Cientistas vivem integralmente no horário marciano

Beth Daley
EM PASADENA, Califórnia

Como candidatos a vampiro em fase de treinamento, os cientistas dormem em quartos com cortinas totalmente impermeáveis à luz. Eles usam estranhos relógios de pulso, que às vezes lhes avisam que estão no meio da noite quando todo mundo está almoçando. Alguns deles já foram fazer compras no supermercado às duas da manhã e, a seguir, deixaram as sacolas em casa e saíram para dar uma corrida.

Mais de 250 cientistas que trabalham na missão do veículo robô espacial Spirit estão vivendo no horário marciano, um fenômeno que está criando um dos piores casos já presenciados de "jet lag" coletivo. Marte leva 39 minutos e 35 segundos a mais do que a Terra para dar uma volta completa em torno do seu eixo e, portanto, os cientistas precisam esticar os seus horários todos os dias na mesma proporção a fim de que possam acompanhar o ritmo do Spirit. O horário mutável pode, a princípio, parecer uma boa desculpa para que os cientistas durmam um pouco mais. Porém, ao término da missão, daqui a três meses, os cientistas terão atropelado dois dias terrestres inteiros e estarão recomeçando todo o processo.

Bastante preocupados com a possibilidade de cometerem erros devido à fadiga, os cientistas da Nasa consultaram famosos especialistas em sono, buscando conselhos. Mas, em uma inversão dos fatos, os próprios cientistas se tornaram agora objetos de um experimento. Usando pequenos monitores de atividade, eles estão ajudando os especialistas em sono a entender como exatamente se comporta o organismo quando os indivíduos acordam em horários diferentes todos os dias, durantes meses. Enquanto isso, outras experiências mais controladas estão sendo conduzidas no Hospital Brigham, em Boston. Lá, voluntários estão vivendo segundo um horário marciano mais rigoroso, para que os cientistas descubram como os o organismo se adapta ao novo ritmo.

Nesta quarta-feira o presidente Bush poderá anunciar o projeto de construção de uma estação científica na Lua, que poderia servir como base de partida para missões tripuladas a Marte. E, embora a pesquisa sobre o sono possa ajudar na realização desse projeto, ela provavelmente terá um significado mais imediato para os milhões de terráqueos que sofrem de jet lag, de fadiga associada ao trabalho em turnos variáveis e de ritmos de sono conturbados.

A privação do sono está associada a problemas de saúde, à diminuição da memória e a erros cometidos no trabalho. Se os pesquisadores conseguirem, de alguma forma, ensinar o corpo a se adaptar a um ritmo circadiano diferente, terão dado um grande passo para garantir que todos tenham uma boa noite de sono.

"Há várias conseqüências para os indivíduos na Terra", afirma Charles Czeisler, chefe da Divisão de Medicina do Sono do Hospital Brigham e professor da Escola de Medicina da Universidade Harvard. Nesta semana, Czeisler apresentará sua pesquisa ao Instituto Nacional de Pesquisas Biomédicas Espaciais, no Texas, revelando que os voluntários de Boston foram capazes de se ajustar ao horário do planeta vermelho ao receberem duas sessões diárias de terapia luminosa ao final do dia marciano.

Pode ser que, no momento, os cientistas que acompanham o Spirit estejam sobrevivendo satisfatoriamente na base da adrenalina, mas a fadiga deve aumentar bastante, à medida que eles deixarem diariamente as instalações do Laboratório de Jatopropulsão, em Pasadena, ao final do dia marciano, e saírem ao sol da Califórnia. Em 25 de janeiro, a situação deve piorar: o irmão gêmeo do Spirit, o Opportunity, vai pousar no outro lado do planeta, em uma região de fuso horário diferente, obrigando aqueles cientistas que desejam acompanhar as duas sondas a mudar de horário sem parar.

Foi a pura exaustão provocada pela missão marciana com o veículo Sojourner, em 1997, que fez com que os cientistas percebessem que precisavam de orientação profissional sobre o sono. Naquela ocasião, o pequeno jipe-robô de 60 centímetros de comprimento contrariou todas as adversidades e durou um mês inteiro. Após quatro semanas trabalhando de 12 a 20 horas por dia para aproveitar a oportunidade sem precedentes, os cientistas desmoronaram de cansaço. "Não dá mais para fazer tal coisa. Passamos por um motim", conta Albert Haldemman, um dos diretores da missão Spirit, que também trabalhou com a Sojourner. "Depois daquela experiência voltamos a trabalhar de nove às cinco. Viver segundo o horário marciano é extremamente difícil".

Desde então, especialistas em sono das universidades Brown, Stanford e Harvard, juntamente com profissionais do Grupo Ames de Contramedidas para a Fadiga, da Nasa, deram vários conselhos aos cientistas. O principal deles foi que reduzissem a exposição à luz quando saíssem do trabalho, já que os raios luminosos são capazes de reativar os relógios internos e manter os cientistas acordados quando eles necessitam de sono. Os apartamentos onde dormem os pesquisadores visitantes são dotados de cortinas totalmente impermeáveis à luz, e a Nasa insistiu que os seus funcionários que desempenham trabalhos críticos para a missão seguissem uma rigorosa agenda de trabalho, contando com dias específicos para o descanso. Os membros da equipe receberam também relógios especialmente projetados, e a Nasa chegou a criar até mesmo uma sala de repouso, onde os cientistas podem tirar sonecas de 15 minutos. "Descobrimos que dormir no trabalho não é algo necessariamente ruim", diz Haldemann.

Cerca de 35 cientistas da missão marciana, incluindo Haldemann, estão usando pequenos acelerômetros nos pulsos. Esses aparelhos registram todos os movimentos feitos pelos indivíduos, o horário em que vão dormir e o período de sono. Os cientistas também possuem cadernetas, nas quais anotam os horários em que tentaram dormir. São informações básicas, mas Melissa Mallis, do Grupo de Contramedidas para a Fadiga, está coletando esses dados pela primeira vez em um ambiente operacional - e não em uma experiência controlada de laboratório. Um dos seus objetivos é a criação de horários melhores de trabalho e de descanso, tanto para os futuros viajantes que irão a Marte como para os cientistas que ficarão na Terra.

Enquanto isso, Czeisler e Kenneth Wright Jr., da Universidade do Colorado em Boulder, deram início a um estudo, cuja duração será de três anos, no qual doze indivíduos ficarão isolados, por um período de 73 dias cada, nas instalações de Brigham, para que sejam estudados mais profundamente os efeitos do dia marciano sobre os ritmos biológicos. Embora haja grande publicidade em torno da melatonina, a substância química que governa o ciclo de sono e vigília, esses cientistas acreditam que a luz é um fator bem mais promissor, já que fornece ao organismo indicações para que este se ajuste a diferentes fusos horários ou relógios, seja em Moscou ou em Marte.

"A luz é como uma droga. O momento em que é administrada determina a natureza da resposta", explica Czeisler. A luz ajuda a reprogramar o relógio interno do corpo e uma exposição prolongada aos raios luminosos na hora de dormir pode arruinar o sono.

Mas, mesmo com a ajuda dos especialistas em sono, a vida dos cientistas deve ficar mais difícil com o passar das semanas - afinal, as contas ainda precisam ser pagas e os filhos necessitam de atenção. "Podemos deixar muitas coisas de lado por um mês, mas não por um período maior", afirma Matthew Golombek, veterano da missão Sojourner, cujo trabalho com o Spirit deverá se estender por meses. "O mais difícil é o fato de nunca sabermos que horas são".

bdaley@globe.com Danilo Fonseca

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