Temores religiosos levam muçulmanos a imporem obstáculos à luta contra a pólio na Nigéria

John Donnelly
EM BATAKAYE, Nigéria

Nesta aldeia de 3 mil habitantes, onde existem doze automóveis, um diplomado da universidade e nenhum telefone, o mutirão final para erradicar a poliomelite da face da terra está esbarrando num impasse.

Há vários meses, o vírus da poliomelite vem circulando e se alastrando de um quarteirão para outro, sendo transportando, com certeza quase absoluta, por um córrego fétido de água poluída por detritos humanos. As crianças bebiam dessa água, banhavam-se e brincavam nela, esfregavam suas mãos sujas nela, oferecendo a oportunidade perfeita para o vírus atacar. O vírus infectou quatro dos mais novos habitantes da aldeia, que perderam a capacidade de usar um ou dois membros.

O vírus prosperou no local, em parte por causa dos obstáculos habituais que costumam impedir um atendimento médico de melhor qualidade: lutas políticas intestinas, malversação do dinheiro e prováveis casos de corrupção. Mas, um fator adicional e incomum começou a exercer uma séria interferência neste processo nas aldeias, ao longo da "fronteira da vergonha" que separa os cristãos dos muçulmanos no oeste da África: os clérigos muçulmanos da região obrigaram os aldeenses a rejeitarem a vacina contra a pólio, alegando que esta faz parte de um "complô americano".

No ano passado, em centenas de comunidades do norte da Nigéria similares a Batakaye, líderes muçulmanos limitaram ou interromperam de vez a vacinação contra a pólio em domicílio. Eles disseram aos milhões de fiéis desta região onde predominam muçulmanos que a governo americano havia infectado a vacina, ora com drogas causando infertilidade, ora com o vírus HIV, com objetivo de espalhar a Aids. Mais tarde, vários testes em laboratório realizados por firmas independentes comprovaram que essas declarações eram falsas.

Alguns líderes admitiram em entrevistas, no final do ano passado, que nunca acreditaram em tais alegações. No entanto, eles permaneceram em silêncio, segundo disseram, com objetivo de impedir toda e qualquer atividade associada aos Estados Unidos. Muitos deles disseram que as guerras conduzidas pelo governo americano no Afeganistão e no Iraque os haviam levado a acreditar que a América pretende controlar o mundo islâmico, e que a campanha de vacinação contra a pólio lhes ofereceu uma oportunidade de resistir a uma iniciativa financiada pelos Estados Unidos.

Eles juraram que continuariam pregando contra as vacinações contra a pólio enquanto os Estados Unidos continuassem a pagar por elas, mesmo que essa atitude expusesse os seus próprios filhos a sérios riscos.

"As pessoas acreditam que a América odeia os muçulmanos, e, pouco importando as coisas ou as iniciativas que vêm dos Estados Unidos, que elas sejam boas ou ruins, essas pessoas rejeitam todas elas", explicou o xeique Muhammed Nasir Muhammed, o imame em chefe da segunda mesquita mais importante de Kano, o centro político muçulmano do norte da Nigéria.

A luta global para erradicar a poliomelite foi definida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como uma de suas duas prioridades mais importante na área da saúde pública, a outra sendo a pandemia de Aids.

"Nós estamos praticamente erradicando a pólio da face da Terra. Falta muito pouco para alcançar essa meta", declarou a doutora Lola Mabogunje, uma pediatra que está dirigindo a equipe de erradicação da pólio em Kano.

No entanto, os responsáveis pela batalha contra a poliomelite, que estão lidando com os últimos 667 casos existentes no mundo inteiro, estão enfrentando a sua tarefa mais difícil desde a campanha de erradicação foi iniciada, em 1988 - quando o vírus se alastrou por 125 países e infetou 370 mil crianças. Cerca de metade dos casos remanescentes foram detectados na Nigéria e no seu vizinho, o Niger.

Nesta semana, a Organização Mundial da Saúde irá convocar uma reunião com os ministros da saúde e os responsáveis locais para assuntos sanitários dos últimos seis países onde a pólio continua sendo transmitida - Nigéria, Niger, Índia, Afeganistão, Paquistão e Egito. O objetivo desta reunião em Genebra é obter um compromisso por parte de todos eles de pôr fim à transmissão do vírus até o final de 2004.

"As últimas localidades será as mais difíceis", estimou Bruce Aylward, um especialista da OMS que dirige a luta contra a pólio. "Mas nós temos uma motivação muito forte; esta é uma oportunidade de concluir esta missão de uma vez por todas. Muito tempo atrás, a comunidade internacional da saúde fez essa promessa, e a nossa meta é cumpri-la".

