de jornalistas no dia seguinte.

Mesmo assim, ele concorda que existem jogos de computador que as crianças não deveriam jogar. O Conselho de Classificação de Software de Entretenimento coloca rótulos de advertência na maior parte dos títulos brutais, chamados "M", da inicial de "maduro". De acordo com a Comissão Federal de Comércio, 69% dos adolescentes conseguiriam comprar jogos de classe M sem ser acompanhados por pais.

"Há cinco anos estamos estimulando os comerciantes a não venderem jogos M para menores", disse Lowenstein. Mas foi apenas na semana passada que a Associação de Mercadores de Entretenimento Interativo, talvez levada pela controvérsia do Grand Theft Auto, anunciou que os membros iam começar a triar os compradores de jogos M para mantê-los longe de menores.

Uma medida sensível, mas que pode não adiantar muito. Lowenstein disse que 83% dos jogos usados pelos menores, inclusive os piores títulos, são comprados para eles por adultos. "Não há nenhuma lei criada pelo homem", disse ele, "que possa forçar os pais a serem responsáveis". Deborah Weinberg

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