Lidar com a questão racial é educar população branca, diz Howard Dean

Derrick Z. Jackson
EM CHARLESTON, CAROLINA DO SUL

"Estou procurando gentilmente chamar a atenção da população branca", disse Howard Dean. E o exemplo gentil que utilizou para isso foi uma história contada aos eleitores, de como a sua principal assessora - quando ele era governador de Vermont - sempre foi uma mulher. Após dois ou três anos, Dean percebeu que o seu gabinete se transformara em um "matriarcado".

Quando a assessora estava para contratar uma pessoa, Dean lhe disse que havia um desequilíbrio entre os sexos no gabinete, e perguntou se ela não poderia contratar um homem. "Ela me disse que era muito difícil encontrar um homem qualificado", conta Dean.

Essa foi a forma que Dean encontrou para quebrar o gelo e fazer com que os eleitores entendam o que é racismo institucional. "A questão importante nessa história é que todos tendem a agir da mesma forma. Todo mundo exibe essa tendência de contratar pessoas semelhantes a si. E, quando disse isso, todo mundo balançou a cabeça concordando comigo, incluindo os negros presentes".

Ele mencionou a seguir um consultor responsável por campanhas políticas em Washington. Após as eleições, o consultor foi contratado para montar a equipe de um dos políticos que conquistou uma cadeira na câmara municipal. "Na primeira reunião da equipe, antes do candidato eleito tomar posse, as pessoas olharam ao seu redor e perceberam que todos eram homens negros".

Esse era um Dean mais suave do que aquele criticado pelos concorrentes do Partido Democrata por ter dito que desejava conclamar aqueles indivíduos brancos que andam em caminhonetes exibindo uma bandeira dos Estados Confederados (união de Estados sulistas que tentaram se emancipar dos EUA em 1860 por discordar da abolição da escravatura; a iniciativa resultou na guerra civil). Apesar de todo o calor do momento, Dean disse que os democratas não podem fugir de uma discussão rude - ainda que "gentilmente rude" - sobre a questão racial.

"Lidar com a questão racial diz respeito a educar a população branca", disse Dean em uma entrevista na última terça-feira, em uma caravana eleitoral pelo primeiro Estado em que serão disputadas as prévias eleitorais, e onde os votos dos eleitores negros terão um grande impacto.

"Não é porque os brancos sejam piores que os negros, mas porque os brancos são a maioria, e, portanto, o seu comportamento tem uma influência muito maior do que o dos negros sobre as políticas empregatícias e outras práticas".

Não se sabe se o estilo de Dean terá grande influência sobre os eleitores brancos ou negros nas primárias, em relação, digamos, à experiência de Wesley Clark com a discriminação positiva ("affirmative action"; uma iniciativa do governo norte-americano para aumentar o acesso das minorias a educação e emprego) nas Forças Armadas, ou à retórica clintonesca e populista de John Edward.

Enquanto os republicanos capitularam ante o racismo nas campanhas presidenciais modernas, chegando a ponto de irem até a Universidade Bob Jones (universidade conservadora da Carolina do Norte, famosa por defender uma filosofia cristã fundamentalista) para afirmar que a nossa sociedade está tão próxima à harmonia racial que os programas do tipo discriminação positiva deveriam ser desmantelados, os democratas lutaram para encontrar uma mensagem que atraísse ao mesmo tempo os eleitores brancos e os de cor.

O último democrata a ocupar a Casa Branca, Bill Clinton, que era muito popular entre os eleitores negros, deu início a uma discussão nacional sobre a questão racial, mas a abandonou durante o escândalo Monica Lewinsky. Clinton também nunca contestou leis criadas pelos republicanos que tiveram um impacto desastroso sobre jovens negros e latinos, tal como aquela que impõe, para a posse de crack, penas de prisão obrigatória muito mais longas do que aquelas para o uso da cocaína em pó.

Dean não quer saber de discutir a era Clinton. Ele disse que, como presidente, procuraria por um fim às sentenças desproporcionais por uso de droga e à condenação obrigatória. Ele disse apoiar fortemente a discriminação positiva e que, talvez, as companhias que disputam contratos federais e que apresentem diversidade racial pudessem receber pontos preferenciais nas licitações.

Dean disse que medidas proativas ainda são necessárias para contrabalançar o preconceito inconsciente confirmado por vários estudos que mostram que a discriminação no trabalho continua a ser um grande problema. "Uma única geração não vai compensar 15 gerações de escravidão e de Jim Crow", disse Dean.

Dean contou que a sua própria educação sobre o racismo inconsciente teve início em Yale, onde se graduou em 1971. Ele tentava fazer com que uma criança de New Haven, a quem dava aulas particulares, aprendesse a falar o "inglês apropriado".

Um dos seus colegas negros da universidade lhe disse: "Por que você não deixa o garoto em paz?". Ele disse que acreditava na idéia liberal do establishment branco, segundo a qual, se os negros fossem iguais aos brancos, então todos ficariam bem. Algo como a filosofia dos republicanos. "É como se alguém dissesse que, se todos jogássemos golfe no mesmo clube campestre, não haveria mais problemas raciais".

Um outro momento importante foi durante um inverno, quando era calouro da universidade. Um dos seus colegas de quarto se tornou um líder da aliança estudantil negra, o que resultou em reuniões freqüentes de estudantes negros no seu quarto.

"De repente, durante uma dessas reuniões, percebi que era o único branco no quarto, e, literalmente, os cabelos da minha nuca ficaram eriçados. Isso porque pensei no que aconteceria se as coisas fossem sempre daquele jeito. Se em todos os lugares eu fosse o único branco no meio de uma multidão de negros. Por um instante conseguir vislumbrar o como é ser negro nos Estados Unidos".

Agora Dean quer que os norte-americanos brancos façam as mesmas perguntas sem que os cabelos de suas nucas se ericem. Caso tenha sucesso, isso realmente significaria uma mudança com relação a um dos problemas mais difíceis enfrentados pelos Estados Unidos. Danilo Fonseca

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