Essa parceria envolve uma variedade de protagonistas poderosos, que abrange desde os governos dos Estados Unidos e da União Européia até o clube Rotary International, passando por organizações das Nações Unidas tais como a Unicef e a OMS. Todos eles esperam fazer da pólio a segunda doença afetando o ser humano a ser erradicada para sempre, sendo que a primeira foi a varíola.

Mas, reservadamente, muitos dos responsáveis envolvidos na campanha contra a pólio temem não conseguir deter a sua transmissão até o final deste ano, e que isso possa provocar problemas mais graves num futuro próximo. Os financiamentos foram em parte cortados nos últimos anos, sendo este um dos fatores que forçaram o cancelamento das campanhas de vacinação em domicílio em cerca de 100 países no ano passado. Com isso, milhões de crianças não receberam a vacina e não estão protegidas, o que as coloca em perigo caso o vírus voltar a se espalhar de forma mais ampla.

Em segundo lugar, os responsáveis desses grupos sabem que quanto mais tempo eles demorarem a finalizar tais campanhas intensivas de imunização num país, quanto mais difíceis essas tarefas se tornarão. Os organizadores estão ficando exaustos em função dos enormes esforços que requer a tarefa de alcançar cada uma das crianças de até 5 anos. Os moradores dessas regiões, por sua vez, acabam se tornando desconfiados, uma vez que eles não entendem por que esses grupos internacionais se preocupam tanto com uma doença que parece afetá-los tão pouco, enquanto outras doenças letais, tais como o sarampo e a malária, são objeto de muito menos cuidados.

No Estado de Kano, no norte da Nigéria, os organizadores organizaram 20 campanhas de imunização contra a pólio nos últimos cinco anos. Antes do ano passado, essas campanhas só conseguiam alcançar um número bastante inferior a 80% das crianças, o nível mínimo necessário para impedir o vírus de proliferar. No ano passado, os esforços, na sua maioria, fracassaram, por causa, principalmente, das dúvidas de origem política que foram emitidas quanto à segurança da vacina. Com isso, o vírus não só infectou dezenas de crianças na região, como também se alastrou pelo sul da Nigéria, assim como em Gana, Burkina Faso, no Chade, no Togo, Benin e Camarões.

Os dirigentes do norte da Nigéria viram a sua influência política diminuir ao longo dos cerca de cinco anos do regime liderado pelo presidente Olusegun Obasanjo, um cristão do sul. Por conta disso, os funcionários de sua administração alegam que os dirigentes do norte estão se aproveitando dos problemas criados em torno da campanha contra a poliomelite para recuperar a sua influência política.

A manutenção das verbas tem sido problemática. A Comissão Européia decidiu, no outono passado, doar 12,9 milhões de euros (cerca de R$ 41 milhões), recorrendo para tanto à intermediação da OMS, e não diretamente ao governo nigeriano, em função de suspeitas que surgiram em relação à maneira com a qual o dinheiro foi gasto em circunstâncias anteriores. A decisão atrasou a liberação do dinheiro, interrompendo as campanhas de imunização no outono passado.

Respondendo a uma pergunta a respeito da decisão européia, a doutora Dere Awosika, a diretora do programa de imunização na Nigéria, irritada, negou a ocorrência de toda e qualquer malversação financeira. Durante a entrevista, um representante da União Européia, Gerald Moore, estava presente na platéia. Moore confirmou que a União Européia continuará doando dinheiro para as imunizações contra a poliomelite, mas admitiu desconhecer qualquer outro caso em que a União recorreu à intermediação de terceiros em função de preocupações quanto ao destino a ser dado a esse dinheiro. Quando ouviu essa declaração, Awosika cobriu o seu rosto com as mãos.

Além de todos esses problemas, despontam os sentimentos de antiamericanismo. Lola Mabogunje, que está dirigindo a equipe de erradicação da pólio em Kano, encontrou-se com vários clérigos muçulmanos, buscando a sua ajuda.

"O que mais os preocupa atualmente é o fosso existente entre os americanos e o mundo islâmico", explicou. "Para eles, praticamente todas as dificuldades são causadas por alguns americanos. Além disso, esta é a única linguagem que o povo parece entender".

Mas ela acrescentou que estava tentando enfrentar os sentimentos antiamericanos. "Vamos admitir, por exemplo, que os americanos estão travando uma nova guerra, desta vez contra a fertilidade. Mas, na hora de administrar a vacina, será que eles perguntam às crianças: 'Quais de vocês são muçulmanos, e quais de vocês são cristãos?' Não, eles não fazem isso. Então, como vocês podem dizer que essa campanha está sendo dirigida contra os muçulmanos?".

