Escândalos de ex-alunos faz curso MBA de Harvard reformular aulas de ética

Robert Weisman
EM BOSTON

Nesta época na qual os estudantes se defrontam com a onda de comportamentos impróprios que assola o mundo empresarial, a Escola de Administração de Empresas da Universidade Harvard está promovendo a mais completa reformulação do seu currículo de ética dos 95 anos da instituição.

A partir de janeiro, alunos do primeiro ano do MBA (mestrado em administração de empresas) de Harvard, universidade conhecida por formar alguns dos principais líderes empresariais do país, terão que fazer um novo curso de ética no segundo período de estudos.

A matéria interdisciplinar, denominada Leadership and Corporate Accountability (Liderança e Responsabilidade Corporativa), lecionada por dez professores para cerca de 900 alunos, incluirá estudos de casos ocorridos na Enron Corporation e na WorldCom Incorporation, assim como uma fita de vídeo com uma palestra do financista Warren E. Buffett aos funcionários da Salomon Brothers, em 1991, após o governo dos Estados Unidos ter acusado aquela firma de promover transações ilegais em um leilão do Departamento do Tesouro.

"Estamos procurando preparar os alunos para as responsabilidades da liderança nos negócios", explica Lynn Sharp Paine, professor de administração de empresas de Harvard, que fez parte da equipe encarregada de elaborar o novo curso de ética.

"O que estamos tentando fazer não é criar um novo conjunto de respostas corretas, mas fornecer aos alunos uma estrutura segundo a qual possam lidar com várias questões".

A Escola de Administração de Empresas de Harvard passou a reformular o seu currículo de ética no final dos anos 90, antes mesmo das revelações dos abusos financeiros que envolveram alguns famosos ex-alunos da instituição, como o ex-diretor executivo da Enron, Jeffrey K. Skilling.

Outros ex-alunos do programa de pós-graduação, como o ex-diretor-financeiro da Enron, Andrew Fastow (graduação na Universidade Northwestern) e o ex-diretor executivo da Rite Aid, Martin Gras (graduação na Universidade Cornell), também macularam a reputação dos seus diplomas de MBA obtidos em Harvard.

Mas, embora a idéia inicial não fosse uma resposta à onda de casos de conduta inapropriada, a decisão de Harvard de promover uma nova disciplina com a duração de um semestre letivo - no lugar de um módulo de ética com a duração de apenas três semanas - foi tomada após esses casos terem vindo à tona.

Grande parte do conteúdo da nova disciplina é ilustrada por esses episódios. No estudo do caso Enron, por exemplo, os alunos refletirão sobre como as inovações da companhia foram corrompidas e fatores como o seu sistema de compensação e as suas práticas de gerenciamento dos lucros contribuíram para o sucesso inicial da empresa e, depois, para a sua queda.

Outros casos e discussões abordarão a responsabilidade de diretores das empresas quanto aos processos de substituição da gerência, ao preço dos medicamentos de Aids em países em desenvolvimento e à forma como os executivos do setor farmacêutico manipulam pesquisas por eles patrocinadas que revelam que seus produtos representam risco à saúde.

"Esses escândalos certamente elevaram o nível de consciência das pessoas, e nos estimularam a prosseguir com nosso trabalho", diz Kim B. Clark, reitor da escola de administração de empresas, que contou que colegas de outras faculdades têm pedido para examinar o novo programa de ética de Harvard. "Esse é o programa de maior alcance que já formulamos sobre o assunto".

Juramento de Hipócrates

Outras faculdades de administração de empresas, que também reavaliam a maneira como lecionam ética na era pós-Enron, estão adotando abordagens diferentes. A Escola de administração de empresas Sloan, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), por exemplo, adicionou um módulo sobre ética e liderança ao seu programa e acrescentou disciplinas de ética a um currículo introduzido em setembro.

"Os alunos estão, sem dúvida, bastante alertas a essas questões", afirma Leigh G. Hafrey, professor de ética em Sloan, que participou de uma iniciativa de faculdades de administração de empresas de todo o mundo para criar nos cursos de MBA um equivalente ao Juramento de Hipócrates que é feito pelos médicos. "Eles reconhecem que a melhoria da imagem do setor vai afetar favoravelmente as suas perspectivas profissionais".

Na Escola Tuck de Administração de Empresas da Universidade Dartmouth, três ou quatro dias de palestras sobre ética feitas por líderes empresariais foram incluídos no currículo. Em Tuck, parte da motivação para que se expandisse a oferta de disciplinas de ética foi dos alunos.

"Alguns alunos procuraram o reitor no primeiro semestre deste ano e disseram que, devido a todos esses escândalos nas corporações, gostariam de aprender um pouco mais sobre ética", conta a porta-voz da instituição, Kim Keating.

Para ter sucesso, os novos programas de ética precisam abordar diretamente a questão da compensação dos executivos, algo que pode desviar os incentivos oferecidos dentro das companhias, sugere Robert A.G. Monks, reformador de gerenciamento empresarial de Portland, no Estado de Maine. Monks diz estar cético com relação aos esforços promovidos em Harvard e outras faculdades.

Compensando o Gerenciamento

"Deus os abençoe por tentarem; é algo terrivelmente importante", diz Monks, bacharel formado pela Escola de Direito de Harvard. "Mas é preciso que se avalie um programa de ética no contexto da cultura da Escola de Administração de Empresas de Harvard, que é muito favorável ao gerenciamento. A questão eticamente mais desafiadora na área de administração de empresas nos últimos dez anos é a do pagamento dos diretores executivos. O que Harvard vai ensinar aos seus alunos sobre essa questão?".

De fato, a Escola de Administração de Empresas de Harvard planeja estudar a maneira como as compensações e outros incentivos influenciam a cultura e a ética de uma corporação. Tais lições foram ensinadas no passado, mas, agora, "temos toda uma nova coletânea de exemplos", afirma Paine.

Nos últimos anos, enquanto que Paine e seu comitê elaboravam o novo curso de ética de Harvard, muitos dos seus conceitos e idéias foram testados em matérias optativas. A idéia era analisar a ética em contextos como globalização, privatização e o boom tecnológico. O curso examina as questões éticas sob a ótica do direito, da economia, da psicologia e do comportamento organizacional.

Paine diz que o novo curso será dividido em três partes: responsabilidade legal, ética e econômica das lideranças; responsabilidade corporativa; e valores pessoais e liderança responsável.

Embora algumas das discussões devam se concentrar nas decisões pessoais, Harvard vai encorajar também o debate e a pesquisa sobre como reformular estruturas corporativas, incentivos e regulamentações governamentais para evitar situações nas quais, por exemplo, analistas de mercado se sintam pressionados a alardear um valor inflacionado das ações para conseguir negócios para os banqueiros de suas firmas de investimentos.

"Certamente temos um problema com certas 'maçãs podres', que são as pessoas de má conduta", diz Clark. "Muita gente rompeu vários limites éticos. Mas, se examinarmos a questão a fundo, perceberemos que existe também um problema com o barril de maçãs. Há problemas sistêmicos que fazem com que pessoas boas sejam colocadas em posições nas quais os seus valores ficam comprometidos". Danilo Fonseca

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