Bruce Aylward, o diretor da campanha de luta contra a pólio da OMS, explicou que a vacina em si não é produzida nem fabricada por uma companhia americana. "A maior parte dos lotes, produzidos pela companhia farmacêutica francesa Aventis Pasteur, é fabricada na Europa", disse.

Os centros americanos para o Controle das Doenças e a Agência (americana) para o Desenvolvimento Internacional são os mais importantes doadores para a campanha de erradicação global, sendo que as suas doações somaram US$ 120 milhões (cerca de R$ 340 milhões) em 2003; só para a Nigéria, as duas agências remeteram US$ 7 milhões (R$ 19 milhões).

Alguns líderes muçulmanos afirmaram que as doações americanas tornam essa campanha suspeita, enquanto uma minoria dentre eles ainda acredita que a vacina não seja segura.

Datti Ahmed, um médico muçulmano que é o presidente do Conselho Supremo da Nigéria para a charia (lei islâmica), declarou numa entrevista na sua corte em Kano que ele duvida da validade dos testes independentes que foram feitos sobre as vacinas, os quais foram conduzidos pela OMS, por um laboratório de uma universidade em Lagos, e por um patologista muçulmano, Abdulmumini Hassan Rafindadi, em três outros laboratórios no norte da Nigéria.

"Muito dinheiro vem sendo gasto pelas partes interessadas no sentido de garantirem que os resultados desses testes correspondam ao que elas esperam", disse.

Ele também insistiu que estava convencido de que existe uma motivação por parte dos Estados Unidos em promover remédios provocando a infertilidade. "Basta conferir na Internet", disse Ahmed. "Existem provas patentes de que o governo americano, num projeto que remonta a 35 anos, com Kissinger e Nixon, acreditavam que a população é o fator mais importante para a hegemonia americana no mundo", conta. "Uma vez que eles não podem aumentar rapidamente a população dos Estados Unidos, a única maneira para eles de dominar e exterminando os povos do Terceiro Mundo. Este é o motivo, no que nos diz respeito".

Então, o xeique Muhammed, o chefe imame da mesquita central de Waje, perguntou: "Como lidar com um inimigo? Nós, muçulmanos, odiamos a América. Tudo ficou mais grave agora. Como podemos confiar nesta nação, especialmente quando ela ajuda a comprar a vacina contra a pólio, e então coloca gotas dessa vacina na boca das nossas crianças?".

Na aldeia de Batakaye, que fica a cerca de 17 quilômetros ao sul de Kano, muitos pais, todos muçulmanos, disseram que eles aceitariam de bom grado essas gotas.

Mallam Ibrahim Wada, 52 anos, o líder da comunidade, explicou que por causa da infecção de quatro crianças - três das quais tinham apenas um ano de idade quando elas foram infectadas em maio passado - todo mundo entende a importância da vacina.

Wada acrescentou que as opiniões a respeito dos Estados Unidos são divididas. Segundo ele, muitas pessoas estão iradas com as guerras no Afeganistão e no Iraque, mas quase todo mundo na sua pequena aldeia também está ciente de que os Estados Unidos vêm prestando uma ajuda importante, há muito, para os países pobres.

Ao lado dele estava Abdul Kareem Sha'aibu, 38 anos, um fazendeiro, que segurava nos braços o seu filho, Kamzullahi, de cerca de 2 anos. A perna esquerda e o braço direito de Kamzullahi ficaram parcialmente paralisados devido à pólio, a partir de maio passado.

O pai vem se dedicando a cuidar do seu filho, levando-o toda semana para uma sessão de fisioterapia num hospital que fica a 8 quilômetros da aldeia.

"O que aconteceu foi pela vontade de Deus", prosseguiu Sha'aibu, diante de uma multidão de mais de 50 aldeenses reunidos na frente de sua casinha de taipa. "Quando eles voltarem por aqui com a vacina, todas as nossas crianças a tomarão. Eles vêem o que aconteceu com Kamzullahi e com as outras três crianças. Mas eu não desisti de ver o meu filho sarar. Sou otimista e tenho certeza que ele voltará a andar, se Deus quiser".

Ele sorriu, radiante. "Sou otimista e tenho certeza de que o meu filho se tornará alguém importante, o líder desta aldeia, um dia desse, com ou sem pólio", acrescentou.

O pai, ainda sorrindo, colocou o seu filho no chão. As pernas do menino vacilaram e o seu corpo caiu no chão, onde ele sentou em silêncio, aos pés do pai. Jean-Yves de Neufville

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